Elora Aneva

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12. Elle n’a pas fait la vaisselle.

« V A L K Y R I E »

O comportamento de Clarice hoje me causou estranheza desde o primeiro momento, mas não sabia dizer o motivo. Meus planos era ter uma conversa para entender se estava tudo bem. No entanto, Clarice não teve uma trégua sequer e quando menos esperava, aconteceu o que aconteceu.

Na hora eu não sabia o que pensar. Estava preocupada com a Juliana, claro, mas o meu medo mesmo era que virasse uma cena para todos verem e acabar causando penalidade a Clara. Imagine só se chega aos ouvidos da Ana Marta, a diretora do APEX que alguém do staff puxou o cabelo de uma sócia… uma sócia no pequeno espaço!

Por sorte era a Ju e a Gio. Tenho certeza que a Gio não irá fazer uma queixa contra a Clara por saber que estamos juntas agora. Ela é a minha amiga a minha advogada, se não fosse pela amizade, eu iria dar um jeito de conseguir isso pela parte comercial.

Eu espero que isso não volte acontecer, mas o fato de ter acontecido me fez perceber que a Clara está vulnerável ali dentro. Qualquer um consegue facilmente banir sua presença e eu não duvido que a vadia da Claudia iria ter prazer de fazer isso só para me atacar indiretamente. Não seria a primeira vez também…

Mas isso é um problema para a Valkyrie do futuro.

A Valkyrie de agora precisa lidar com certa senhorita que está muito estranha e cabisbaixa. Eu não tinha dúvidas que Clarice não fez o que fez por maldade, ela realmente ficou bastante abatida e para baixo depois. Eu só não sabia o porquê… e isso me preocupa.

Confesso que quando saímos do Apex, eu não sabia exatamente para onde iríamos. Não me parecia que o clima estava bom para o que tinha planejado antes. No entanto, quando passamos na frente de um Mc Donald’s me lembrei que Clarice quase sempre comenta que quer um “méquizinho” no trabalho. Você não irá me ver entrando em um restaurante como esse, mas acho que vai ajudar subir os ânimos por aqui. Ao menos todo mundo do escritório, independente do departamento, sempre se empolga com esses lanches.

– Mc Donald’s? Desde quando você come fast food?

– Hoje… eu acho.

Respirei fundo e entrei com a Clara.

Nota mental: usar meus protetores auriculares na próxima vez que vir a um lugar como esse.

Tinha muita gente, barulho da cozinha, números sendo gritado a todo instante, pessoas aglomeradas próximo ao balcão e aos totens.

– Você não quer escolher a mesa primeiro? Está cheio aqui.

– Vamos pedir primeiro, – Clara respondeu e eu quase não a ouvi com sua voz se misturando a várias outras.

– Por que não pedimos direto da mesa? – Pelo olhar de Clara eu sabia que disse alguma besteira. – O garçom não tira pedido?

– Garçom? No Mc Donald’s? Você realmente nunca comeu no Mc Donald’s? – Sorri sem graça. Por que todo mundo fica tão abismado com isso? – Eu pensava que Mc Donald’s fosse algo universal, independente de quanto dinheiro você tem.

– Je ne seis pas (eu não sei), – dei ombros. – Eu era uma criança muito chata com comida.

– Era?

Lancei um olhar sério para Clara. – Eu estou muito melhor, bobona. Hoje eu como quase tudo, na época meu cardápio era muito limitado. Mas enfim… eu passei a comer mais quando vim passar uma temporada com a minha avó no Rio de Janeiro. Ela não gostava dessas “porcarias” também… ainda não gosta. Então eu meio que nunca tive curiosidade em provar depois que melhorei minha relação com a comida.

– Nós podemos comer em outro lugar se achar melhor. Ou eu pego alguma coisa aqui e pegamos algo para você em outro lugar.

