« C L A R I C E »
Com tanta gente importante no pedaço, eu já deveria esperar que a minha namorada – que por acaso é a Val – não estaria disponível para mim. Ao menos não tanto quanto costumava estar. Ela não era o cargo mais alto dentro da filial da América do Sul – por escolha dela própria, que optou por continuar fazendo seus projetos que gerindo a galera toda, – mas era parte do conselho administrativo, o que a colocava lá no topo do organograma e não poderia evitar esse pessoal por aqui.
Era quinta-feira e já não lembrava mais a última vez que consegui a atenção de Val para mim por mais de dez minutos sem que alguém a ligasse, ou tivesse uma reunião para começar, ou que estivesse sozinha. Não satisfeita em encher a minha namorada de trabalho, essa tal Margot não saía de perto também e a Val por algum motivo aceitava todas as suas demandas, até quando não era relacionado a trabalho.
Eu só queria um beijinho, um chamego e um carinho para ser feliz, mas não existe isso quando se tem que trabalhar…
Será que a Val se sentia assim quando era eu que estava pirando com a faculdade? Ainda estou, mas num ritmo mais leve – e saudável.
Ninguém estava feliz com toda essa gente aqui, mas para mim estava sendo um inferno extra.
Os olhares e cochichos ao redor de mim ficaram ainda maiores e frequentes. Eu passava a maior parte do meu tempo com a minha equipe e como usávamos um espaço mais afastado, não tinha tanto contato com o resto do escritório. Mas infelizmente, não era possível evitar a todos a todo instante. Uma hora ou outra, eu precisava fazer meu serviço de corno – também conhecido de estagiária – e para isso precisava passar pelo piso principal.
No contrato de trabalho do estagiário também tem a clausula onde você vende a sua alma e se torna escrava…
– Ah, ê. Parabéns, Clarice! – Gustavo me cercou enquanto eu passava pelo piso inferior. – Mostrou que tem talento… talento para fazer merda. Não bastou queimar a impressora 3D, você quis foder com todo mundo trazendo essa gente toda para cá com as cagadas que ‘cê faz. Tá gostando de todo o trabalho extra?
– Meu, conta isso aí direito. Como é que você conseguiu essa façanha? – Henrique, o estagiário mais velho e muito em breve novo funcionário, perguntou. – Eu estou há um bom tempo por aqui e essa é a primeira vez que vejo uma estagiária conseguir atrair essa galera para cá. O que que você fez?
– Ela foi até suspensa, irmão.
– Já sabemos quem não vai ser efetivada, – zombaram.
Por mais que eu quisesse responder, segurei a minha língua dentro da boca. Já tinha causado problemas demais, a última coisa que iria querer era parar no RH com dois babacas. Tenho certeza que a Val iria dar o seu jeito para livrar a minha barra, mas não sem querer me dar bons cascudos… ela já está tendo stress o suficiente.
E bem… eu estava bastante ocupada para perder meu tempo com dois idiotas. Tinha algo muito mais importante para fazer… como ir atrás de uma certa morena que vi fugindo para o terraço.
Empurrei a porta metálica que dava acesso ao heliponto do edifício com um esforço surreal para conseguir atravessar a barreira de vento. Eu sabia que não era forte, mas fruta que partiu, eu sempre fui assim tão frangote? Jesus. As outras vezes que vim aqui, quem abriu foi a Val e ela fez parecer tão fácil.
Por ter usada toda a forço existente em meu corpo, eu acabei indo com tudo para frente e fazendo um baita barulhão. Val que estava por perto, deu um pequeno salto como se tivesse sido pega em flagrante. E foi. De longe, o movimento da mão foi claro: ela estava tentando esconder algo atrás das costas. Um cigarro. Ótimo.
Quando me aproximei mais, o cheiro de tabaco me atingiu, misturado ao ar cortante. Ela virou o rosto rapidamente, apertando os lábios como se pudesse apagar o que tinha feito só com um olhar de desculpas.
– O que está fazendo? – Perguntei firme, impaciente.
