« C L A R I C E »
– Eu perguntei o que eu sou para você, – Valquíria repetiu, agora com mais firmeza. – Porque hoje, na feira, você me apresentou como a sua chefe. E eu quero entender… é isso que eu sou para você?
Meu sistema entrou em pane.
Eu não sabia como responder. Por um lado, a Val era a minha chefe, mas por outro… ela era o que? Meus instintos diziam que minha vida dependia da resposta que daria.
Na dúvida, eu tomei a decisão mais sensata: estacionei o carro da conveniência do posto perto de nós me dando tempo para pensar e refletir.
Acontece que não foi o suficiente e agora paradas, eu ainda não sabia o que dizer?
– Quer uma água? – Perguntei.
– Clarice.
Dessa vez não colou.
– Ok… eu… eu… – suspirei derrotada. Só havia uma forma de responder a essa pergunta: sendo sincera. – Eu não sabia o que dizer, – respondi, com a voz trêmula. – Ninguém sabe, eu pensei que não deveríamos falar. E eu… eu fiquei com medo… medo de falar algo errado e acabar com tudo… chefe era a opção mais segura. Ao menos, foi o que eu pensei.
Valquíria suspirou, e pela primeira vez desde que saímos da exposição, olhou diretamente para mim. Havia uma mistura de tristeza e frustração em seu olhar que fez meu coração apertar.
– Era isso?
– Sim. O que mais poderia ser?
– Não sei… talvez estivesse envergonhada.
– Envergonhada? Envergonhada do que?
– Nós não nos expomos no trabalho porquê você é a minha estagiária. Eu não quero que pensem que você só está lá por se relacionar comigo e não pelo seu talento.
– Talento? Você acha que eu tenho talento?
– Eu já te falei inúmeras vezes.
Disse?
– Enfim, – Valquíria continuou. – Enquanto for estagiária, não acho de bom tom nos expor, mas fora do escritório… eu não quero ser a sua chefe. Eu não fui a exposição como a sua chefe. Eu fui como a sua namorada. E por um momento pensei que estivesse envergonhada de assumir uma namorada com autismo para seus amigos.
– Namorada?! – Foi a minha única reação possível.
– Sim… fora do trabalho nós somos um casal… ou não somos?
Como a minha namorada.
Namorada!
– Agora você me deixou preocupada, – Valquíria quebrou o silêncio enquanto eu era incapaz de falar, de responder, de raciocinar. – Clarice, o que você achou que nós éramos esse tempo todo?
– Eu-eu-eu não sei. Eu… eu nunca imaginei que alguém como você quisesse algo sério comigo, principalmente você – confessei, sem conseguir evitar que as minhas inseguranças viessem à tona. – Você é a Valquíria. E mesmo que não fosse a mulher bem sucedida na carreira, super talentosa e tals, ainda é uma mulher incrível e linda que teria qualquer pessoa que quisesse nas mãos. E eu sou eu. Eu não tenho nada para oferecer.
Valquíria ficou em silêncio, absorvendo as minhas palavras e me observando atentamente.
– Clarice, – começou, com a voz mais suave e calma. – Eu estou com você porque eu quero estar. Não por quem você acha que sou, mas por quem você é para mim. Eu me apaixonei por você pelo o que é e não pelo que tem. Pensei que tivesse sido bem clara da última vez.
– E foi… eu só pensei que seria questão de tempo até se enjoar de mim e procurar alguém a sua altura.
Ela riu. – Vai ser um pouco difícil encontrar outra mulher que tenha a mesma altura que a minha. Talvez se eu procurar em um time de vôlei.
– Não seja boba, estou falando sério.
– Eu não quero uma mulher a minha altura ou mais baixa, – Val levou a mão ao meu rosto e se inclinou em minha direção. – Eu quero você.
Val me olhou nos olhos, como se procurasse a confirmação que já estava no meu peito. Sem dizer uma palavra, nos aproximamos, e nossos lábios se encontraram com uma suavidade que fez o tempo parar. Quase 72h longe dela me deixou um vazio que só agora percebia o quanto me consumia. Seu toque em minha pele era como uma faísca acendendo algo dentro de mim que eu nem sabia estar adormecido.
Se não fosse plena luz do dia, se não estivéssemos no estacionamento de uma conveniência, se não tivesse tanta gente circulando pela área, eu certamente teria me entregado no carro mesmo.
– Então… só para ter certeza, nós somos namoradas agora, não somos? – Perguntei por via das dúvidas. Vai que eu entendi tudo errado dessa vez também.
Val revirou os olhos. – Só agora, Clarice? Eu não acredito que não tinha percebido isso antes. Achou mesmo que te levaria para a minha casa se quisesse apenas sexo com você? – Ela me encarou séria. – Nós somos namoradas. E que fique claro dessa vez.