Ouvir Clarice sugerir ir a outro lugar tão casualmente me causou estranheza. Normalmente somente as pessoas do meu núcleo mais próximo levam em consideração minha relação com a comida. As outras pessoas no geral me chamam de fresca e nojenta ou dizem coisas como “ela não come comida de pobre”. E já houve uma época em que eu me forçava comer não importava o quão torturante poderia ser, apenas para ser aceita por determinada pessoa ou grupo.

– Está tudo bem. Você gosta daqui.

– Tem certeza?

– Oui.

Chegou a nossa vez de escolher o nosso pedido no totem. Eu não fazia ideia do que poderia comer. Não sabia que haviam tantas opções assim. Se não bastasse isso, eu me sentia extremamente incomodada com a situação. Muitas pessoas falando ao mesmo tempo, aglomeradas ao nosso redor, uma parte delas quase em cima de nós como se o fato de estarem mais perto fizesse com que a Clarice e eu terminássemos mais rápido.

Tinha momentos em que a voz de Clarice se misturava com a das outras pessoas e eu já não sabia mais quem ouvir. E no desespero de sair dali, eu fui escolhendo coisas aleatórias que foram sugeridas a mim pela máquina.

– Valquíria? – Clarice me chamou. – Está tudo bem?

– Oui, oui, tout va bien. Tout va bien ! (Sim, sim. Está tudo bem. Está tudo bem!), – tentei soar o mais normal possível. – Je suis fatiguée (eu estou cansada).

– Que?! – Clarice fez uma careta confusa. – Fala português.

– Désolé… quer dizer, desculpa… eu sou cansada… – Clarice ficou me encarando em silêncio. Eu demorei um pouco para perceber a minha gafe. – Estou… – me corrigi. – Eu estou cansada.

– Tá certo…

Por sorte nosso número foi chamado aos berros desnecessários e ao menos poderia me livrar da aglomeração. Eu fiquei um pouco mais atrás esperando por Clarice que demorou um pouco para quem só iria retirar a bandeja.

Para a minha surpresa, ao invés de sair do meio da multidão com uma bandeja, Clarice tinha em mãos pacotes de papel e os copos em um suporte.

– O que há de errado com o nosso pedido?

– Nada. Eu só pedi para embalarem para a viagem, – ela me deu os copos. – Vamos comer no carro, – Clarice se virou em direção a saída e então se virou de volta para mim. – Você não se importa se comer no seu carro, né?

– Não, sem problemas… mas por que você quer comer lá? Você não quer comer na mesa?

– Não, lá vai ser mais confortável.

Foi a minha vez de seguir Clarice pelo caminho.

Quando fechamos a porta do carro senti um alívio imediato. Sem tumulto, sem barulho. Somente paz e conforto. Pude finalmente respirar melhor.

– Agora podemos finalmente comer em paz.

– Por que você não quis comer lá dentro?

Clarice colocou uma batatinha na boca e gemeu. – Muito bom! Eu adoro as batatinhas do Mc. Prova!

Sem me dar chances de responder ou recusar, Clarice enfiou um punhado de batatinhas na minha boca. Batata frita pode ser considerado meu “guilt pleasure”, pode ser o que for, eu amo batata frita. Porém, não esperava que as batatas daqui fossem realmente muito gostosas.

– É bom.

– Eu não falei.

– Muito bom! – Clarice me passou o pacotinho vermelho. – Bem, claramente isso não é só batata frita e com certeza não é vegetariano também. Tem um gostinho aqui que deixa diferente, talvez um óleo saborizado. Não sei se quero saber o que eles fazem, mas é bom. Eu gostei.

– Seu sobrenome é Jacquin também?

– Não, eu só tenho um sobrenome.

Clarice ficou me encarando em silêncio por um instante e começou a rir. – Você é muito bobona.

Bobona? Eu? Por quê?

Eu iria questionar isso quando Clarice sujou a própria roupa com mostarda. – Droga. Eu me sujei!

– Calma, não esfrega. Vai espalhar e piorar a situação.

