Elora Aneva

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14. Donnez votre sang. Sauvez des vies.

« V A L K Y R I E »

– Papai, eu tenho uma pergunta a você.

Se no Brasil já era tarde, na França era madrugada e mesmo assim meu pai atendeu a minha chamada. Ele sempre atende. Normalmente são as mães que deixam suas carreiras para dedicar a sua vida aos filhos, no meu caso, foi o meu pai. E por mais que eu já tenha meus 31 anos e sequer moro no mesmo país que ele, meu pai ainda é muito presente em minha vida.

– Para você me ligar às 04:38 da manhã, essa pergunta meu preocupa. Aconteceu alguma coisa? – Papai perguntou. – Você nunca mais falou nada sobre a pessoa que estava apaixonada. Nenhuma novidade?

 Você não sabe segurar essa sua língua e no momento eu não quero lidar com a dona Margot.

– Por que a sua mãe não pode saber dos seus relacionamentos?

 Porque ela irá querer se meter. Et non, merci (e não, obrigada). Eu não quero que ela venha até aqui para acabar com meu relacionamento.

– Então você está namorando? Posso saber o nome dele pelo menos?

Foi nesse momento que me dei conta de que não comentei com o meu pai que a “pessoa” que estava me referindo esse tempo todo era uma mulher… mon dieu… será mais caótico do que planejava.

– Enfim… o que eu quero saber não está diretamente relacionado a pessoa em si e sim a família dela, – meu pai fez uma careta. Ele é do tipo de pessoa que tem a mente exposta no rosto, suas expressões entregam tudo que pensa até mesmo para mim que sou sonsa. – Eu não sei, eu não quero que minhas paranoias me atrapalhem… eu não os conheci diretamente, mas me incomodei só de ver.

– O que incomodou? Você sabe muito bem que às vezes implica com coisas nada a ver, como a gravata daquele homem que trabalha com vocês.

Revirei os olhos. – Por que me lembrou? Eu não sei o que ele faz que está sempre torto. Eu tenho vontade de puxar a gravata do Jorge e enforcar aquele homem até aprender a fazer um nó de verdade. Não é uma coisa difícil de resolver, eu até dei uma gravata nova para ele já com o nó perfeito, era só manter… e mesmo assim. Eu acho que tenho reunião com ele essa semana eu já quero morrer…

– Chloée… você está divagando.

– Oh… – dei um sorriso sem graça ao perceber, – Pardon, papa. Où en étions-nous déjà ? (Desculpa, papai. Onde nós estávamos?). Ah, oui, oui… a família. Então… eu não os conheci, mas o pouco que vi não gostei. Não gostei da forma que olhavam para ela e tinha uma mulher lá que, não sei, não gostei. Você acha que são surtos da minha cabeça ou eu realmente devo me preocupar?

– Eu normalmente não gosto de julgar as pessoas sem conhecer, mas você é igualzinha à sua avó. Quando o santo não bate, é porque aí tem. Mas família não se escolhe e se essa pessoa é próxima deles você terá que aprender lidar com isso se quiser cultivar um bom relacionamento com ela.

– Eu não sei.

Dei um gole em meu vinho enquanto refletia.

Será que eu entendi tudo errado? Aquela mulher não parecia conversar com a Clara de forma amigável. Não mesmo. Houve um instante que pensei que estivesse ameaçando com uma bíblia que mais parecia um tijolo em suas mãos. Pode ser que eu esteja criando coisas na minha cabeça, mas não sei. Eu não queria ficar paranoica com isso, mas a cena de hoje e essa mania de evitar atrair atenção de sua família… minha avó diria que tem caroço nesse angu, mas se de fato tivesse, Clarice iria me contar, não iria?

– Você acha que há algo de errado?

Dei ombros. – Je ne sais pas (eu não sei). Ela nunca comentou nada a respeito. Digo, ela a pessoa.

– Sei… e essa pessoa é uma mulher? – O encarei séria. – Chloée, eu sou seu pai, minha filha. Você está se envolvendo com uma mulher, não é?

– Isso faz alguma diferença para você?

– Para mim? Não… acho que nem a Margot vai ficar surpresa. Sempre suspeitamos de você e suas obsessões por mulheres. Quando vamos conhecer a dita cuja?

– Me dê um tempo, okay? Vocês dois vão assustar a minha garota e a afastar de mim. Então fiquem bem aí onde estão. Se aparecerem aqui, fingirei demência. Eu não vou apresentar.

– Você não pode fazer isso comigo.