– Sim, senhora.
Se esse era o primeiro dia ou se já estávamos há alguns meses namorando, eu não sabia responder. Tampouco me importava. Eu estava feliz em saber que a Val gostava de mim de verdade e não estava só sendo legal. Meu deus, ela gosta de mim!
E nós estamos namorando. Namorando!
Ao entrar no condomínio de Val, tudo parecia diferente embora nada tivesse mudado de lugar. O ar estava mais denso, quase palpável, como se carregasse todas as novas expectativas que pairavam entre nós. Parte de mim ainda não acreditava que estávamos namorando-namorando, sabe, namoro de verdade. Eu era a namorada oficial da Valquíria e não uma amante… quer dizer, é o que eu entendi…
E você também, certo?!
O frio na minha barriga crescia à medida que o elevador subia, como se a simples mudança no status do nosso relacionamento tivesse transformado todo ambiente ao nosso redor. Agora, eu estava ali como a namorada da Val, e isso mudava tudo.
– Você está bem? – Val perguntou me encarando com uma expressão curiosa com uma leve preocupação.
– Estou. Estou sim.
– Certo, – ela me encarou por um tempo como se estivesse me analisando e procurando algum mínimo sinal de que não estava bem. Ao perceber que eu não mentia, sorriu. – Vamos tomar um banho primeiro?
– Vamos…
Que… não, espera…. vamos?!
Eu já tomei banho com a Val antes, mas com a Val minha namorada era a primeira vez e eu estava nervosa.
Antes que eu pudesse processar o que eu sentia, minha namorada pegou a minha mão e me conduziu até o seu quarto no andar de cima. Já em seu closet, Valquíria tirou o seu blazer e os saltos.
Como eu, que estou sempre de tênis, consegui namorar alguém que usa salto agulha e blazer sem ser uma ocasião de trabalho?
– Você prefere chuveiro ou banheira?
– Não sei, tanto faz. Você escolhe.
Valquíria me observou um momento antes de responder. – Eu sei exatamente o que precisa.
Ergui a sobrancelha curiosa. Ainda estávamos falando de banho?
Enquanto Valquíria preparava tudo para o nosso banho, eu tirava a minha roupa aos poucos no banheiro.
Sozinha diante do espelho, me perguntei o que diabos Valquíria via em mim. Eu não tinha nada demais. Ainda passo muito uma vibe peito pequeno, embora eles não sejam. Se bem que, eu sou pequena demais e mesmo proporcionalmente grandes, meus peitos vão parecer pequenos. Os da Val são melhores, maiores e mais suculentos… que vontade de…
– Você está muito tensa, – Val comentou. – Precisa relaxar.
Antes mesmo que eu pudesse dizer algo, senti sua presença se aproximando e pelo espelho vi que já estava nua. Meu coração disparou. Ela apertou meus ombros de leve e deslizou as mãos pelo meu corpo me envolvendo em um abraço. Me senti derretendo em seus braços e me arrepiar por inteiro.
– Tu es très belle, ma petite – ela disse contra a minha pele, sua rouca e cheia de desejo. – J’aime ton corps… – ela beijou meu ombro, – tes cheveux, – meu cabelo, – tes yeux, – a minha têmpora, – ton sourire, – o canto da minha boca, – tes lèvres, – ela segurou o meu queixo e suavemente virou meu rosto em sua direção. – J’aime chaque détail de toi. Tu es ma petite la plus belle.
[Você é muito linda, minha pequena. Eu amo o seu corpo, seu cabelo, seus olhos, seu sorriso, seus lábios, eu amo cada detalhe seu. Você é a minha pequena mais linda]
Val beijou os meus lábios delicadamente. Não era como os outros beijos que trocamos antes. Havia algo novo, algo profundo. Em cada toque de nossos lábios, eu pude sentir o cuidado, carinho e desejo que Val tinha por mim. Mas havia algo mais, um sentimento não dito e ainda assim falava mais alto que qualquer palavra proferida.
O mundo parecia girar em câmera lenta enquanto nós entravamos em uma bolha só nossa. Nada mais me importava. Ali dentro só existia Valquíria e eu. E sensação de estar sendo envolvida por um amor que eu nem sabia que precisava tanto.
« … »
– Uau… isso foi… incrível – comentei me jogando na cama e encarando o teto. Ainda sentia como choque elétrico pelo meu corpo.
– Por que está falando como se já tivéssemos acabado? – Valquíria estava parada na porta do closet secando o cabelo com uma tolha vestida com o seu roupão. – Não está cansada, está?
Sorri amarelo para não dizer que me sentia exausta e precisava de uma sonequinha.
– Logo você, – ela se sentou na beira da cama ao meu lado. – Estou surpresa.
– Eu acordei cedo e fiquei o dia inteiro em pé, me dê um crédito.
