Elora Aneva

Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors

15.1 Se reposer ou se reposer – Première Partie.

« V A L K Y R I E »

Ao voltar para o quarto e me deparar com Clarice dormindo profundamente, não me restou outra alternativa senão a deixar dormir.

Por um instante, fiquei parada ali, segurando o copo de leite, olhando para ela. Clarice parecia dormir serenamente e parte de mim se sentia aliviada por isso. Sua nova rotina estava me deixando preocupada. Por mais que ela dissesse que era temporário ou que estava bem, o cansaço em seu rosto era nítido. Entretanto, não adiantava nada pedir que pegasse leve. Ela não queria ouvir e também não me dava abertura para interferir.

Era tão frustrante… céus, como eu queria saber qual era a tal meta e poder acabar logo com isso, mas Clarice tinha uma mania insuportável de responder todas as minhas perguntas com “se eu te contar, você vai querer fazer do seu jeito e eu não quero”. De fato, ela estava certa. Eu queria fazer do meu jeito, e daí?

Enfim, eu estava me corroendo por dentro, mas iria me conter. Clarice ainda era muito jovem e só porque eu tenho meios e recursos, não posso pular as etapas e fases da vida dela… ao menos foi isso que minha terapeuta disse e eu discordo, mas aceitei.

Será que era assim que a minha mãe se sentia? Quel horreur (que horror)… entender as ações dos seus pais é um sinal gravíssimo da idade.

Suspirei e deixei o copo de leite sobre a mesinha de canto. Com cuidado, ajeitei Clarice na cama para que ficasse mais confortável e não sentisse dores mais tarde. Seu sono era tão profundo que ela resmungou, mas não acordou. Puxei o cobertor um pouco mais para cima, a cobrindo melhor e me aproximei para beijar seu rosto.

– Bom sono, ma petite – sussurrei baixinho para não a acordar.

Me demorei ali por um momento a observando. Como era possível alguém ser tão linda enquanto dorme ressonando baixinho? Ouvir seu peito chiar um pouco só me lembrou que precisava saber como estava a situação da consulta com o pneumologista que a médica orientou ir. Eu já esperava que Clarice não fosse fazer nada em relação a isso, tive ainda mais certeza depois que começou a se reunir com seu grupo para trabalhar em seu projeto da faculdade. Felizmente, eu já tinha cuidado disso e mandei para o gerente doméstico residencial da minha família providenciar essa consulta, mas confesso que, com a correria do dia a dia, me esqueci de acompanhar.

Somente Clarice era capaz de me fazer voltar para meus pijamas depois da minha sessão de ioga matinal, mas o que mais poderia fazer senão me juntar a ela na cama?

Não tinha expectativas nenhuma de pegar no sono. Não sou do tipo de pessoa que consegue cochilar depois que acordo. No entanto, como se fosse contagioso, poucos minutos depois que aninhei o corpo de Clara contra o meu, adormeci a abraçando.

Algum tempo depois, senti um movimento. Clarice estava se mexendo. Abri os olhos devagar, sem entender o que estava acontecendo e vi que ela, ainda sonolenta, pressionava o rosto contra o meu corpo, os dedos inquietos puxando a minha camisola. Ela choramingava baixinho, como se estivesse frustrada, sem acordar de verdade.

Era um pesadelo? Uma crise de asma? Se é que isso é possível.

– Clarice, está tudo bem? – Passei a mão pelos seus cabelos, tentando a acalmar. – Eu estou aqui.

Ela resmungou algo e eu não entendi.

– O que está acontecendo, hein?

– Eu quero, – ela murmurou.

– Quer o que?

Ela choramingou frustrada afundando o rosto contra o meu peito. – Por que… por que ela pode e eu não?

Fiquei ainda mais confusa. – Ela quem, Clarice?

– A Jujuba, – respondeu com a voz abafada. – Por que ela pode?

Confesso que demorei a entender sobre o que se tratava. Liguei os pontos quando Clarice afundou o rosto contra o meu peito outra vez enquanto puxava a minha camisola.