 Não só posso, como vou. Eu não quero os dois infernizando a vida dela. Se aquietem. Você não deveria dormir?

Clarice era bem diferente do Pedro e de qualquer outro namorado que assumi para meus pais. Acho muito mais provável ela se render a pressão – principalmente a da minha mãe – e desistir por se sentir que não é boa suficiente ou algo assim. Se as pessoas tem medo do meu olhar, imagine dona Margot que faz de proposito.

E acredite, piora. Minha mãe perto da minha avó Hélène é um doce!

Mas enfim, as duas estão longe agora. Minhas preocupações no momento são outras.

Em todos os meus relacionamentos anteriores, eu nunca me incomodei com o fato de acordar sozinha. Pelo contrário, eu detestava dormir junto. Esse foi o verdadeiro motivo por sempre optar pela maior cama possível. Queria manter meu espaço mesmo se tivesse que compartilhar com alguém. Então sim, acordar e sentir falta de uma pessoa tamanho mini era estranho para mim.

Clarice dormiu duas noites aqui e já está no ranking de pessoas que mais passaram a noite nesse apartamento. Perdendo apenas para o Bruno, os meus pais e o traste. Porém, está no primeiro lugar da minha cama. Sou tão chata com isso que tinha um noivo e ele ficava no quarto de hóspedes quando vinha porque não queria meus lençóis com outro cheiro que não fosse o meu.

Eu gosto do cheiro de baunilha e lírios brancos que a Clarice tem. É delicado, agradável e nada enjoativo. Poderia facilmente ficar o dia inteiro cheirando seu pescoço e não iria me cansar.

Ter Theo e Barbara de volta ao escritório trouxe um pouco de novidade nessa manhã de segunda-feira, além das várias demandas extras, claro. Estavam todos eufóricos para ouvir as histórias, mas tínhamos muito que fazer pela manhã. Ao menos eu estava atolada de compromissos. E honestamente, eu não via graça alguma em ouvir as novidades sem certa loira estar presente por aqui.

– Por que não deixamos essa conversa para o horário de almoço? – Sugeri. – Eu sei que vocês estão curiosos, eu também. Mas eu tenho uma maratona de reuniões essa manhã e a Clarice não está, vão ter que repetir tudo de novo pela tarde.

– Você é uma estraga prazer, Valquíria – Amanda reclamou.

– Eu pago o almoço de todos vocês.

– Nunca reclamei.

– Decidam o que querem ou eu vou escolher. Nada de fastfood.

– Eu não acho que a Clarice vai conseguir chegar a tempo, Val – Letícia comentou.

– Então nós começamos mais tarde. Aproveita e antecipa a reunião de amanhã para hoje logo em seguida do almoço. O que aconteceu em Dubai também é trabalho, não é mesmo?

– Você é muito corrupta… eu amo, – Mateus comentou.

Se usar as regras do jogo ao meu favor é ser corrupta, então eu sou. E muito.

Só havia vantagens nesse negócio: ouvir as fofocas de Dubai, escolher o que a Clarice vai comer, ter uma hora extra de almoço e colocar ferro no prato da Clarice. Zero teor pessoal na minha decisão.

Assim que entrei em minha sala, aproveitei meus poucos minutos livres para entrar em contato com a única pessoa que conhecia que poderia me ajudar a resolver certa… pendencia.

– Me ligando assim tão cedo. Ficou com saudades, mon amour? Não tem nem 72h desde a última vez que me viu.

 Por onde se esconde, Bruno?

– Eu não sei onde eu estava com a minha cabeça quando decidi ser altruísta e compartilhar com os futuros médicos desse país meus conhecimentos. Não tem nem uma semana que eu assumi a residência do Hospital São Paulo e quero morrer.

 Por que você fez isso com a sua vida?

– Meu professor… ele era o responsável, mas precisa se afastar por adivinhe só: problemas de saúde. Eu não aguento mais trabalhar. Cansei dessa vida.

 E o seu ano sabático que tanto fala?

– Impossível… para eu ter paz, eu preciso ocupar a mamãe. Aliás, quando seus pais vão em mais um daqueles cruzeiros de meses?

 Não fala assim da tia Leopoldina, ela é um amor.

– A Margot também… enfim, gata. Qual o motivo dessa ligação? Você nunca me liga pela manhã.

 Eu preciso da sua ajuda.

– E para o que seria?

 Eu quero comprar um carro novo… seminovo.

– Um carro seminovo? – Bruno riu. – Espera aí, você está falando sério?

Como nunca antes.