Ela se inclinou em minha direção para me dar um selinho. – Eu te dou… um crédito e outras coisas… está com fome?
Adoro como a Val consegue seguir com a sua vida naturalmente como se não estivesse transado há poucos minutos, enquanto eu, por outro lado, precisava de um tempo para voltar a funcionar. Às vezes até uma sonequinha.
– Estou. O que quer comer?
– Estava pensando em sair para comer algo, mas vendo o seu estado acho difícil que irá querer sair.
– Me surpreende que você queira, – ela deu ombros. – No estado que eu estou, eu prefiro um restodontê que me arrumar para sair. O roupão está tão confortável, nunca mais vou me vestir.
– O que é restodontê?
– Um prato francês, não conhece? – Percebi que Valquíria estava levando muito a sério tentando tirar da memória algum conhecimento sobre o prato. – É o “resto de ontem”. Não existe esse prato. Você leva muito a sério o que eu falo.
– E não deveria? Você é importante para mim, então o que diz também é.
Sorri tal qual uma bobona apaixonada. – Você também é importante para mim.
Se eu tivesse energia, certamente o beijo que nós demos teria escalado para algo mais. Mas aparentemente eu estive enganada sobre minha bateria sexual… ou vai ver a minha namorada é fogosa demais até para mim. Independente do que for, eu só sei que mais uma eu não aguentaria e meu corpo perdia arrego.
É… a minha namorada era perfeita!
« V A L K Y R I E »
Em qualquer outra ocasião, se alguém que eu estivesse em um momento… digamos que caliente, simplesmente dormisse no meio do caminho, eu ficaria preocupada. Entretanto, hoje eu não me surpreendi – tampouco me ofendi.
Talvez eu não tivesse dado a devida atenção quando Clarice disse que estava cansada. Depois do jantar e um tempinho relaxando no sofá acreditei que já estivesse disposta a continuar… claramente me enganei.
Nós estávamos na cama, prontas para dormir. A luz suave da luminária deixando tudo com um ar íntimo e acolhedor. Clarice estava nos meus braços, tão perto que eu podia sentir a sua respiração leve contra a minha pele. O jeito que me olhava, o brilho nos seus olhos que agora pareciam castanhos, tudo deixava claro que seria um momento só nosso. Eu a puxei para mais perto, minha mão deslizando pela sua cintura, ela veio para cima de mim e nós começamos a nos beijar.
Aos poucos os beijos foram se tornando algo mais, Clarice começou a trilhar um caminho de beijos e pequenas lambidas pelo meu pescoço, descendo pelo peitoral até chegar em meu seio. Clarice nunca escondeu seu interesse em peitos, especialmente os meus. Antes mesmo de nos conhecermos melhor já notei seus olhares para o meu decote. Então, ela se demorar ali enquanto chupava meu seio e a apalpava o outro com a mão livre, não era novidade para mim.
O que aconteceu foi que, logo de cara a intensidade diminuiu e tudo estava diferente. Não causava o mesmo efeito. Honestamente, eu já quase não sentia mais nada. E quando eu olhei para Clarice, seus olhos estavam fechados, a respiração profunda e o seu rosto sereno dormindo contra o meu peito tal qual um bebê.
Uma risada escapou dos meus lábios antes que eu pudesse evitar. Era muito a cara da Clarice fazer uma coisa dessas e eu nem tinha como ficar brava. Ainda teríamos todo o tempo do mundo para colocar em dia as últimas semanas que sua rotina louca não nos permitiu ter momentos mais íntimos. Por hora me restava aceitar e me juntar a minha petite para dormir.
Eu a ajeitei com cuidado, para que ela ficasse mais confortável em meus braços e fiquei ali, a observando. Clarice parecia tão serena, tão vulnerável e meu coração se encheu de carinho. Passei a mão pelos seus cabelos loiros, sentindo a maciez deles entre os meus dedos, e fiquei escutando o som da sua respiração… som esse que ainda tinha um chiado baixo, servindo de lembrança que ela ainda precisava de cuidados.
Enquanto ela dormia aninhada em meu peito, não pude deixar de sorrir. Ver Clara assim, tão entregue e segura comigo, me fez perceber que intimidade vai muito além de qualquer toque ou desejo. Intimidade estava ali, naquele pequeno momento de paz compartilhada, no simples fato de que ela se sentia segura o suficiente para adormecer nos meus braços. E eu, observando, sabia que não havia lugar no mundo onde eu preferisse estar.
Mas…
A vida não é um morango. E por mais que o meu final de semana com Clarice tivesse sido incrível. De longe o melhor que tivemos juntas até hoje. A realidade bateu em nossa porta. Segunda-feira o trabalho nos esperava, mas não só ele. Havia algo no ar, uma sensação estranha, um arrepio. Eu não sabia dizer se o que sentia era emocional ou físico, só sei que me deixava inquieta e preocupada com o desconhecido.