– Eu estava estressada.
– E aí por que estava estressada decidiu fumar? Desde quando você fuma?
– Eu literalmente nasci na França, você deveria ficar surpresa por eu não fumar.
Ela estava prestes a guardar o aparelho em seu bolso do blazer, mas eu tomei de sua mão. – Que mané francesa o que. Você é franco-brasileira. Não me interessa onde nasceu ou se os franceses fumam como chaminé. Você está no Brasil agora e fumar é feio. Faz mal, te deixa dodói. Quer ficar dodói?
– É um cigarro aquecido, não faz tão mal assim, – tentou justificar, mas o olhar que lancei foi o suficiente para entender que não gostei. – Desculpa… eu só… todo mundo está me deixando louca. Eu precisava de uma válvula de escape.
– Com tantas possibilidades, você escolheu fumar como a sua válvula de escape? Olha, francamente… você precisa procurar outros meios de relaxar.
– Eu tive uma recaída. Mas você tem razão, isso não vai se repetir. Foi só dessa vez.
– Se foi dessa vez significa que não vai precisar disso.
Eu não sei o que deu em mim, muito menos de onde tirei coragem. Antes mesmo que pudesse racionalizar meus atos, eu já tinha lançado o aparelho longe. Acho que nem Valquíria esperava por essa, já que ela se apoiou no encosto da parede para ver seu objeto cair mais de vinte andares de altura.
– Você enlouqueceu? Isso não é vendido no Brasil!
– Melhor ainda, – eu me juntei a ela para ver… ou tentar, já que minha altura não favorecia. – Talvez eu tenha exagerado um pouco…, mas não iria precisar dele, até por que você não irá fumar mais. Eu não posso namorar uma fumante, – Val se virou para mim muitíssimo preocupada. – Eu tenho asma, esqueceu?
E falando nela… senti uma leve pontada no peito, aquela sensação desagradável tão familiar começando a tomar conta de mim. De fato, não tinha o cheiro forte de um cigarro comum, honestamente eu quase não senti nada e talvez por isso tenha demorado um pouco mais para a asma dar seus sinais, mas definitivamente não era seguro continuar ali por muito mais tempo. O problema nunca é o cheiro, é a fumaça e por mais que a Val tenha parado assim que cheguei, a fumaça estava ali.
– Eu vou voltar lá para dentro. Esse seu cigarro aquecido aí pode não fazer mal para você, mas para mim já começou.
– O que está sentindo? É uma crise? – Val apalpou os bolsos. – Putain! Eu deixei suas bombinhas na minha sala.
Ergui o cenho surpresa. – Você anda com a minha bombinha no bolso?
– Nunca se sabe.
– E mesmo andando com a minha bombinha no bolso você achou uma boa ideia fumar? Olha, eu deveria te dar uns cascudos… enfim, não se preocupe. É só uma pontada e graças a você, eu tenho uma bombinha na minha gaveta.
Val me olhou tal qual um cachorro que faz merda e sabe. – Je suis désolé (me desculpe).
– A gente podia estar nos amando, nos beijando, trocando carinhos e aproveitando que finalmente estamos sozinhas, mas não… eu estou boladona com você dona Valquíria.
– Se eu te levar para comer no Mc Donald’s depois do expediente irá me perdoar?
Olha que cretina… me comprando com comida.
– Se até lá você não estiver com esse cheiro… e se eu puder pedir um sundae também. Agora eu vou de verdade, – agarrei seu blazer e a puxei para baixo para lhe roubar um selinho. – Eu estou de olho em você!
Eu estava bolada com a Val, mas a entendia. Eu também estaria surtando se não me dessem um único momento de paz. Parte de mim se sentia culpada por todo esse stress e pressão que está passando.
A pontada se transformou em um aperto e esse foi o meu sinal para sair. A Val veio logo atrás de mim. Perto suficiente para me ver, longe o bastante para não agravar ainda mais a minha situação. Era visível em seu rosto a preocupação e como eu havia alugado um triplex em sua cabeça.