Narração Clarice:

“O motorista está te esperando na porta da faculdade. Estamos esperando você. Não demore”

Se tinha uma mania de Valquíria que me deixava louca, era a mania de falar algo – que normalmente irá mudar todos os seus planos – e sumir sem mais explicações. Por que ela pediu um motorista para mim? Quem está me esperando? Por que estavam me esperando? O que estava acontecendo? E você acha que ela se deu o trabalho de responder? Sequer visualizou.

Eu odeio essa mulher!

Tá… em partes. E só de vez em quando.

O motorista me levou direto para o escritório. De certa forma me senti aliviada por ser aqui já que isso só aumentava a possibilidade de ser algo relacionado ao trabalho e não os dois mil cenários que se passaram pela minha cabeça no caminho.

– Olha ela aí, – Theo foi o primeiro a me ver e vir me dar um abraço. – Que saudades! Como você está? Chegou na hora certa, nanica. A comida acabou de chegar.

– Comida?

– Sim. Você foi convocada a chegar mais cedo pois nós temos uma reunião importantíssima agora. Vem logo! – Letícia nos puxou quase não me deixando colocar minha mochila sobre a mesa.

Na sala de reunião, Amanda, Barbara e Valquíria estavam sentadas à mesa diante do que parecia ser um buffet de casamento. E apesar de longa, quase não houve espaço o suficiente a mesa para tanta comida.

– O que está acontecendo aqui? – Perguntei ao entrar na sala. Era estranho não poder ir direto até a minha pessoa favorita aqui e dar um abraço. Me contive para evitar suspeitas. – É aniversário de alguém?

– Não, é almoço de boas-vindas aos nossos queridos, – Amanda respondeu.

Eu encarei Valquíria que comia uns pedaços de queijo casualmente e bebendo vinho. Sem dúvidas isso era obra exclusiva dela, caso contrário não teria uma tábua de queijos artesanais, frios, torradas, frutas secas, castanhas e geleia que só ela iria pedir para o almoço.

Apesar do exagero, as opções eram realmente muito gostosas. Tinha o básico clássico; arroz, feijão, purê de batata, salada. Porém, o que chamava atenção era o nhoque de mandioquinha com molho de burrata, tomate assado e manjericão, o medalhão de mignon com molho alguma coisa e o bife Welligton que até então nunca tinha comido, só visto no The Sims.

– O bife Welligton tem uma crosta de espinafre no recheio, – foi o que Val comentou quando me serviu um pedaço. – É bom para você.

A última parte foi só para mim e foi o suficiente para entender. O almoço não era para receber os dois que chegaram de Dubai e sim para me encher de ferro… que sacana. Não que eu esteja reclamando, a comida estava deliciosa e eu comi horrores. Mas depois desse comentário, notei que tudo havia alguma coisa “rica em ferro” para me ludibriar.

– Você tomou seus remédios?

Rapidamente peguei meu copo de suco de laranja e tomei um gole afirmando com a cabeça. – Uhum, tomei. Tomei sim.

Respirei aliviada por Valquíria simplesmente aceitar e continuar comendo e engajando na conversa. Juro por deus que quase tive uma outra crise de asma só de nervosismo com medo dela não engolir essa.

Depois de muito comer e ouvir as histórias da Barbara e o Theo, ainda sobrou muita comida. Todo mundo decidiu dividir e levar para casa, exceto Valquíria – óbvio – e eu. Querer levar para comer mais tarde, eu queria. Mas o Luiz estará lá também e com certeza iria comer tudo sozinho, então não. Ele não merece um jantar delicioso às custas da Val.

Depois do almoço prolongado, o dia de trabalho passou em um piscar de olhos. Nem por isso deixou de ser triste. O Apex e os finais de semana com a Val estão me deixando desacostumada recebendo a sua atenção quase que todinha para mim. Já aqui no escritório eu quase não existo. Como ela ousa a trabalhar no horário de trabalho? E eu?

Confesso que propositalmente não vi a hora passar e enrolei para juntar minhas coisas para ir embora, só para dar tempo de todo mundo ir na frente e eu entrar na sala da minha chefe sem ser vista.

– Já encerrou o horário de expediente. Você não vai sair não?

– Só um momento.

– Não tem um momento nenhum. Chega de trabalhar.

Ela me encarou desconfiada. – O que é isso, Clarice?

– Eu já, já vou ter que ir embora e você não me deu atenção ainda.

– D’accord – ela salvou o que fazia, desligou o computador e veio para perto de mim. – Você tem razão, – Val segurou meu rosto entre as mãos e eu a abracei pela cintura. – Eu não te dei atenção, não é mesmo? C’est absurde! [que absurdo].