– Você está bem, Val? – Theo me perguntou. – Está agindo estranho.
– Estou… é só que… estou com uma sensação estranha. Um desconforto. Uma angústia no peito.
– Vixi… se estiver sentindo que algo ruim vai acontecer, já me avisa para eu ficar longe do perigo.
O encarei desconfiada. – Como assim?
– Toda vez que a minha avó vinha com esse papo de desconforto ou angústia, ou alguém estava doente, morrendo ou em perigo.
– Excusez-moi, s’il vous plaît. (Me dê licença, por favor).
Não que eu acreditasse que o que eu sentia era uma premonição ou algo do tipo. Isso nunca me aconteceu. Mas se tem uma coisa que a avó de Theo e a minha tinham em comum; era o fato de sentir as coisas antes ou enquanto aconteciam. E para desencargo de consciência, eu decidi dar uma conferida.
– Valquíria? O que aconteceu para você me ligar a essa hora?
– Nada, eu só queria saber se estava bem. Estou com saudades.
– Eu estou bem… bem entediada. Só tive aula chata até agora. Não vejo a hora de começar a trabalhar hoje e te encontrar.
– Infelizmente ainda faltam 2h47min para começar o seu expediente… pensando bem, eu vou te buscar na faculdade hoje. Vamos almoçar juntas.
– Isso não foi uma pergunta, foi?
– Não.
Conversar com Clara me deixou aliviada, mas não acabou com essa sensação. Se eu precisasse descrever de o que sinto como algum fenômeno da natureza, certamente seria o recuo do mar que antevê o tsunami.
Essa sensação me acompanhou por toda manhã e só me deu uma trégua no almoço quando me encontrei com a Clara perto de sua faculdade.
– Que carro é esse? – Ela perguntou curiosa.
– Gostou? Tem vários dele pelas ruas de São Paulo todos os dias.
– Você comprou esse carro?
– Agora não teremos mais problemas se eu quiser te levar em casa, – eu abri a porta do Jeep para Clarice entrar antes que ela começasse a ter um chilique. – E foi quatro vezes mais barato que o Mercedes.
Eu descobri da pior maneira que comprar um carro seminovo era mais trabalhoso que imaginava. Não gosto de veículos pequenos e baixos. Também não uso se não estiver blindado. Procurar por um carro usado nessas condições estava dando dores de cabeça tanto a mim quanto o Bruno e o Yago, meu gerente residencial.
Na preguiça de continuar buscando e verificar o histórico do veículo e afins, eu comprei um carro zero e foi por isso que todo o processo demorou muito mais que gostaria. Ao menos agora tinha um Jeep Compass blindado e basta ficar cinco minutos em uma rua qualquer da cidade para encontrar outros três ou mais iguais a esse.
Ou seja, alcancei o meu objetivo. Missão concluída com sucesso.
– Eu comprei isso para você, – tirei a caixa do remédio de dentro da minha bolsa. – Eu não quero que deixe de tomar o seu sulfato ferroso porque se esqueceu em casa como fez esse final de semana.
Clarice me olhou surpresa e então pegou a caixa da minha mão. – Obrigada. Eu vou deixar esse no escritório. Suponho que você já tem outro em seu apartamento, certo?
– Supôs certo. Eu também me certifiquei disso.
Nós estávamos em um restaurante a caminho do escritório que muito me agradava pela comida e o ambiente. O restaurante usava e abusava da iluminação natural, e áreas verdes e jardins para melhorar a acústica do ambiente. Era um recanto de paz em plena São Paulo. A comida era brasileira e era possível encontrar pratos típicos de cada canto do país.
E aqui eles faziam uma moqueca de tambaqui deliciosa e rica em ferro já que o peixe tem um teor relativamente alto do nutriente. Clarice parecia ter gostado do prato e comia bem.
– Está gostosa a comida?
– Uma delícia! – Ela sorriu para mim e eu me derreti. – Eu gostei daqui. A comida é gostosa e o lugar parece um restaurante que você teria se fosse chef.
– Você acha? – Perguntei em um tom curioso e divertido.
– Sim. Eu não estou afim de fazer nenhum cálculo agora, mas a forma em que tudo foi posicionado, me faz crer que é para aproveitar o melhor horário do sol e a circulação do vento. A vegetação de decoração não parece só uma decoração qualquer, ela faz parte do design… e dividir o ambiente com uma parede de água em vidro além de ser lindo, o som é bem agradável. É tudo tão detalhadamente pensado para comer aqui ser uma experiência única e com a sua comida então… eu facilmente vejo você sendo chef aqui… ou projetando isso, – ela me encarou desconfiada. – Você projetou esse restaurante, – concluiu.