Na metade do caminho, eu percebi que calculei errado a minha “capacidade pulmonar” e me dei conta de que descer até o escritório e chegar a minha mesa era longe. Ou ia mais devagar para fazer menos esforço e prolongava essa agonia ou ia o mais rápido possível torcendo para resistir até lá. Antes que tomasse a minha decisão, me lembrei que não estava sozinha. Bastou olhar para trás e Val entendeu meu recado.
Ela passou por mim como uma leoa. Algo me dizia que ela só não me levou junto com medo de piorar ainda mais a situação. Não que fosse necessário, eu não estava mal. Quem tem asma sabe que existem crises e crises e no momento não era algo como o vexame do Ibirapuera. Poderia ser, se eu estivesse sozinha, mas esse não é o meu caso.
– Ici ! Ici ! Utilise ton inhalateur ! (Aqui! Aqui! Use seu inalador!) – Val que vinha chacoalhando a bombinha há uns passos de distância, entregou o remédio pronto para usar. – E então? Está melhor? Como está se sentindo?
– Ótima! Poderia correr uma maratona.
– Você não tem condicionamento físico para correr uma maratona.
A encarei séria e a minha vontade de dar uns petelecos passou quando percebi que não foi uma afronta. Essa era a Val sendo – brutalmente – sincera.
– Eu estou bem agora.
– De verdade?
– Sim… agora é melhor circular, – comentei ao perceber que os nossos visitantes estavam se aproximando. – Estamos começando atrair atenção e você ainda está com cheiro. Fraco, mas ainda está.
Devolvi a bombinha de Val e lhe dei um sorriso antes de ir para a minha mesa. Foi o timing perfeito, bastou eu me afastar para Margot e Jean-Luc aparecerem. De longe vi o olhar de Margot para Val e tremi as bases. Rapidinho enfiei a cara nos desenhos a minha frente para não ser vista por essa mulher…
Dessa vez, Val entrou em sua sala e nem um minuto depois saiu de lá. Como eu não entendo nada de francês, não sabia o que tinha conversado com os dois que ficaram com cara de tacho.
A minha vida seguiu triste e sem amor. Minha esperança era a promessa de um Méqui no fim do dia. Honestamente, eu não estava colocando tanta fé assim. A pobre da Val acha que tem algum controle sobre a sua vida, mas a realidade não é bem assim. É muito fácil alguém mandar na Val, às vezes acho que até eu consigo.
Faltavam menos de quarenta minutos para acabar meu expediente e aos poucos começava acreditar que de fato não teria lanchinho para mim, ao menos não acompanhada. Ouvi boatos de Letícia que a Val não participou de uma das reuniões que aconteceram e que se quer estava no escritório. Ou seja, quais as chances?
Se ela ao menos respondesse minhas mensagens.
– Ué, gente. Outro figurino para o dia? – Mateus comentou, e eu curiosa que sou, desviei atenção do meu trabalho para ver o que era. E ainda bem que fiz.
Valquíria estava muito gostosa usando um conjunto todo branco. A blusa de mangas longas, com um sofisticado decote em V que era a minha perdição. A saia lápis de cintura alta realçava sua silhueta e a fenda frontal da saia me convidava a ter pensamentos obscenos para o ambiente.
Eu deveria imaginar que a minha namorada sendo como ela é, iria ser radical sobre o fato de cheirar a cigarro, mesmo que quase imperceptível só pelo fato de isso ter me desencadeado uma crise de asma. Ela não só trocou de roupa como tomou banho e lavou o cabelo.
Valquíria estava de cabelo úmido… eu nunca a vi assim… não no trabalho.
Era óbvio que não iria perder a oportunidade de ir perturba-la, até porque ela estava muito gostosa. Pouco depois que a Val entrou em sua sala, eu fui logo atrás para “entregar” um documento.
– Eu não acredito que você foi em casa tomar banho.
– Você disse que só sairia comigo se não estivesse com cheiro ruim. Espero que agora eu esteja cheirosa o bastante para você.