Se ela soubesse o quão sexy fica falando em francês e o efeito que isso tinha em minha calcinha, acho que a Val não falaria em outra língua.

Só me dei conta de que estava morrendo de saudades dos seus lábios quando ela me beijou. Eu não deveria me entregar assim tão fácil a um beijo. Eu tento dizer ao meu coração não se apegar assim, mas a quem eu quero enganar.

Já nem me importava mais se estávamos no trabalho e se a porta estava trancada ou não. A saudade bateu e bateu forte. Eu só pensava em uma coisa agora.

– Clarice… – Valquíria chamou a minha atenção quando a joguei sentada no sofá. – Você tem certeza que se sente bem para isso?

– Absoluta, – me sentei em seu colo, beijei seu pescoço enquanto desabotoava sua camisa. – Eu posso te mostrar.

Valquíria enfiou a mão em meus cabelos e me puxou para um beijo. Nossas línguas dançavam em perfeita sintonia causando um estrago em minha calcinha…

– O que foi isso? – Eu não ouvi o primeiro ruído, mas ouvi o segundo. Em seguidas as luzes dos corredores foram se ascendendo. – Acho que é a equipe de limpeza.

– Droga… agora que a brincadeira estava ficando boa.

– Engraçadinha, – ela revirou os olhos. – Vem, vamos para o meu apartamento.

Eu poderia facilmente me acostumar a ir todas as noites para o apartamento de Val. Comer uma comida e uma mulher gostosa. Ficar de chameguinho e depois ir para casa…, mas a vida não era um morango.

Fizemos isso por três noites seguidas, até que quarta-feira a realidade triste de universitária me tirou do sonho. Tinha até me esquecido que o evento mais importante e esperado do ano era esse mês. A feira de arquitetura não só era um projeto multidisciplinar valendo nota em todas elas, como era uma oportunidade única de conhecer vários arquitetos famosos e assistir uma de suas palestras. Também rolava muita proposta de trabalho aos alunos de maior destaque… ou seja, era muito importante para mim e minha carreira.

Valquíria poderia até recusar os convites para participar dessa feira como já comentou que fazia. Eu não tinha essa opção e como meu único horário livre do dia era a noite… voltar para a faculdade era uma tristeza que só. Eu ia para lá de manhã, trabalhava de tarde e então voltava. No dia seguinte sentia como se nunca tivesse saído. Não vou mentir que já cogitei em dormir por lá mesmo, mas se fizesse isso eu não sabia quem me matava primeiro: meu pai, tia Lúcia ou a Valquíria.

– Isso parece que não vai acabar nunca, – comentei bocejando. – E pensar que quando eu era criança eu adorava fazer maquete.

– Quando a gente é criança tudo é mais legal. Agora nós somos adultos e cansados, não tem a mesma diversão.

– Nisso você tem razão, Marina – Diego disse. – Eu sou um adulto cansado e acho que já deu para nós essa noite. São quase 22h, amanhã eu tenho que ficar com meu filho, preciso dormir cara. Ainda temos tempo para terminar.

Marina olhou ao redor e se deu conta que, fora a ela, o resto do grupo estava só o pó da rabiola praticamente dormindo em pé. Eu também. Estava morrendo de sono, me sentindo exausta, tentando acordar com uma latinha de Monster e falhando miseravelmente. Infelizmente eu não podia dormir… essa madrugada tem festa e eu vou trabalhar até o sol raiar.

Glória me chamou de louca, mas concordou em me ter lá. Valquíria ficou puta, mas fazer o que? E o resto eu não me importava com a opinião.

– Vai querer uma carona hoje, Clara? – Diego ofereceu. Ele morava relativamente perto de mim e acabou se tornando minha carona oficial desses dias de trabalho extra.

– Não, não, valeu. Eu ainda vou trabalhar essa noite.

– Trabalhar essa noite?

– Sim, eu sou barista nas horas vagas.

– Coragem. Eu vou para a minha cama. Quem quiser carona até o metrô, me acompanhe que eu estou de saída.

Saí da faculdade com medo de me deparar com a Valquíria do lado de fora. Não foi fácil a convencer a me deixar ir sozinha ao Apex. Na verdade, foi difícil a convencer a me deixar ir lá para início de conversa. Não que eu precisasse da sua permissão, longe disso. Só que aquela ali joga sujo e poderia simplesmente barrar a minha entrada e me forçar a fazer o que ela queria. Eu só tive paz no coração quando de fato cheguei e consegui ir para o meu bar.