– Você me conhece tão bem.
Eu queria poder ficar mais tempo a sós com Clarice e aproveitar o nosso almoço, mas seria muito suspeito se as duas chegassem atrasadas. Então apenas chegamos juntas com quem se encontrou no elevador.
Eu já estava habituada a receber olhares ao chegar no escritório, hoje, porém estava diferente. Não diferente do tipo “por que você está com a sua estagiária”, um olhar preocupado. Um olhar…
– Valquíria! – Letícia praticamente correu até a mim antes que chegasse perto da área onde fica minha equipe e eu. – Que bom que você chegou! Você não viu as minhas mensagens?
– Que mensagens?!
– A presidência está aqui.
– Por favor, me diz que está falando do Lula e não dá…
– Valkyrie Chloeé.
Senti o arrepio na espinha. A sensação desagradável de mais cedo voltando com maior intensidade.
– Margot, – sorri nervosa. – Toi ici… au Brésil… quelle surprise… (Margot, você aqui… no Brasil… que surpresa…)
– Enfin tu es arrivée ! Où étais-tu ? (Finalmente chegou! Onde estava?)
Minha mãe se aproximou com aquele típico olhar afiado que faz qualquer um tremer a base. Ela mal me notou antes de seu olhar ir diretamente para Clarice, que ao meu lado parecia diminuir sob a pressão. Eu também ficaria da mesma forma se recebesse esse mesmo olhar. Era impossível decifrar a Margot e o que pensa, eu que sou a sua filha sou incapaz de compreender.
Por um momento pensei que fosse falar algo depois tanto nos encarar e por fim recebi um olhar curioso e uma expressão que não sabia o que queria dizer. Era a minha mãe e dela eu esperava qualquer coisa.
Clarice foi quem quebrou o silêncio pigarreando. – Oi… hmm… quer dizer… salut, ça va? (oi, tudo bem?), – ela estendeu a mão para a minha mãe. – Sou Clarice, a estagiária.
Eu vi o momento em que minha mãe iria reclamar. Embora fosse fofo a tentativa de Clara, em hipótese algum use “tu” para uma pessoa mais velha ou desconhecida em francês, especialmente se essa pessoa for mais velha e desconhecida. A maioria dos franceses consideram desrespeitoso e invasivo. Mas não tinha como Clarice saber a diferença entre “tu” e “vous”.
Sorri em desespero.
– Clarice… como a escritora, Clarice Lispector.
Minha mãe respondeu… em português?
Observei em total incredulidade a minha mãe aceitar o cumprimento de Clarice logo após dizer algo em português. A última vez que ouvi dona Margot falar algo em português foi para conversar com a Leopoldina, mãe do Bruno. Fora isso, nem mesmo com o meu pai. E não é porquê ela não entende, pelo contrário, ela não só entende como também adora as obras do Carlos Drummond de Andrade, Machado de Assis, José de Alencar, a própria Clarice Lispector. A Margot só não gosta de falar português e não se dá o trabalho também.
– Je m’appelle Margot, enchantée. Pardon, je voulais dire… me chamo Margot, prazer. (Eu me chamo Margot, prazer. Perdão, eu quis dizer…)
A interação das duas acabou aí. Logo em seguida minha mãe lembrou que existo e fomos para a minha sala falar sobre “trabalho”.
– Minha filha, estou preocupada com você – a sós em minha sala, minha mãe saiu do seu personagem presidente do conselho e voltou a ser apenas a minha mãe.
– Por que?
– Ora, como por que? Eu não sinto que esteja sendo sincera comigo e o seu pai – ela se sentou no sofá. – Está mesmo respeitando seus horários de descanso?
– Sim.
– Não é o que parece.
É… talvez minha mãe tinha razão. Eu não só parecia cansada, como também estava. Esse final de semana eu definitivamente não respeitei meus horários de descanso. Nem os meus e os da Clarice.
– Tem razão, eu não respeitei os meus horários de descanso, mas não é pelo motivo que está pensando, – sorri.
Margot estreitou os olhos. – Pelo visto você não mudou muita coisa.
Meus pais costumavam ser super protetores comigo até que essa proteção exagerada os levou a uma parte da minha vida que preferia manter em segredo. O lado bom foi que eu passei ter maior liberdade, também já era maior de idade quando aconteceu. O lado ruim foi que a minha imagem para eles nunca mais foi a mesma.
Um trauma reverso, eu diria.
– Por acaso tem a ver com essa marca em seu pescoço?
Arregalei os olhos surpresa.
Rapidamente peguei o celular que estava sobre a mesa para ver através da câmera. O meu lenço de pescoço estava um pouco fora do lugar e se prestasse bem atenção – tal qual minha mãe sempre fazia, – era possível notar as marcas do chupão.