Por sorte, eu sempre tenho em minha bolsa pacotinhos de lenços removedor de manchas instantâneo. Nunca se sabe quando momentos como esse vão acontecer e Dieu m’en garde (deus me livre) andar com roupa manchada por aí.

– Pardon (perdão)… isso não teria acontecido se não estivéssemos comendo no carro, – comentei enquanto limpava a camisa com o lencinho.

– Você realmente acha?

– Teria sido bem melhor se estivéssemos comendo em uma mesa, mas por minha causa estamos aqui. E eu duvido que você fosse de fato querer comer em…

– Valquíria, cala a boquinha – Clarice me interrompeu. – Essa não é a minha primeira vez comendo dentro do carro no estacionamento do Mc. Eu realmente não me importo, para de se culpar por algo tão bobo.

– Mas é que se eu não fosse… – eu parei a frase no meio do caminho.

Esse foi o momento em que me dei conta de que não tinha conversado com Clarice ainda e agora eu me sentia ainda mais incomodada com toda a situação. E se ela entendeu tudo errado? Eu não quero que ela pense que eu sou só mais uma fresca.

– Eu tenho algo para te falar.

– Hmmm, fala – ela disse enchendo a boca de batatinhas.

– Eu tenho TEA, – confessei. –

Clarice passou a mastigar em câmera lenta sem saber se olhava para mim ou para o nada. Ainda em silêncio e sem dizer uma única palavra bebericou o refrigerante. Tudo isso estava me deixando extremamente agoniada sem entender que diabos era a sua reação.

Eu já passei por diversas situações em que essa conversa terminava com a outra pessoa dizendo que não se sentia confortável em relacionar com alguém como eu. Isso quando simplesmente não se lembraram de alguma emergência e sumiam completamente. Então sim, eu estava preocupada.

– É só isso? – Clarice perguntou quebrando o silêncio. – Não vai falar mais nada?

– Não?! – Respondi desconfiada.

– Ah, então tá bom.

Ela deu ombros e seguiu comendo sem se importar muito com o que eu disse. Acho que nunca me senti tão confusa com a reação de alguém em toda a minha vida. O que isso significava? Será que ela não considera nosso relacionamento o suficiente para se importar com isso? Ao menos com homens foi assim, os que melhor aceitaram minhas condições eram casos passageiros e sem interesse em prolongar.

Mon dieu, será que…

– Eu já sabia, – ela confessou. – Quer dizer, eu fiquei sabendo tem pouco tempo. Mas enfim, eu já sabia.

– Quem te contou?

– Ninguém… eu descobri, – Clarice abriu a porta-luvas do carro e tirou de dentro meu colar de girassóis. – Eu encontrei isso aqui aquele dia que me pediram para pegar a chave no seu carro.

Eu vou matar o Bruno…

Como eu não suspeitei antes que isso estava fora do lugar? Putain!

Espera aí… como assim a Clarice já sabia?! Nós conversamos depois desse dia da chave. Nós fomos para cama juntas! Ela não iria simplesmente não comentar nada sobre isso, iria?

– E foi bem depois daquela vistoria na obra em que aquele feioso falou um monte de abobrinhas e eu quis esfregar a cara dele no concreto. Eu não acredito que ele realmente achou que isso iria mudar meu interesse em você. Ou pior… tentar te diminuir por isso. Você não acredita nele, acredita?

– Eu uh… hm.

– Valquíria… é sério isso? Existe um abismo enorme entre vocês dois. Você ter autismo não vai mudar o fato de ser foda. Desculpe o palavrão, era a única palavra possível. Enfim, eu não gosto desse cara e acho que você não deveria mais trabalhar com ele. Agora coma o seu lanche que eu quero ver a sua cara e registrar isso.

Clarice já estava com o celular na mão pronta para me filmar. Revirei os olhos e balancei a cabeça em negação. Sinceramente não entendo porquê as pessoas tem tesão em filmar a minha reação.