– E aí, viado – Glória me cumprimentou. – Pronta para trabalhar?

– Não, – confessei, começando a me arrumar para o trabalho. – Estou pronta para dormir.

Ela balançou a cabeça rindo. – Isso não vai acontecer tão cedo. Eu te avisei.

– Eu sei. Mas é uma festa, dinheiro extra. Eu preciso ficar.

– Precisa mesmo? Não era você que estava de rolo com um membro da sociedade? – Encarei Glória desconfiada. Eu não me lembro ter comentado nada a respeito com ela e nem ninguém. – Ah nem vem com essa cara, não. As paredes tem ouvidos… e também não é como se vocês duas fossem muito discretas.

Eu não respondi. Apenas a olhei séria e saí de dentro da dispensa deixando Glória para traz. Sim, nós usávamos a dispensa para tudo. Inclusive vestiário.

– Eu decidi sair da casa do meu pai, – comentei. – Com ou sem o total que pretendia juntar.

Glória me olhou de cima a baixo desconfiada. – Aconteceu alguma coisa? Se aquele cara encost…

– Não, – a interrompi. – Não aconteceu nada. Eu juro. Mas eu preciso sair antes que aconteça… é sério. Eu estou com medo – confessei disfarçadamente para evitar que qualquer pessoa ao redor nos ouvisse mesmo com a música. – Eu tenho que sair de lá.

– Bem, se você quiser, você pode morar comigo.

– Mas você tem a sua roommate, não tem espaço para mais uma.

– Ela vai se mudar. Sabe como é sapatão, começa a namorar e já quer morar junto. Eu não ia procurar por alguém para ficar no lugar, mas por você abro a exceção. Você já conhece o apê, sabe que é bacana e o condomínio é legal. Perto do metrô e o proprietário é gente fina.

– Você realmente não se importaria em dividir comigo? – Perguntei empolgada.

– Não. Eu só acho que você deveria conversar com a sua gringa antes.

– Ela é brasileira, franco-brasileira.

– Obrigada por confirmar. Mas enfim, gringa, – Glória insistiu. – Para ser sócio desse lugar, essa mulher deve ter dinheiro o suficiente para dar uma mesada para sua sugar baby. Você não teria que continuar trabalhando aqui para uns trocados extras.

Revirei os olhos. – Eu não sou sugar baby.

– Espera aí, não vai me dizer que estão namorando sério?

– Também não viaja, né Glória. Olha só para ela e olhe para mim. Sabe muito bem que ninguém que tem dinheiro para ser sócio desse lugar iria querer envolver sério com alguém como eu.

– Ué… eu não entendi. O que vocês são afinal?

– Nós estamos saindo e é isso.

Glória ergueu o cenho. – Saindo? E por acaso ela está ciente que você estão só “saindo”?

– Bem… nós não estamos namorando. E eu não sou sugar baby de ninguém.

– Ou seja, nem você sabe o que está rolando entre vocês. Parabéns, viu. Só faltou dizer que são amigas com benefícios.

– Amigas é uma palavra muito forte. Não acho que eu esteja num patamar para ser considerada amiga dela também. Talvez colegas com benefícios… conhecidas com benefícios…

Glória parou o que fazia para me observar com julgo. – Eu estou começando acreditar que você tem sérios problemas de autoestima e não consegue aceitar que alguém que considera foda seja capaz de se interessar por você. É capaz de até o dia do casamento você ainda pense que estão só saindo.

– Até parece.

Valquíria jamais iria querer casar comigo.

– Saindo, namorando, amigas ou colegas, independente do que for, ela parece ser uma pessoa legal e tenho certeza que iria te dar uma força para sair de lá o quanto antes… eu acho que você deveria sair daquele lugar para ontem. Ainda não me conformo que você não fez isso ano passado e nem denunciou aquele filho da puta.

– É o meu pai.

– Não, ele não é seu pai. Ele é um genitor e só isso, – ela balançou a cabeça tentando dispersar a raiva. – É melhor você começar a trazer as suas coisas aos poucos. Deixa lá no meu apartamento. Eu não confio nesse cara e se por acaso você precisar sair às pressas, não irá deixar muita coisa para trás.

Engoli o seco pensando na possibilidade. No entanto, Glória tem razão. Tudo na minha família é imprevisível. Vou começar trazer as minhas coisas amanhã mesmo!

– Aí que ódio, – Glória largou as coisas no balcão do bar e me olhou brava. – Por que o bife só cai no prato do vegano?

– O que?