– Talvez, – sorri.
Minha mãe balançou a cabeça. – Eu sinceramente não sei o que faço com você, minha filha. Ao menos aparenta estar bem e é o que importa. Tive receio que fosse te encontrar mais uma vez naquele estado nada saudável e lastimável.
O maior medo dos meus pais em me deixar sozinha no país era que eu fosse me entregar aos meus impulsos. Não foram um ou duas vezes em que adotei hábitos nada saudáveis para lidar com o excesso de estímulos. E se não fosse pelos meus pais e minha rede de apoio, talvez fosse incapaz de reerguer e ter uma vida “normal”. O autismo não é um morango, muito menos fofo, pelo contrário, é cansativo, chato e muito, muito, muito desgastante não só para mim, mas para quem está ao meu redor também.
– Você realmente veio até o Brasil só por isso?
– Como assim só por isso? Você é a minha única filha. Só porque já tem mais de trinta não significa que deixei de ser sua mãe e me preocupar.
– E o papai? Ele também veio?
– Acha mesmo que eu iria viajar sem trazer a minha mala?
– Não.
Margot e Fernando são um casal fofo e muito estranho. Eles se amam e se odeiam na mesma proporção. São o oposto em tudo e ao mesmo tempo se combinam tanto. Nem eu entendo como isso é possível. Não só a personalidade como a fisionomia são opostas. Minha mãe não está muito afrente da Clarice no quesito altura, ela tem 163cm. Já o meu pai é só 21cm mais alto que eu e tem 197cm. E é fácil pensar que um homem desse porte seja o dominador…, mas não. Ele é o pau mandado da minha mãe, coração mole e bobalhão. A Margot é séria, direta e brava.
Lembro muito bem que quando sofria bullying na escolinha, meu pai ficou semanas tentando resolver de forma pacifica. Notificou a escola, os pais das crianças, tentou todas as formas de diálogo possíveis com aquela gente e não surtiu efeito. Bastou um dia que cheguei em casa com o rosto machucado e minha mãe descobrir, para no dia seguinte ela resolver com uma única visita a escola. Ela traumatizou a todos, mas o problema foi resolvido.
Os dois são a versão em vida do meme “ele pediu sem picles”. Eu amo os meus pais.
Sentada na poltrona de couro da minha sala, minha mãe falava sobre os últimos acontecimentos de nossa família na França. Enquanto estávamos a sós, sua voz era suave e doce, seus olhos brilhavam, era uma outra mulher. Mamãe não mostrava esse seu lado para ninguém e isso sempre me fez sentir única, como se carregasse um segredo que ela só confiou a mim.
Eu me senti de volta aos velhos tempos, conversando enquanto bebíamos chá. Mamãe sempre foi muito ocupada, estava sempre trabalhando e trabalhando muito, mesmo assim conseguia ser presente em minha vida. Todos os dias tomávamos chá, conversávamos sobre a vida ou só aproveitávamos nossa companhia, só eu e ela. Era o nosso momento mãe e filha… e eu sinto saudades disso.
Levei um pequeno susto ao ver que o relógio marcava três da tarde, e eu ainda tinha uma pilha de relatórios esperando na minha mesa. Olhei de relance para os papéis, tentando não parecer distraída, mas era impossível ignorar as demandas que se acumulavam. Não era como se eu pudesse simplesmente deixar de lado. Não fazer agora significava que em outro momento teria que lidar com isso. Momento esse que poderia estar com Clarice.
Eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, teria que contar sobre nós para os meus pais, mas esse definitivamente não era o momento certo. Conhecia os dois o suficiente para prever que, se soubessem do nosso relacionamento agora, iram a cercar e questionar tudo, tentando entender cada detalhe da nossa relação e da própria Clara. Não acho que ela esteja pronta para lidar com isso… ainda mais agora que eu sei que até poucos dias atrás não acreditava que poderíamos ter um relacionamento sério.
O pensamento de passar menos tempo com ela doía. Eu queria estar com Clara o tempo todo, tal qual uma viciada em abstinência. Mas a minha realidade não permitia. O trabalho exigia a minha atenção, minha mãe exigia minha atenção, e eu não poderia me afastar das duas coisas… ainda mais agora. Quanto mais eu tentava focar no que Margot me dizia, mais a minha mente se enchia das saudades de Clarice, da vontade de mandar uma mensagem ou sair para ouvir a sua voz doce e tranquilizadora.
– Chloée, está me ouvindo? – A voz de minha mãe me trouxe de volta. Seus olhos me analisavam com aquela precisão cirúrgica, e por um momento que poderia ler meus pensamentos.
Me ajeitei na cadeira nervosa, forçando um sorriso. – Desculpe, mamãe. Eu estava com a cabeça no trabalho.