E se você quer saber o que eu achei do lanche… não consegui comer um inteiro e Clarice fez questão de devorar por mim, mas é bom. Comeria outras vezes, porém me impressionei com a quantidade de comida que coube em um corpo tão pequeno e magro. Por um momento me pareceu até que não comia há dias.

Ai, ai… essa garota é uma graça.

Nós ainda pedimos uma sobremesa antes de irmos para o apartamento. Com a Clara mais calma e um melhor humor, senti que era a ocasião ideal para a nossa conversa. Ainda tínhamos pendências para tratar.

– Clarice, senta aqui, – eu pedi, sentando no sofá e indicando o espaço ao meu lado para ela se juntar a mim. – Vamos conversar.

– Aí… você vai me dar um esporro agora, não vai? – Ela se sentou receosa. – Eu sabia que estava sendo muito legal para ser verdade.

– Na verdade não… eu não sei o que aconteceu, eu não estava vendo. Eu quero saber de você. O que aconteceu e por que puxou o cabelo da Jujuba?

Observar Clarice se tornou o meu passatempo favorito nos últimos tempos a ponto de ser capaz de distinguir as menores das suas expressões. Então sim, eu notei quando torceu o rosto ao mencionar “Jujuba”.

– Eu não sei dizer o que deu em mim, ok? Eu só… sei lá, estava chateada, frustrada, cansada e faminta. E bem, a Ju… – Clarice novamente torceu o rosto, – a Juliana estava lá e enfim. Ela não tem culpa e não fez nada contra mim se é isso que quer saber. O problema sou eu e a culpa é minha, então se quiser me xingar e me chamar de imatura e infantil vá em frente, eu realmente fui.

A observei em silêncio enquanto refletia em suas palavras.

Por mais que ela se considerasse culpada e confessasse que não fizeram nada contra ela, eu não conseguia ver maldade ou má intenção em sua atitude. Clarice não parece ter feito o que fez para machucar a Jujuba.

– Allors, – balancei a cabeça reflexiva. – Não era bem essa atitude que eu esperava de você. Realmente me pegou de surpresa e me deixou sem saber como agir… por favor, não faça isso de novo. Se tivesse mais alguém ali ou se fosse qualquer outra pessoa, a senhorita estaria bem encrencada. Ainda bem que elas são bem tranquilas e não vão abrir uma reclamação contra você… enfim, quer fazer alguma coisa?

Clarice me encarou confusa. – É só isso?

– Oui, – dei ombros. – Ou você quer que eu te puna por isso? – Ela arregalou os olhos e balançou a cabeça eufórica. – Foi o que eu imaginei.

Com tudo que aconteceu, os planos do dia foram substituídos por sexo, uma boa conversa e alguns episódios de reality show aleatório. Eu gostaria que Clarice passasse a noite comigo, no entanto, ela disse que precisava ir embora e não me restou outra opção senão a levar para casa.

Acho que finalmente estava entendendo o que significava aquelas piadas de que lésbicas vivem no tempo de cachorro. Não temos uma semana de namoro e eu já estou pensando em como seria a nossa vida se morássemos juntas…, mas vamos com calma. Aposto que se eu falar algo do tipo para Clarice agora ela me chamaria de doida.

Felizmente nós íamos nos encontrar amanhã também; vamos correr no Ibirapuera, fazer um piquenique e passear um pouco. Dessa forma não teríamos que aguardar até segunda-feira de tarde para nos ver outra vez. E foi pensando nisso que eu dormi em algum momento no meio da madrugada.

De manhã fiz tudo como pede o ritual. Levantei cedo, fiz minha sessão de ioga no terraço, tomei meu banho e comi um café da manhã. Só então estava pronta para começar a preparar as coisinhas do piquenique. Muito provavelmente eu tenha exagerado um pouco na quantidade de comida por não saber exatamente o que Clarice gostava e apostar em um pouquinho de tudo que veio a mente. Exceto pelos cookies, esses aí eu fiz vários.