– Você tem a faca e o queijo na mão para ser sugar baby de uma mulher gostosa e está de frescura. Enquanto isso, tem vários por aí que se submetem a cada velho da lancha mais feio que o outro.

Balancei a cabeça dando risadas. A Glória é uma bobona.

Eu seria incapaz de me envolver com qualquer pessoa por dinheiro. Também não quero estar presa a ninguém. Eu já me sinto mal pela Val ter gasto comigo no domingo que quase morri. Pior ainda por parte desse dinheiro ter ido para o lixo. A envolver na minha mudança seria demais. Eu já sou maior de idade e posso lidar com isso sozinha.

A noite rendeu e não foi pouco.

Foram necessárias três latinhas de energético e algumas doses de Bailey’s no gelo para sobreviver a correria. Fazia um tempo que não vivia isso, era a primeira vez que o Apex enchia desse jeito… ao menos, era a primeira vez que eu vinha para esses lados daqui.

– Como é possível esse lugar ser tão grande. Tem um lago! – Comentei empolgada enquanto Glória e eu caminhávamos para o casarão onde costumávamos trabalhar. – Como eu nunca vi isso antes?

– Você nunca deu uma volta para conhecer?

– Não, não imaginava que fosse ter tantas coisas.

– É bem legal. Pelo que eu entendi, o Apex que a gente conhece é limitado a um seleto grupo de pessoas, mas a sociedade é muito maior que isso. Tanto que o casarão é bem isolado de todo o resto. Tem umas paradas bem bacanas aqui, até um ateliê de artes que você iria amar.

– Um ateliê?

– Sim. O Otávio me levou uma vez para ver, ele seria o modelo para aquela aula.

– Meu deus… você viu o Otávio nu?

– Vi. Foi bizarro.

– Você gosta dessas coisas?

– Homem nu? Não, que horror!

– Desenhar, palhaça. Desenhar a pessoa.

– Se for uma mulher… infelizmente não me apareceu nenhuma Rose para posar nua para mim.

Glória soltou uma risadinha. – Eu conheço quem tem cara de que faria isso para você, basta pedir.

– Ha. Ha. Engraçadinha.

Não era como se eu precisasse pedir para ela posar para mim.

Seguimos caminhando falando sobre desenhos. Empolgamos tanto com a conversa que decidi mostrar alguns que tinha comigo em minha mochila. A maioria – senão todos – foram feitos nas minhas horas de ócio no Apex, então não era nada demais e não passavam de rascunhos, mas era um excelente passatempo.

– Você realmente estava falando sério quando disse que desenha mulheres, – Glória comentou rindo. – Ou mulher. Essa aqui é definitivamente ela.

– Você acha? Eu não estava pensando muito quando estava rabiscando. Não era para ser ninguém.

– Se não era para ser ninguém e mesmo assim saiu idêntica a sua não-namorada-apenas-saindo… você sabe o nome disso, não sabe?

– Desenho.

– Nem você acredita nisso, garota.

– Hoje você tá que tá. Cruzes. – Tomei o desenho da mão de Glória. Ela me encarou suspeita e pressionou os lábios com quem queria falar algo, mas optou por se calar. – É só um desenho.

 Un dessin très beau¹, – a voz atrás de mim quase me fez saltar ao teto. Valquíria e sua mania de chegar de mansinho e me assustar. Ela se inclinou sobro o balcão do bar e apoiou o rosto na mão. – É um desenho muito lindo¹, foi você quem fez? Posso ver?

– Sim, – a entreguei o papel ainda sentindo os efeitos do susto. – O que está fazendo aqui?

– Te buscar, – respondeu casualmente e mudou de assunto. – Você me desenhou?

– Eu falei, – Glória disse entre os dentes e deu as costas para continuar recolhendo suas coisas para ir embora.

Me buscar de madrugada, eu até entendo. Mas já era manhã, o céu estava clareando e os ônibus já circulavam há um tempo. Não tinha motivos para vir me buscar. Pior, levantar cedo para estar aqui às 6:03 da manhã de sábado.

– A gente já tinha combinado que eu iria para o seu apartamento, por que você veio até aqui? – Perguntei mais baixo para evitar da Glória ouvir e depois ficar falando asneiras na minha cabeça.

Valquíria me observou em silêncio. O olhar sereno e um sorriso contido no rosto. – Você achou mesmo que iria deixar que fosse sozinha a essa hora?

– Já está claro. É tranquilo.

– Pode até ser, mas quando foi a última vez que você dormiu? – Ela endireitou o corpo. – Só achei mais prático te buscar aqui que é mais perto que ter que atravessar a cidade depois para te buscar porque dormiu no caminho e se perdeu.