– Ah, mas a Jujuba é só um bebê… A Giovana de fato tem leite e…

Clarice virou para o outro lado. – Vamos mimir.

Em um passe de mágica, Clarice voltou a dormir, me deixando aqui sem entender o que foi isso.

O que deu em Clarice para trazer esse assunto do nada? Não era como se ela estivesse pedindo peito só por querer. Honestamente, do jeito que Clara olha para os meus seios como se visse pela primeira vez, eu não ficaria nada surpresa se pedisse peito. Mas mamar é diferente. Mamar envolve outras coisas, inclusive a mais importante delas eu não tenho; o leite.

Isso não faz sentido. Por que a Clara iria me pedir isso se ela mesma diz não ser uma little? Ou será que a Juliana fez alguma coisa para ela e ela não quis me contar? Era só o que me faltava. Agora vou ficar surtando pensando em todas as possibilidades enquanto a bonita do meu lado dorme.

E ela dormiu…

Eu consegui voltar a dormir depois de muito pensar. Horas depois acordei, levantei, fiz almoço, falei com os meus pais, corri na esteira, tomei banho e Clarice seguia dormindo. Isso por que ela queria trabalhar no sábado também…

Eram quase 18h quando Clarice apareceu na sala com o rosto inchado e amassado e os cabelos bagunçados.

– Por que você me deixou dormir tanto assim? – Ela perguntou vindo deitar no meu colo no sofá.

– Porque você precisava dormir, mocinha.

– E se bobear, dormiria mais.

– E por que não dorme?

– Porque eu quero ficar com você… te perturbar um pouco. O que está fazendo?

– Assistindo novela.

Clarice levantou a cabeça do meu colo e me encarou. – E você assiste novela respondendo e-mail de trabalho? Por que esse celular está na sua mão? Você não está de folga?

– A sua atual rotina lhe tira o direito de reclamar da minha, mocinha.

– É temporário.

– Assim espero.

Deixei meu celular de lado e passei a somente assistir a novela com Clarice. Bom, pelo menos por cinco minutos até que ela cochilasse em meu colo. O curioso caso da pessoa que dorme várias horas e consegue cochilar logo em seguida.

O cochilo, porém, durou nem meia hora. Assim que ela acordou, nós fomos comer.

O jantar – que era para ser almoço – com Clarice foi regado de risadas. Gosto como a conversa entre nós flui naturalmente e eu não preciso me sentir pisando em ovos ou preocupada em manter as aparências. Sinceramente, acho que de todas as pessoas que conheço, a Clara é a que menos importa com as aparências. Ela se dá bem com a minha versão original e isso torna tudo entre nós mais leve.

– Clara, eu tenho algo para te perguntar – quebrei o silêncio entre nós. Estávamos no sofá, Clarice deitada entre as minhas pernas apoiada em meu peitoral. Eu fazia cafuné em suas madeixas loiras enquanto degustava o meu vinho.

– Hm… – ela fez um som nasal, – pergunta.

– Tem alguma coisa que você quer, ou que você vontade de experimentar e não teve coragem de me contar?

Clarice virou o rosto para cima para me olhar. – Que papo é esse, mulher? Do que está falando?

– Sei lá, eu só… me pergunto se você tem algum desejo ou vontade que não tenha falado para mim. Talvez você tenha vontade de conhecer coisas novas, estilos de vida diferentes.

– Tipo?

– Tipo alguma coisa que você viu no Apex e lhe despertou a curiosidade.

O rosto de Clara virou um morango de tão vermelho. Envergonhada, ela voltou a sua posição inicial e encarou o nada para se esconder de mim.

– Acontecem tantas coisas lá… e muitas delas eu nunca nem vi. Por que essa pergunta do nada? Você quer praticar as mesmas coisas de lá comigo? Você quer ser a minha submissa, é?

Joguei a cabeça para traz rindo. Clarice conseguia me fazer dar genuínas gargalhadas. – Eu. Submissa. Não vai acontecer.