Levando em consideração que estamos falando de Valquíria, a pessoa mais cheirosa que conheço e que tem todo um ritual em seu banho do dia a dia, agora que decidiu que queria causar boa impressão com seu aroma conheci outro patamar de pessoa cheirosa.
– Cheirosa assim só para sair comigo… vou começar a achar que está tentando me seduzir.
– Você ainda tem dúvidas? – Ela se levantou e veio em minha direção com os olhos fixos nos meus. – Essa noite eu quero você nua na minha cama. Você disse mais cedo que eu precisava procurar outros meios de relaxar… e eu encontrei bem aqui – ela parou a minha frente, – na sua língua… nos seus dedos – ela chegou bem pertinho do meu ouvido e sussurrou; – entre as suas pernas.
Pensei que seria beijada, mas o toque na porta nos obrigou a afastar.
– Val… a Margot e o Jean-luc estão te esperando na sala de conferência.
– Eu vou fazer o que pediu, – inventei uma conversa fiada. – Boa sorte na sua reunião.
A cara de sofrimento da Val foi impagável. A pobi…
Ao fim do expediente, eu fui esperar pela minha namorada no local que se tornou o nosso ponto de encontro: o heliponto. Enquanto aguardava sentada na borda da plataforma de pouso, fiquei desenhando no meu caderno, pensando na vida e observando São Paulo do alto. Ali pelo menos conseguia ver o horizonte sem estar muito próxima ao limite do terraço. Gosto da vista, mas ainda sou cagona e tenho medo cair tendo guarda-corpo ou não.
Valquíria sempre atrasava. Das poucas vezes que conseguimos combinar um encontro aqui no alto, ela nunca chegou sem no mínimo uns dez ou quinze minutos de atraso. Mas sinceramente, eu nem via o tempo passar. Também não era como se eu estivesse doida para voltar para casa.
– Com tanto talento para o desenho, ainda me surpreende que tenha optado por arquitetura, – a Val comentou, ao se aproximar e se sentar ao meu lado. Por incrível que pareça, ela não me pegou de surpresa. Seu cheiro denunciou sua chegada. A recebi com um beijo no rosto e fui abraçava de volta.
– Está falando sério? – Perguntei em tom curioso. – Você normalmente não gosta dos meus desenhos… e até meus projetos.
Val juntou as sobrancelhas confusa. – Quando foi que eu não gostei de algo que fez?
– Na entrevista que você olhou meu portfólio e achou tão ruim que nem quis falar comigo… agora que estamos namorando estou começando a suspeitar que me contratou porque me achou linda e quis me paquerar.
– Foi isso que achou aquele dia? – Ela fez uma careta de surpresa e ao mesmo tempo espanto. – Embora eu pudesse facilmente te contratar por te achar linda e querer te paquerar, eu não achei necessário continuar a entrevista porque eu já sabia que iria te contratar depois que vi seu portifólio. Agora estou surpresa em saber que achou que não tinha gostado.
– Você não é a pessoa mais fácil de se ler, meu bem.
E não, esse “meu bem” não foi ironia ou sarcasmo. Foi exatamente o que ele é; um apelido carinhoso. Dito entre carinhos trocados e um sorriso de que está apaixonado e não consegue fazer outra coisa senão sorrir ao ver seu amor.
– E não parou por aí, – continuei. – Você uma vez perguntou por que eu ainda perdia meu tempo na faculdade e soou como se eu devesse largar por ser horrível.
– Non! Non! – Val se desesperou e eu ri. – Mon Dieu, que horror. Eu jamais falaria isso para você. Principalmente você… é uma estagiária e consegue se sair tão bem quanto muitos dos arquitetos que trabalham aqui há muitos anos. Eu tenho certeza que ainda fará muito sucesso. E quem sabe receber um Pritzker, por que não?
– Acha isso mesmo ou está falando isso por que eu sou sua namorada?
– Estou falando porque é a verdade. Eu te contratei com a intenção de te fazer a minha sucessora, mas hoje em dia me questiono se realmente devo.