Embora eu tenha me oferecido a buscar Clarice em casa, ela insistiu em me encontrar no parque. E lá estava eu no estacionamento encostada no carro esperando a dona mocinha dar o ar de sua graça enquanto respondia alguns e-mails no celular.

– Ei, – Clarice surgiu ao meu lado me dando um leve susto. – Está muito tempo me esperando? Meu ônibus demorou um pouco mais do que eu esperava.

O sorriso em meu rosto foi automático. Era inevitável, bastava olhar para Clarice e eu sorria igual uma boba.

– Sem problemas.

– Eu trouxe umas coisinhas para o nosso piquenique., – ela ergueu a sacola empolgada. – E vim com tênis confortável também. Eu não sei qual é a graça de correr no parque, mas se é o que você faz nos domingos, então é o que vamos fazer.

E sim, toda essa história de vir ao parque começou quando Clarice perguntou o que eu fazia nos domingos e eu disse que corria ao ar livre. E bem, esse não era o domingo do Ibirapuera… para ser sincera, de todos os lugares do meu “rodízio de corrida” esse era o que menos me atraía justamente por ser lotado, mas foi a escolha dela, então eu apenas concordei.

– Então, como a gente faz? Deixa tudo no carro, vai correr, depois volta e escolhe uma sombra para ficar?

– Sim, soa como um bom plano. Nós podemos dar uma só volta no parque para você não se cansar.

– E não é só uma volta? – Clarice perguntou perplexa.

– Normalmente eu faço três. Vem, vamos nos alongar na sombra.

Nós fizemos um bom alongamento e de cara percebi que Clarice não tinha costume de se alongar. Com a rotina que tem, eu não ficaria surpresa se me dissesse que não tem tempo para fazer algo para cuidar do seu corpo e saúde. Se bem que eu posso ajudar com isso, quem sabe uma ginástica laboral ou algo do tipo?

Começamos a nossa corrida com uma caminhada para aquecer o corpo e sair um pouco do tumulto da entrada do parque.

– Você sempre vem correr sozinha?

– Não, às vezes o Bruno me acompanha, mas depende muito de como está agenda dele. Ele consegue ser mais ocupado que eu.

– Eu imagino… ele parece ser bem legal, só dá um pouquinho de medo.

– Medo? Por que?

– Já viu o tamanho dele? – Ela olhou para mim por um instante. – Se bem que… você não fica muito para trás… todos os seus amigos são altos? É um requisito básico?

Eu nunca tinha refletido sobre isso antes, mas tanto meus pais, quanto meus amigos mais próximos são todos acima de 1,70m e bem… Clarice não chega nem perto disso. E talvez fosse por isso que estava com medo de perder ela em meio a multidão que também caminhava no parque.

– Está pronta? Podemos começar a correr?

– Começar?!

– Sim. Você não considera esse ritmo uma corrida, considera?

– Não? – Ela desviou o olhar. – Talvez… suas pernas são mais longas que a minha. Para mim isso já é correr.

– Não seja bobinha, vamos lá. Você vai gostar. A sensação ao final da corrida é ótima.

– É claro que é. Depois de se torturar por quilômetros, parar deve ser realmente um alívio.

Balancei a cabeça e acelerei o ritmo aos poucos mantendo Clarice sob meu campo de visão no canto do olho. Ela aos poucos foi me acompanhando e fomos aumentando os passos juntas.

Nós estávamos indo razoavelmente bem quando Clarice repentinamente reduziu os passos até parar completamente. Eu parei logo em seguida poucos metros à frente.

– Clarice? O que foi? – Ela estava apoiando as mãos sobre os joelhos e de cabeça baixa. – Sentiu alguma câimbra? Quer dar uma pausa?

Eu estava me aproximando dela sem pressa até que ela caiu de joelhos com a mão sobre o peito e a outra se apoiando no chão e eu corri para o seu lado.