Eu iria argumentar, mas ela tinha razão. Eu era bem capaz de dormir no ônibus e ir parar longe.

– Você quer uma carona, Glória? – Valquíria ofereceu.

– Suave, eu estou de moto.

Glória me olhou e seu olhar foi o suficiente para passar a mensagem. Ela viaja nas ideias dela e depois me chama de iludida. Como pode algo assim? A Val tem cara de cruel e má, mas é legal com todo mundo… todo mundo próximo dela. Não é nada exclusivo a mim.

– Eu até que shippo vocês, – Glória disse baixinho perto do meu ouvido quando estávamos caminhando para o estacionamento. – Qual o nome desse ship?

Claríria. Valrice. Valra. Valkyrice. Claryrie. Clarie. Hm… Clarie.

– E então, pensou? – Glória riu. – Até depois, meninas. Bom dia para vocês!

Mas que vac… por que eu estou pensando nisso? Eu odeio essa idiota também!

Se eu não estivesse exausta iria reclamar e mandar se ferrar, mas nem para isso tinha energia.

Confesso que fiquei surpresa que não caí no sono imediatamente ao entrar no carro da Val. A exaustão me consumia, mas o sono insistia em não vir. Talvez a conversa com a Glória me deixou ansiosa ao lado de Val fazendo meu coração perder o ritmo ou o simples fato de que o dia tinha sido um completo caos e agora tudo estava calmo demais para o meu cérebro processar. Nem mesmo a temperatura perfeita com o aquecedor ligado foi o suficiente para me fazer desligar.

Virei de lado no banco, pensei que a posição fosse me ajudar a pegar no sono, mas o efeito foi justamente o contrário. Eu estava bem acordada, observando a minha motorista da terceira idade favorita. Valquíria dirigia com a sua típica tranquilidade de quem tinha todo o tempo do mundo, mesmo nas ruas frenéticas de São Paulo. Embora o fato dela dirigir como uma senhora de 84 anos me deixasse louca, no fundo, era uma das coisas que eu mais gostava nela. Tem noção de quão raro é encontrar alguém que consegue se manter em paz em meio ao caos, gritaria, buzinas e surtos no trânsito dessa cidade infernal?

Ela é a minha joia rara.

– Posso saber por que não dormiu ainda? — Val perguntou, me lançando um olhar rápido e carinhoso.

– Porque eu quero te admirar — respondi com um sorriso bobo, quase infantil, que eu nem conseguia controlar. — Você é muito linda, sabia? – Quando está se operando no modo economia de energia, o filtro era uma das primeiras coisas a ser desligadas. O meu já estava offline a muito tempo e eu estava cansada demais para me preocupar.

Val riu baixinho, estendendo a mão para acariciar meu rosto. Seu toque era suave, um convite irresistível ao sono.

– Tudo isso é sono? Dorme, eu te acordo quando chegarmos.

Ela sorriu e seu sorriso causou algo estranho dentro de mim. A verdade era que tudo o que eu mais queria naquele momento era poder me aconchegar no colo de Val, deitar a cabeça em seu peito e deixar que ela me envolvesse com seus braços. Só de imaginar o aconchego e o calor do seu colo, senti meu corpo relaxar, e, sem perceber, adormeci.

Acordei com um toque suave em meu rosto e a voz baixinha de Val me chamando de volta à realidade.

– Chegamos, Clara.

O cansaço me pesava como uma âncora. Sem raciocinar muito, joguei os braços sobre os ombros da Valquíria. Estava com tanto sono que se deixasse, eu dormiria ali mesmo.

– Você não acha que está bem grandinha para querer que eu te carregue no colo? — Val brincou enquanto soltava meu cinto. – Vem, vamos subir. Você precisa de um banho e cama.

Resmunguei, já sentindo a preguiça de ter que me mover. Só de saber que tinha que sair do carro, subir até o apartamento e ainda tomar banho parecia uma tortura desnecessária. Não era mais fácil me deixar dormindo no carro? Com certeza era, mas a Val estava decidida a me cuidar e eu não iria reclamar. Também não tinha energia para isso.

Ainda meio grogue, fiquei pendurada ao seu pescoço enquanto ela me segurava pela cintura, me guiando até o apartamento. Assim que entramos, ela largou minha mochila no sofá e olhou para mim com uma expressão que não soube identificar. Era dó? Preocupação? Estava brava? Sexta, no globo repórter.

– Okay, Clara. Eu já entendi que está cansada. Vamos tomar um banho e eu já te deixo dormir na cama quentinha, o que acha?