A revelação me pegou de surpresa. Eu jamais me imaginaria sendo sucessora de alguém tão… foda…. como a Val. Sequer imaginava que seria boa o suficiente para trabalhar com ela, dirá lá virar sucessora.
– Não me interprete mal, por favor. Eu só acho que, apesar de todo potencial que tem como arquiteta, ainda acho que tem muito mais potencial em artes visuais.
– Eu queria fazer artes visuais quando era pequena.
– Você ainda é pequena.
Revirei os olhos. – Quando eu era criança… bobona, – ela riu e me roubou um selinho. – Eu já te falei que a minha mãe era professora da Belas Artes? Eu basicamente cresci dentro do campus da Vila Mariana, ia para lá todos os dias, inclusive finais de semana até que… enfim. Hoje em dia eu já nem pinto mais. Faz muito tempo desde a última vez que peguei num pincel, acho que já nem tenho um.
Val se inclinou para o lado para me encarar sem separar o nosso abraço. – Você também pinta e nunca me falou isso? Não acredito… quando vai me mostrar um quadro seu?
– E nem ia. Eu sempre achei que você me achava péssima. Também não é como se eu tivesse algo para mostrar. Os poucos quadros que tinha, eu vendi todos.
– Você é inacreditável, Clarice.
Se a Val já não ficou nada contente em saber que vendi todos meus quadros, imagine quando souber que só tive uma cliente na vida e ela era a minha quase-ex. Sim… eu vendi para a Diana. Na verdade, eu só tinha uns três, dois quadros e o resto ela me pagou para fazer.
E falando nessa bobona… acabei me lembrando que teria que existir no mesmo ambiente que ela esse final de semana. Meu grupo do projeto da faculdade me convenceu a fazer um curso de extensão lá na ponte que partiu. Há seis meses quando me inscrevi parecia legal. Interior do estado, o local é bem lindo e inspiração por si só, um final de semana e um peso enorme no currículo, mas o melhor de tudo: a Marina trabalha para um dos patrocinadores e recebeu cupons de desconto.
Só depois que eu paguei – e não tinha mais direito a reembolso – que descobri que uma das palestrantes era a minha ex. Pense como fiquei feliz… e pensar que hoje eu estou nem aí. Nem ando pela faculdade preocupada se vou esbarrar nela, simplesmente não importo. Talvez eu me preocupe com a reação da Val, ainda não sei ao certo o seu nível de ciúme, mas algo me diz que é melhor não descobrir.
Embora estivesse bem gostoso ficar a sós com a minha namorada no topo da cidade, São Paulo não era conhecida como cidade da garoa por nada. Quando caiu as primeiras gotas, Val já disse para irmos embora. No caminho, Valquíria cumpriu sua promessa e me comprou um monte de lanches em um Drive Thru aleatório que estava em nosso caminho.
Já no apartamento, começamos a nossa noite comendo na sala de jantar. Era estranho pensar que não ter vindo aqui ainda essa semana causava estranheza. Não sei se estou fazendo sentindo, eu só acho que é estranho estranhar o fato de não ter vindo na casa da Val…
– Esse final de semana eu tenho um curso de extensão, – comentei enquanto comíamos. Val me observou com uma mistura de surpresa e desconfiança. – Eu não comentei antes porque eu tinha me esquecido, – me justifiquei. – Foi caro para simplesmente não ir.
– Está indo estudar ou trabalhar, Clarice?
– Estudar… é sério.
Ela comeu uma batatinha me analisando pelo olhar. – E vai até que horas?
– Às 17h, mas é longe. Uma hora e meia de carro.
– Nossa…, mas onde vai ser isso?
– No Parque Estadual do Juquery… em Franco da Rocha.
– Não tinha um lugar mais longe? E como você vai?
– Vou de carona com o meu grupo do projeto, mas tem como ir de trem também…
– Imagino o tempo que iria levar se fosse de trem. Quer pegar meu carro? Eu não vou estar na cidade e mesmo se tivesse, ainda tem o Jeep.