– Sei, o trabalho… bem, nós vamos ter muito tempo para conversar – essa afirmação me deixou preocupada. Muito tempo? – Seu pai e eu estamos em casa. Sabe que se não aparecer para o jantar essa noite, seu pai irá te deserdar, não sabe?
– Sim, eu estarei lá às 20h.
Amo os meus pais, mas essa visita surpresa de fato me pegou de surpresa… conciliar a minha vida com a presença dos dois será uma dor de cabeça.
Acompanhei a minha mãe até o saguão principal do edifício. Só havia uma forma de ter certeza de que ela tinha ido embora: a vendo entrar no carro. Deus me livre abaixar a guarda e ela ver como conduzo o meu time…
– Ela já foi embora? – Amanda me perguntou.
– Sim. Por enquanto…
– E até quando vamos ter as presenças ilustres?
– As? Quem mais está aí?
– A presidência…
Eu até imagino o que deve ter acontecido.
Adriana fez uma reclamação diretamente para a minha mãe, que é presidente do conselho e ela decide vir ao Brasil na semana seguinte. Óbvio que o presidente global iria se preocupar, vai que alguma coisa de errada está acontecendo na filial da América do Sul e o conselho descobre primeiro? Se eu fosse a presidente, iria viajar no dia seguinte da notícia para chegar antes e entender o que estava acontecendo primeiro.
Resumidamente, por causa de uma reunião que deu errado com a pessoa errada, tínhamos a presidente do conselho, o presidente global, CEO, Vice-CEO, COO, CFO, CLO e a comissão de auditoria em São Paulo. Tudo isso poderia ser evitado se a minha mãe decidisse tirar uma semana de férias e vir visitar a filha, mas não… ela quis vir à trabalho e causar o pânico em todos.
E o melhor de tudo? Todas essas pessoas vão cair no meu rabo. Era só o que faltava…
Como isso era possível? Minha mãe veio até o país preocupada com a possibilidade de eu estar trabalhando demais e por causa da sua visita eu agora tinha mais trabalho a ser feito por causa da presença dela.
Queria eu poder fazer uma reunião com a minha estagiária, mas eu precisava sumir antes que me achassem e eu perdesse o resto da minha tarde fazendo sala para visitantes. Desculpa, mas eu tenho mais o que fazer… muito aliás.
Eu estava em minha sala outra vez completamente imersa no que tinha pendente para fazer. Queria terminar tudo o quanto antes para me livrar logo, embora no fundo já tivesse a certeza de que não seria possível acabar tudo hoje. Em momentos assim, eu não gostava de ser interrompida e todos que trabalham nesse escritório sabem. Mesmo assim alguém bateu em minha porta.
Antes que eu pudesse reclamar, toda irritação se dissipou com a imagem de Clarice a minha frente.
– Ninguém teve coragem de trazer isso, – Clara deixou a pasta sobre a minha mesa me encarando desconfiada. – É verdade que essa visita surpresa foi por causa do desastre da reunião semana passada?
Ergui o cenho surpresa. – Quem disse isso?
– É o que ouvi quando fui no primeiro piso… eles não estão nada contentes que vão adaptar as salas lá de baixo para acomodar esse pessoal.
A puxei para perto. – Sim e não. Esse povo todo veio aí preocupados com o que a Margot pode descobrir antes deles. Mas não tem nada a ser descoberto. E também não é como se ela estivesse procurando por algo.
– Não está? Do jeito que me olhou era capaz de ter descoberto até o meu histórico escolar do fundamental I – a puxei para mais perto e se sentar em meu colo. – Valquíria, tá maluca? Com esse monte de gente aí… aí sim que vão descobrir algo.
Clarice tentou se levantar, mas eu a segurei pela cintura. – Ninguém irá vir aqui agora. Eu só preciso de um abraço, você vai me negar isso? – Ela cedeu ao meu pedido e me abraçou de volta. – Eu vou até ignorar o modo que falou comigo depois desse abraço.
“Tá maluca?” com quem ela acha que está falando?
– Se eu soubesse que poderia causar todo esse caos, eu teria pegado mais leve e dormido mais para não cometer um deslize como esse – Clarice quebrou o silêncio que se formou entre nós. – Nunca imaginei que algo que eu fizesse poderia causar tudo isso.
– Bem-vinda a minha vida… e já se acostume.
Enfiar o rosto contra o pescoço de Clarice tinha um incrível efeito de curar onde dói e trazer paz. Queria eu poder ficar assim para sempre. Por um momento nem sentia como se o caos estivesse bem ao lado.
– Está falando sério? Ou é só modo de dizer?