– Por que? – Clara se virou para ficar de frente para mim. – Você gosta de mandar? – Perguntou provocativa.

– Ainda tem dúvidas disso? – Segurei a barra da camisa de Clara e a puxei para mais perto do meu rosto. – Comigo só funciona de um jeito. Eu mando. Você obedece.

– E se eu não quiser? – Clara sussurrou perigosamente próxima ao meu rosto.

– Então eu serei obrigada a te punir.

A puxei com mais firmeza até que nossos lábios se encontraram em um beijo que tirou o meu fôlego. Até me esqueci do que estávamos conversando. Enquanto seus lábios macios estavam colados no meu, nada mais importava. Bastava um beijo para eu perder o fio da meada.

É Valkyrie, você está correndo grandes riscos nas mãos dessa garota.

O nosso dia juntas passou rápido demais. Queria estender até domingo, mas Clarice era teimosa demais e aceitou trabalhar no domingo. Olha, sinceramente… às vezes eu tenho vontade de algemar essa garota na cama para a obrigar sossegar um pouco. Ela estava começando a me superar no excesso de trabalho e eu não estava gostando disso.

O meu dia se resumiu a bater perna com Bruno, atualizar as notícias sobre nossas vidas, fofocar sobre a vida alheia e fazer compras. Não era como eu planejava encerrar o meu final de semana, mas foi bom. Bruno e eu conseguimos chegar a uma decisão definitiva sobre a minha pendência e eu estava de certa forma ansiosa para isso.

Clarice só se manifestou por mensagem tarde da noite. Tarde o suficiente para já estar dormindo, mas aparentemente havia apenas acabado de chegar em casa. Se eu fiquei contente em saber disso? Nenhum pouquinho. No entanto, eu genuinamente acreditava que não poderia piorar.

Bem, eu me enganei.

Já na própria segunda-feira Clarice se recusou ao vir ao meu apartamento após o trabalho. O motivo; o projeto da faculdade e preparativos da tal feira.

Até aí estava tudo bem. Era de se esperar que há poucas semanas do maior evento de sua faculdade haveria muito que se fazer. É totalmente natural. O mesmo acontece no escritório quando temos várias obras para entregar ao mesmo tempo. O problema era que Clarice queria abraçar o mundo inteiro de uma única vez com seus braços curtos.

Durante toda a semana eu a levei para a FAUUSP depois do trabalho e esse era basicamente o único momento do dia que tínhamos tempo para nós. No trânsito, dentro do carro, por cerca de 30 a 40 minutos. Nada mais. E eu pensei que a situação melhoraria no final de semana, que pelo menos sábado e domingo Clarice fosse descansar… eu só me iludi.

Sábado e domingo eu a observei trabalhar no bar, bebendo doses de energético quase todo instante. As únicas vezes que a vi comer foi quando lhe ofereci comida e obriguei que comesse todo prato na minha frente.

– Você precisa parar um pouco, Clarice. Isso não é saudável. Estou preocupada com você, – eu disse. Era domingo, eu consegui uma pausa de duas horas do trabalho no bar. Sinceramente, a minha vontade foi de pedir a Ana Marta que banisse Clara da lista de funcionários do Apex, mas não tive coragem. Por mais que não concorde com tudo isso, ainda era importante para Clara.

– Eu sei que parece muito, mas eu estou bem, de verdade, – ela bocejou, visivelmente cansada. – Só preciso aguentar mais um pouco.

– Aguentar mais o quê? Até cair de exaustão? Isso não faz sentido algum, Clarice. Você não pode continuar nesse ritmo, – insisti, tentando manter a calma e a postura, mas estava ficando cada vez mais difícil esconder a frustração na minha voz.

Clarice suspirou, no rosto, sua expressão teimosa e desafiante surgia. – Valquíria, eu sei o que estou fazendo. Eu tenho um objetivo e não vou parar até atingir essa meta.