– Clarice?! O que aconteceu? O que está sentindo? – Toquei em seus ombros para a virar para cima e poder ver seu rosto. No fundo eu tinha esperanças de que fosse só mais uma cena dramática, no entanto, quando seu olhar se encontrou com os meus, percebi que era sério, muito sério. Ela tentou balbuciar algo que eu não compreendi. – O que? Eu… eu não entendi.

– As… as…

– As- o que?

– Ma.

– Asma?! Você tem asma?! Mas os remédios…

Era óbvio que Clarice não tinha remédios aqui. Se ela tivesse alguma coisa, estaria na sua bolsa no carro. E o carro… bem, ele está longe demais.

Eu tinha pouco conhecimento de primeiros socorros e nada que eu sabia me preparou para lidar com isso. Eu precisava agir e agir rápido, mas não sabia o que fazer.

– Tudo bem aí moça? Precisa de ajuda?

Foi só então que percebi que um pequeno montinho de gente começou a se formar ao nosso redor, preocupados com a cena.

– Tem um pronto atendimento saindo pelo portão ali, – uma moça comentou apontando para o portão. – Não dá nem uns cinco minutos andando.

– Ó, moça, usa meu patinete – um rapaz por volta dos seus 16 anos me ofereceu seu patinete elétrico de aluguel. Ele estava acompanhado do outro rapaz também usando um patinete do mesmo modelo. – Meu parça vai na frente para avisar os caras. Eu vou andando atrás para pegar a motoca, se preocupa não, tia.

Não era a forma mais segura e adequada, mas era isso ou sair correndo com a Clarice nos braços. Acabei aceitando a ajuda dos adolescentes. O fato da Clara ser pequena ajudou a equilibrar as duas no patinete. Ela estava mal, mas ainda tinha um pouco de forças nas pernas e nas mãos.

O rapaz com o patinete foi na frente. Eu fiquei com um pouco de dózinha do garoto que veio correndo atrás de nós, mas era isso ou perder muito tempo para salvar Clarice. E nesse caso, sem dúvidas minha prioridade é a minha garota.

Por sorte, a unidade de pronto atendimento Einstein era realmente muito próximo ao parque. Entrei com Clarice nos braços e lá dentro o primeiro rapaz já pedia socorro por ela. Rapidamente vieram nos atender.

– O que ela tem?

– Asma.

– E onde está o inalador de resgate? – Eu não soube responder e a médica me ignorou completamente para dar orientações as enfermeiras. – Preparem a nebulização com salbutamol e ipratrópio, dose máxima, agora! Administrem via nebulizador assim que estiver pronto. E, enfermeira, prepare 125 mg de hidrocortisona IV.

Clarice foi levada de cadeira de rodas para a emergência. Eu queria ter ido junto, mas uma das atendentes da recepção me barrou.

– Senhora, nós precisamos dar entrada da paciente.

Era claro que eu não tinha nenhum dos documentos de Clarice comigo. Tudo dela estava no carro. E embora eu soubesse de cabeça os meus ou tivesse suas versões digitais em meu celular, não fazia ideia de quais seriam os da Clara, muito menos a senha do seu aparelho para saber se tinha as versões digitais como eu.

Se fosse dia de semana poderia pedir ajuda ao RH do escritório, mas como era domingo não havia ninguém por lá.

Apex!

Liguei para Ana Marta, dois toques depois ela me atendeu com o seu típico bom humor e empolgação.

– Valquíria, querida. O que devo a honra da sua ligação?

– Ana Marta, isso é uma emergência médica. Eu preciso que me passe os números dos documentos da Clara!

– Certo, me dê dois minutos e eu te enviarem por mensagem.

Enquanto aguardava a mensagem de Ana Marta, eu dei meu cartão de contato para os rapazes. Eu queria retribuir o que fizeram por mim e pela Clarice, mas naquele momento minha preocupação era outra e não tinha sequer cabeça para isso.