– Infelizmente, é bem sério… ser uma Touchon tem suas vantagens. Eu provavelmente saio ilesa de qualquer coisa nessa vida, meus erros não tem o mesmo peso do que os erros das pessoas ao meu redor, e eu tenho plena ciência disso. Mas… se eu piso fora do lugar ou respiro de um jeito diferente, é isso aí o que acontece. Vira um problema de centenas de pessoas. Tudo isso está acontecendo não foi porque você imprimiu os arquivos errados na última reunião e sim porque a Adriana ligou para a França para dizer que eu errei.
Clarice ficou em silêncio por um tempo preocupante. – Nossa… isso parece… sufocante, não acha?
Meu corpo ficou tenso. Naquele momento nem mesmo a paz que a presença de Clarice me causava foi o suficiente para neutralizar a ansiedade que subia rápido. Eu sabia o quão sufocante toda essa pressão poderia ser, ainda mais para quem não cresceu aprendendo a lidar e está acostumado isso. Eu tinha medo, medo real de que essa pressão acabasse a afastando de mim.
A verdade era que não era só o fato de Clarice ser a minha estagiária que me levou a manter nosso relacionamento em segredo no trabalho. Isso era apenas uma desculpa que eu contava para ela – e talvez até para mim mesma. Eu sabia muito bem que qualquer coisa que eu faça no escritório aqui, antes mesmo que eu chegasse em casa, já estaria nos ouvidos de todos na França. No fundo, eu estava tentando proteger Clarice da minha família. E acredite, meu pai e minha mãe são só a ponta do iceberg.
Nosso relacionamento ainda é tão novo e frágil. Queria nos dar um tempo para nos conhecermos melhor, amadurecer o que já temos e nos aproximar ainda mais. Queria que Clarice tivesse tempo para se sentir segura ao meu lado. Às vezes sinto que ela não se sente confortável para se abrir totalmente comigo. Não era o momento para jogar essa bomba em seu colo, não agora que tínhamos acabado de nos acertar de fato. Mas agora com os meus pais por perto tudo se complicava… eles ainda não sabiam, e isso me dava algum tempo. Ainda assim, o tempo estava acabando e, mais cedo ou mais tarde, chegará o momento em que eu teria que escolher entre esconder Clarice ou apresentar o amor da minha vida aos dois.
Eu estava dividida e agora ocultar a verdade me fazia sentir que estava mentindo. Eu não estava mentindo, mas a culpa era igual. Não sei até onde consigo levar isso.
– Clarice – A contragosto, me afastei de seu pescoço para a olhar nos seus olhos. – Você é muito importante para mim. E eu faria qualquer coisa para o seu bem… eu só preciso que confie em mim, d’accord?
Ela me encarou desconfiada. – Por que isso de repente?
– Porque eu quero que saiba que pode contar comigo para qualquer ocasião e a qualquer momento não importa o horário. Por você e para você eu faria qualquer coisa, – Clara me encarou em silencio, tentando decifrar o que estava acontecendo. – Eu faço qualquer coisa para que continue ao meu lado e não me deixe.
– Eu não preciso que faça nada. Eu também estou com você pelo o que é… digo, fora desse lugar… e não tem nada a ver com o que tem. Eu gosto de você de verdade – Clara segurou meu rosto entre as mãos. – Por que essa preocupação repentina? Era para eu estar preocupada. Por minha culpa você e todo mundo aqui tem que lidar com um problemão.
– Só tenho medo que você desista da mim por não querer lidar com toda essa pressão.
– Eu tenho cara de fracote, é?
– É para ser sincera? – Clarice fez uma careta brava que a deixou ainda mais adorável. – Perdão, ma petite. Você é tão fofa e pequena. Um metro e meio de pura fofura… é difícil pensar outra coisa.
– Um metro e meio não! Eu tenho 1,54m, me respeite!
Sorri. – Desculpa ter me esquecido dos seus 4cm que fazem total diferença.
– E faz mesmo, você iria querer ter menos 4cm de mim, é?
– Tem razão, eu não quero nem 1mm a menos de você.
– Acho bom! – Ela me deu um selinho. – Bobona… agora me deixa voltar ao trabalho antes que a minha chefe me bate.
– Que chefe cruel a sua…
– Pois é, ela me coloca para trabalhar. Você acredita? Onde já se viu trabalhar no trabalho. Até daqui a pouco. Não fique com saudades.
– Impossível.
Clarice olhou em direção da porta em silêncio, numa tentativa de ouvir se alguém se aproximava, como se fosse possível. E então me beijou.
Quando seus lábios tocaram os meus, senti como se todo peso que sentia sobre meus ombros desaparecesse. O medo, ansiedade, as preocupações com a minha família e nosso futuro se dissolveram em um instante. Clarice tinha essa habilidade de me trazer paz… e caos na mesma proporção, mas sua presença era o suficiente para me fazer relevar.
Por mais que a vida não fosse um morango, com a minha petite por perto, eu via La Vie En Rose.
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