– Que meta é essa? Por que você não me conta? Talvez eu possa ajudar e você não tenha que ficar se matando dessa forma, – tentei suavizar o meu tom e evitar uma discussão entre nós. Eu queria que Clara confiasse em mim, que pudesse contar comigo.

– Eu sei que você pode ajudar, e esse é o problema. Se eu te contar, você vai querer fazer tudo do seu jeito como sempre faz. E você sabe disso. Mas eu preciso fazer por mim mesma, entende? Preciso provar que sou capaz.

– Isso não é uma questão de capacidade, Clarice. Eu só quero que você esteja bem e no momento está indo de mal a pior. E tudo isso para que? Quem é essa pessoa que está tentando provar algo que mais se importa com os sacrifícios que está fazendo pelo caminho que o seu bem-estar?

– Não tem ninguém, ok? Eu quero provar para mim mesma.

– É pior ainda.

– Eu vou ficar, Valquíria. Mas por favor, me deixa fazer isso do meu jeito. Eu não quero você envolvida nisso, – ela pediu, com uma firmeza que não me deixou espaço para discussão.

O silêncio que se seguiu foi pesado. Eu queria protestar, insistir que ela estava se sobrecarregando e indiretamente se punindo, mas sabia que isso só nos levaria a um conflito maior. Ela era teimosa, determinada e eu… eu só queria a proteger e cuidar.

Por fim, respirei fundo e cedi. – D’accord. Se é o quer, eu vou respeitar a sua decisão, – peguei a mão de Clara sobre a mesa. – Mas saiba que eu estou aqui, sempre que precisar. E se em algum momento isso ficar demais… me avise, s’il te plâit.

Confesso que estava me sentindo dividida entre o desejo de a ajudar e a necessidade de respeitar seu espaço. Estou tão acostumada a resolver tudo do meu jeito que ser jogada para escanteio estava me enlouquecendo.

Por que Clarice tem que ser tão teimosa?!

De toute façon (de qualquer forma), Clarice até pode me proibir de interferir em seus planos, mas ela não pode me dizer como gerir a minha empresa.

Eu estava genuinamente preocupada com as olheiras cada vez mais evidentes no rosto de Clara. Mesmo com maquiagem, eu conseguia enxergar o cansaço em seus olhos. Os bocejos estavam ainda mais frequentes. E sua concentração então, nem preciso comentar. Seu desempenho estava cada vez a desejar. Se fosse qualquer outra pessoa, eu não deixaria passar os erros bobos que estava cometendo, mas eu me descobri incapaz de cobrar de Clara.

Eu estava a protegendo.

Mas, mesma a protegendo, tinham erros que não davam para corrigir sem que ninguém notassem. Principalmente quando esses erros são percebidos no meio de uma reunião com um cliente muito importante. O projeto da nova sede da TechVision, uma empresa de tecnologia que está crescendo como nunca, é o segundo projeto mais importante para Visionnare, ficando atrás somente do hotel em Dubai que está em fase inicial. Um negócio milionário.

Milionário.

Eu estava em meio da apresentação do projeto. Um trabalho de sete meses. E tudo parecia estar dentro dos conformes, até que iniciei a projeção e a apresentação em si.

– Como vocês podem ver, esta é a disposição final do térreo, com a recepção espaçosa, as salas de reuniões ao fundo e o auditório ao lado. Nós mantivemos o conceito aberto para dar uma sensação de amplitude e integração, com ampla iluminação natural…

– Desculpe, Valquíria, mas acho que estou vendo algo diferente aqui…, – Marcos, o presidente da empresa, comenta me interrompendo.

Danielli, vice-presidente, balançou a cabeça, parecendo igualmente confusa. – Sim, aqui, nas plantas que vocês nos entregaram, as salas de reunião estão em outro lugar. E… o auditório… não deveria ser ao lado da recepção?

Senti um peso repentino no estômago. Clarice se esqueceu de imprimir as plantas e os relatórios quando a pedi há alguns dias e me entregou minutos antes da reunião… e eu não chequei. Não chequei.