E eu pensei que estava me oferecendo o Jeep… nem louca que eu iria pegar estrada com o Mercedes. Ela é louca?!
– Aliás, quais são os seus planos para esse final de semana? – Perguntei genuinamente interessada.
– Os meus? Ficar em paz com a minha namorada. E os planos da minha família não são os mesmos que o meu, então sábado eu vou para o Rio de Janeiro visitar minha avó. E domingo vou participar de um evento chato, com pessoas chatas que fingem estar gostando para fazer o tal do “networking”. Eu tenho uma fila de espera tão longa quanto uma gestação e ainda preciso me mover num domingo para fazer networking.
– Você pode fazer networking no Apex.
Val quase engasgou com o seu vinho. E sim, ela estava comendo McDonald’s e tomando vinho. – Se eu der essa sugestão para a Margot acho que ela terá um infarto.
– Esse evento vai até tarde da noite? Eu queria te ver pelo menos um pouquinho.
– Dorme aqui domingo, – Val sugeriu. – Mas durma sabendo que não irá para a aula na manhã seguinte e eu vou dar um jeito de não ir para o escritório pela manhã.
– Que má influência a sua…
Meu problema de faltar a faculdade é o fato de ter que ficar em casa. Eu evito a minha casa tal qual diabo evita a cruz. Mas como estaria com a Val, não teria problema perder um dia… eu acho que sou a única estudante que não calcula quantas faltas pode ter sem ser reprovado.
Depois do jantar, nós fomos para a sala. Val sempre bebe vinho em suas refeições, no entanto, raramente bebia mais que duas taças. Hoje, porém, a vi finalizar a terceira e se servir a quarta. E não, ela não estava bêbada bêbada. Alegre, relaxada e sem filtro… talvez.
– Você não acha que já está bebendo demais para uma quinta-feira a noite que terá que trabalhar na manhã seguinte? – Perguntei tirando a taça de sua mão para colocar na mesa de centro. – Vamos dar uma segurada.
– Eu não estou bêbada.
– Eu sei…, mas se continuar assim… você não vai me levar para casa hoje, só avisando.
– Você bem que poderia dormir aqui hoje, – comentou sem filtro. – Estou com saudades acumulada e agora com saudades por antecipação.
Val me abraçou e beijou o meu rosto.
Muito provavelmente, se eu dormir fora meu pai sequer irá notar. Honestamente, acho que enquanto eu não aparecesse grávida em casa, ele não estava se importando muito o que fazia ou deixava de fazer. Acho que para ele, teria sido muito melhor se eu tivesse morrido junto com a minha mãe, mas para seu azar e infelicidade eu continuei vida – ou apenas sobrevivendo.
O problema de dormir fora é a tia Lúcia que, com toda certeza, irá questionar e querer saber todos os detalhes… quer saber, eu vou ficar.
– Eu fico essa noite, mas não vou faltar a aula amanhã.
– Tudo bem, eu te levo, – a encarei desconfiada. – Eu prometo…
– Eu estou falando sério. Amanhã eu tenho aula de cálculo de carga nas estruturas e eu não posso faltar. Estou indo muito mal nessa matéria, não tem um exercício que eu faço que dá certo, sempre tem algo de errado. Aí a professora explica, eu acho que entendi e erro numa parte diferente.
Valquíria me observava com atenção enquanto desabafava sobre a faculdade, mas havia algo diferente no jeito em que ela me olhava. Suas bochechas estavam um pouco coradas, provavelmente pela quantidade de vinho que bebeu, e pela forma que mordia os lábios, sabia que não estava dando muitos ouvidos ao que dizia.
De repente, ela suspirou e, sem aviso, interrompeu a conversa.
– Clarice… me beija!
Não foi um pedido. Aquilo foi uma ordem… ordem que me pegou desprevenida não só pela ordem repentina, mas também pela forma sensual que isso soou.
– Eu estava no meio de um desabafo muito importante sobre cálculos, sabia? – A provoquei, mas o sorriso em meu rosto traiu qualquer tentativa de resistência, embora eu não tinha intenções algumas de resistir.