– Tá — murmurei, mal conseguindo articular uma frase inteira.

Não sei o que deu em mim para levantar os braços ali na sala mesmo, esperando que ela tirasse minha camisa. Meu cérebro não estava funcionando direito, a exaustão o tornou monocomando e sua única função era emitir o alerta de “bateria fraca”.

– Aí, mon dieu, Clarice. Você é um caso sério mesmo — Val riu, me ajudando a tirar a camisa. — Estou vendo que não vai ter outro jeito. Se eu for esperar que vá andando sozinha para o banheiro, vou ficar até amanhã esperando.

Val balançou a cabeça em negação e me levantou do chão com uma facilidade ridícula e me levou para a suíte. Eu estava tão sonolenta que quase cochilei sentada na privada, enquanto esperava a Val terminar de preparar tudo para o banho.

– Não dorme ainda — Valquíria me chamou de volta, com a voz suave, mas firme. – Vem, eu te ajudo.

A essa altura do campeonato, eu já não sentia vergonha em me despir na frente de Val. Tudo que ela poderia ver aqui, ela já tinha visto antes. Sem contar os vexames que já passei na sua frente. Eu já não tinha mais energia para sentir vergonha ou me incomodar. E, para ser sincera, naquele momento, a única coisa que eu queria era que alguém tomasse as rédeas, e ninguém melhor do que a Valquíria para isso.

A água da banheira estava quente, o vapor subindo lentamente, o cheirinho gostoso que lembrava o cheiro da Val no ar. Eu tinha mudado de ideia; nada de carro, dormir na banheira seria muito melhor.

– Estou preocupada com você, – Val comentou, me banhando sentada em uma banqueta ao lado da banheira. – Esse seu ritmo não é nada saudável. Depois do que aconteceu semana passada, deveria estar se cuidando e pegando leve, mas me parece que fez justamente o contrário.

Abri um olho para a encarar. – Você falando isso? Até um tempo atrás, eu tive que te trazer de volta para casa depois de desmaiar de exaustão.

– E veja só, isso nunca mais aconteceu.

Eu iria responder, mas Val apertou meus ombros de um jeito que minhas palavras foram substituídas por um gemido. Não sabia que o banho vinha acompanhado de massagem, que surpresa gostosa.

– É temporário, ok? – Respondi entre meus suspiros. – Daqui três semanas será a feira da faculdade e eu não vou ter mais que trabalhar no projeto.

– Três semanas? – Val perguntou nada contente. – Você pretende continuar nesse ritmo insano por mais três semanas? Isso é loucura, Clara.

– Por incrível que pareça, eu já fiz coisa muito pior no passado.

Val me olhou séria. – E você se orgulha disso? – Ela balançou a cabeça, sua revolta estampada no rosto. – Me dá seu pé.

Como alguém que está brava e irritada com você faz uma massagem nos seus pés sem nem pedir? Isso não é uma mulher, é uma prefeita!

Tudo parecia um sonho, o ambiente, a água, o toque delicado da Val ao me lavar. Por uma fração de segundo pensei que tinha morrido e esse era o paraíso. Se o céu existe, provavelmente deve ser tão bom quanto esse banho.

– Nous avons terminé, ma petite. Allez, on se lève. [Terminamos, minha pequena. Vamos levantar].

Não entendi balhofas que Valquíria disse. Percebi que era hora de levantar quando ela se levantou primeiro e me ofereceu ajuda.

Se eu queria que o banho acabasse agora? Não, mas as toalhas felpudas e macias de Val poderiam me fazer mudar de ideia facilmente.

De banho tomado, dente escovados e de pijamas, eu estava pronta para dormir depois de 24h seguidas acordada.

– Você está com fome? – Val perguntou.

Sabe quando seu sono é tão grande que supera sua vontade de comer? Pois então… eu estava com fome, mas não tinha condições físicas para lidar com isso.

– Eu tô preguiça.

Val sentou na beira da cama ao meu lado e me acariciou o rosto pensativa. – Quer um copo de leite para forrar o estomago?

– Hmmm, um leitinho quentinho.

– Chocolate quente, então?

– Não. Leite quente.

– Com o que?

– Leite.

– Você quer leite puro? – Concordei com a cabeça. – D’accord. Eu já volto.

Se a Val realmente voltou com o meu copo de leite, eu não sabia responder. Muito antes que isso acontecesse, meus olhos se pesaram. Tentei lutar contra a vontade de me render e entregar ao sono, mas foi mais forte que eu.

A bateria acabou e eu adormeci. 

«-»

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