– Deixe-me ver, – disse, tentando manter a calma enquanto pego as plantas das mãos deles. Meu coração disparou. Eles estavam usando a versão antiga. – Parece que houve um erro com a impressão, – lanço um olhar a Clarice que estava ao fundo da sala com um sorriso sem graça, balbuciando a palavra “desculpa”. – Essa não é a versão atualizada. Podemos corrigir agora mesmo.

Clarice se levantou para ir corrigir o seu erro, mas eu passei as impressões erradas para Letícia sem desviar o meu olhar de Clarice.

– E os custos? Esta planilha está com valores diferentes dos que discutimos na última reunião. Eu lembro de termos ajustado isso.

Olhei para os papéis à minha frente e, de fato, os números também estão errados. A versão antiga, com custos estimados de meses atrás, estava ali. C’est un désastre. Un désastre !

– Eu entendo a preocupação dos senhores, – respondi, me esforçando para manter a postura e o português. – Claramente houve um equívoco com os materiais impressos. Isso é completamente nossa responsabilidade e não vai afetar o andamento do projeto. Vamos corrigir essas informações imediatamente e enviar tudo atualizado ainda hoje.

Adriana colocou os papéis sobre a mesa, cruzando os braços. – Entendemos que erros podem acontecer, mas estamos falando de um projeto de milhões, Valquíria. Não podemos nos dar ao luxo de mais problemas como esse.

Ela dá uma risadinha seca e continua. – Eu conheço bem a sua mãe, Margot. Ela foi uma arquiteta de renome, sempre impecável, sempre atenta aos detalhes. Tão talentosa que também se tornou uma engenheira ainda mais bem sucedida. Ela nunca deixaria um erro desse tipo passar. Je n’aurais jamais imaginé que vous, qui avez été formée sous son ombre, laisseriez quelque chose d’aussi basique se produire. Peut-être qu’en parlant français vous comprendrez (nunca imaginei que você, que é formada sob a sombra dela, deixaria algo tão básico acontecer. Quem sabe falando em francês você entenda).

Senti o meu rosto aquecer com a crítica direta e cruel. Adriana sempre pareceu querer deixar claro que, para ela, minha competência não se comparava com à da minha mãe. Minha vontade era responder a altura, mas mantive a compostura, apesar da sensação de desconforto crescente.

– Eu entendo sua preocupação, Adriana -, disse, tentando me manter firme. – Eu garanto que vamos corrigir esse erro imediatamente. Vamos rever e atualizar todos os documentos e enviar a versão correta ainda hoje.

– Isso é o mínimo que vocês podem fazer. Mas espero que vocês se lembrem que estamos investindo muito nesse projeto. Se não podemos confiar nas informações que vocês nos entregam, como podemos continuar com a parceria?

Marcos, visivelmente desconfortável, tentou suavizar a situação. – Eu acho que todos entendemos a gravidade do erro, Adriana. Valquíria, podemos marcar uma nova reunião amanhã para revisar os materiais atualizados?

Balancei a cabeça, aliviada com a tentativa de Marcos de acalmar os ânimos. – Sim, claro. Podemos marcar uma nova reunião para revisar tudo em detalhes. A Letícia irá acertar os horários com a sua assistente.

A tensão na sala era palpável enquanto Adriana e Marcos se levantavam para sair. O tom da reunião ficou mais formal do que eu gostaria, e eu sentia o peso da responsabilidade. Quando eles saíram, me virei para Clarice, que parecia que iria chorar a qualquer instante.

Amanda e Letícia saíram junto ao perceberem a tensão se formar entre Clara e eu e nos deixaram a sós na sala de reunião.

– Valquíria, eu… eu não sei como isso aconteceu. Eu achei que tinha pego os arquivos certos. Eu… eu…

– Vá para casa, Clarice.

– O que?

– Eu mandei você ir para casa. – Repeti, a voz firme, mas o coração disparado. – Eu não quero você aqui hoje. Vá para casa, vá dormir.