Val aproximou ainda mais os nossos lábios colando os nossos corpos. – Podemos resolver sobre os cálculos depois… eu preciso de você agora e não aguento mais esperar.
Nossos lábios se encontraram em um beijo intenso carregado de saudades acumulada. Havia urgência e um desejo a muito tempo contido. Essa distância entre nós, ainda que temporária, não estava dando muito certo.
Valquíria tirou a minha camisa e sutiã sem delongas. Não estávamos aproveitando o momento. A saudade pedia pressa, como se cada segundo fosse valioso demais para desperdiçar.
Seus beijos pelo meu pescoço me fizeram suspirar. Entre as minhas pernas sentia o efeito molhado que seu toque sobre a minha pele me causava. Val desceu até meus seios dando leves mordidas e chupões pelo caminho e então me abocanhou. Estava tão absorta com a sua língua em meu peito que não percebi sua mão vagar pelo meu corpo até a barra da minha calça.
Val se afastou de mim para se livrar da minha calça. Aproveitei a ocasião para tirar a sua camisa também. Ela me secou com o olhar e mordeu o lábio inferior, isso foi o suficiente para me fazer corar.
– Tu es belle, ma petite ! – Val começou com seus elogios repentinos. Dessa vez eu estava preparada e entendi muito bem, “você é linda, sei-lá-o-que”. – Senta aqui, – ela me chamou para o seu colo e eu obedeci.
Fui recebida com um beijo lento e ardente. Val me envolveu colando nossos corpos e descansou a mão sobre a minha coxa, seus dedos perigosamente próximos da minha parte mais intima. Com a outra mão, ela apalpou meu seio pinçando o bico entre os dedos me fazendo gemer em seus lábios.
Bastou esse contato para sentir meu ápice se construir dolorosamente lento. Faltava tão pouco e essa demora estava me torturando. E mesmo com todos os meus sinais, Val não atendeu ao meu pedido silencioso prolongando esse sofrimento me obrigando a suplicar.
– Val, por favor…
– Use as palavras, mon amour – ela fez mais pressão nos dedos causando uma leve dor em meu seio e empurrando para ainda mais perto do meu limite.
– Por favor, – supliquei. – Me faz gozar, por favor…
– Avec beaucoup de plaisir… – sua voz soou tão sensual perto do meu ouvido que faltou pouco para eu me desfazer em seu colo.
Val inverteu as mãos. A que estava próxima da minha virilha agora massageava meu seio enquanto a outra invadia a minha calcinha sem cerimonias. Eu estava tão molhada que Val encontrou zero resistência ao me enfiar os dedos.
Fui fraca.
Sua boca em meu pescoço, a mão em meus seios e os dedos dentro de mim foram demais para aguentar por muito tempo. Sem mais forças para resistir, me deixei desaguar nos dedos e colo de Val em um orgasmo longo e demorado.
– Pu…ta! – Mordi o lábio inferior numa tentativa falha de conter meus gemidos. – Val… eu… o que foi isso?
– O começo, nós ainda não terminamos.
Ouvir isso enquanto ainda tinha pequenos espasmos no corpo me deixou preocupada. Ela disse que me deixaria ir para aula amanhã, mas agora tinha minhas dúvidas sobre deixar dormir.
Eu ainda estava me recuperando quando Val tirou a mão de minha calcinha e levou direto para sua boca. Pisquei várias vezes a observando chupar meu gozo em seus dedos… quase tive outro orgasmo ali mesmo.
Me levantei do colo da Val e senti minhas bochechas queimarem de vergonha ao notar a marca úmida em sua saia onde eu estava sentada. Eu estava vergonhosamente molhada.
– Está tudo bem, mon amour. É só lavar.
– Você comentar não me faz sentir melhor.
Ela riu. – Eu posso tirar se você quiser.
– Você é uma safada, Valquíria… tira logo.
Que é? Ela não era a única safada aqui e a nossa noite estava só começando!
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