– Você… você está me demitindo?

– Non. Ainda não. Mas se continuar aqui mais um minuto, vou ser obrigada a te demitir.

– Desculpa, – ela abaixou a cabeça.

Eu estava furiosa. Se fosse qualquer outro estagiário, eu teria demitido sem hesitar. Mas era a Clarice, ao mesmo tempo que estava querendo matar essa garota, eu queria a abraçar e dizer que vai ficar tudo bem.

– Eu não quero as suas desculpas, eu quero que vá dormir e descansar. Se já estivesse fazendo isso antes como eu também já mandei, nada disso teria acontecido hoje. Se não estivesse exausta, não iria cometer um erro tão bobo por pura desatenção e concentração.

Ela me olhou. Os olhos vermelhos de quem estava se segurando para não chorar. Por fora, eu estava brava e séria. Por dentro, eu estava me desmanchando e sofrendo por a ver assim. Fui obrigada a desviar o olhar para me recompor e respirar fundo.

– Você está se destruindo, Clarice. Seja lá o que está tentando alcançar, o que quer provar, a forma em que está fazendo isso é pura autossabotagem.

– Eu não posso parar agora, Val – seu tom de voz era sincero e doloroso. – É só mais um pouco, e eu consigo. Eu preciso disso.

– Precisa disso a que custo? Sua saúde, seu bem-estar, seu emprego? Você está exausta, Clarice! E seu cansaço está afetando seu desempenho trabalho e não duvido que esteja afetando em sua faculdade também, – esfreguei o rosto brava e frustrada. – De todos os projetos dessa empresa. De todos os clientes possíveis. Você foi me causar problemas justamente com a Adriana. A Adriana! Isso não vai acabar aqui. Essa mulher passou sete meses procurando pelo em ovo para me prejudicar e você entregou uma peruca inteira nas mãos dela.

– Desculpa.

– O evento na sua faculdade será esse final de semana, certo?

Respirei fundo sentindo o peso da decisão que estava prestes a tomar. Eu não queria que chegasse a esse ponto, mas eu não poderia continuar assistindo de braços cruzados. Eu precisava agir e era exatamente o que iria fazer.

Suspirei cansada e frustrada. – Vá para casa. Você está suspensa pelo resto da semana. Se você não sabe parar por conta própria, quem irá te parar sou eu.

Suspender a Clara significava não a ver durante as minhas tardes. Era o mesmo que colocar uma distância ainda maior entre nós e não era o que eu queria. Se já estava ficando ruim com ela aqui todos os dias, sem será pior.

O pior foi ver as lágrimas escaparem em seus olhos. Mon Dieu! Como estava sendo difícil essa situação. Seu rostinho triste partia meu coração em milhares de pedacinhos e eu queria desesperadamente a abraçar e acolher, mas como eu faço isso se sou eu o motivo do seu choro?

Estava prestes a ir de encontro a ela, quando alguém bateu na porta três vezes e então a abriu lentamente. Era Letícia. Eu não queria lidar com ela agora. Clarice estava chorando na minha frente e minha prioridade era tentar a acalmar. Qualquer outra coisa eu poderia resolver depois.

– Valkyrie, vous avez un appel (Valkyrie, você tem uma ligação.

– Je suis occupée en ce moment. (Estou ocupada agora).

– C’est Margot. (É a Margot)

Alors… issoeu não poderia resolver depois.

Olhei para Clarice mais uma vez, ela estava de cabeça baixa, secando as lágrimas com as mãos. Merde ! Quel enfer ! (Merda! Que inferno!). Por que essa ligação justamente agora?!

Respirei fundo mais uma vez retomando a compostura.

– Vá para casa, Clarice. Tente descansar um pouco, – eu disse, antes de ir atender a ligação de minha mãe.

A dor de cabeça estava só começando…

«-»

Gostou? Não esqueça de comentar! Até a próxima…
Au revoir!

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

error: Content is protected !!