Exatos dois minutos depois, Ana Marta me enviou uma foto com os dados de Clarice seguido de uma mensagem de texto; “Você deveria ter esse tipo de informação da sua pequena.”

Eu não respondi.

Embora não tenha gostado de ter sido repreendida, ainda mais por não ser uma “mommy”, eu, de certa forma, era culpada pelo o que aconteceu. E querendo ou não, a Clara estar nessa situação foi por minha causa.

A recepcionista me acompanhou até onde estava Clarice para me mostrar o caminho e colocar uma pulseira de identificação em seu punho. Para meu alívio, sua aparência já estava muito melhor e ela já estava rindo com a enfermeira como se nada tivesse acontecido.

– Foi um susto e tanto que essa mocinha nos deu – uma enfermeira que estava na observação comentou. – Essas crises de asma são um desespero, né mãezinha?!

Demorei alguns longos segundos para perceber que ela me chamou de “mãezinha”. Por acaso eu tenho cara de velha o suficiente para ter uma filha desse tamanho? Eu hein

– Mas não se preocupa não, asma quando se cuida direitinho é bem tranquilo de lidar. Você vai ficar bem, né mocinha? – A enfermeira continuou sem me dar tempo de corrigir o engano e quando terminou foi logo saindo para dar atenção para outro paciente.

Me sentei na cadeira ao lado da cama onde Clarice estava deitada usando o nebulizador. Ela me deu um sorriso fraco e sapeca como quem acabou de aprontar e sabia disso. Eu respirei fundo engolindo a mistura de sentimentos; ao mesmo tempo que estava aliviada, também queria dar um cascudo nessa garota por ter omitido uma informação tão importante.

Só de imaginar que dependendo de onde ela passasse mal dentro do parque, Clarice poderia morrer sufocada. Se isso acontecesse eu nunca iria me perdoar. Não consigo mais imaginar um mundo sem esses olhos caixinha-de-surpresa que nunca se sabe qual o tom estará no dia… hoje estavam verdes, quase cristalinos.

– O que pensa que está fazendo, mocinha?! – Nosso silêncio foi interrompido pela tentativa de Clara de retirar a máscara do nebulizador. – Você vai deixar essa máscara no lugar. Tenta tirar de novo e eu vou passar uma fita adesiva no seu rosto.

– Nossa, mas que brava – provocou rindo.

– Não queira me testar, Clarice – a repreendi firme.

Clarice me encarou acreditando que estava blefando, ao perceber que não mudei minha expressão, ela se encolheu. – Sim, senhora… eu só queria te agradecer.

– Pode fazer isso sem tirar a máscara. E mesmo assim, não tem o que agradecer.

– Tem sim, você me salvou.

– E também te coloquei nessa situação. Por que não comentou sobre a sua asma antes? Você teve sorte hoje, mas isso poderia ter acabado muito mal.

– Eu sei, perdão… é que eu não tinha uma crise há tanto tempo… tinha até me esquecido.

– Se esqueceu?! Clarice eu quero matar você. Esse foi o pior susto da minha vida. Você poderia ter morrido.

– Foi mal.

Revirei o olho. – Você tirou esse final de semana para em enlouquecer ou testar meu coração,só pode.

– Eu não fiz por mal, desculpa.

Por mais que eu estivesse brava, muito brava, diante um olhar desse foi impossível manter a postura. Suspirei rendida e balancei a cabeça inconformada. Como era possível ela me levar ao mais alto nível de stress e paz em tão pouco tempo?

– Está tudo bem. E fique bem também, – acariciei seus cabelos loiros. – Eu quero te ver fora desse lugar.

Clarice olhou ao redor então me encarou outra vez. – Esse lugar é pago, não é?

– Não se preocupe com isso, – com a outra mão livre peguei a de Clarice e apertei de leve. – Eu quero que fique bem logo, então trate de melhorar, – levei sua mão até meu rosto e dei um beijo demorado. – Eu cuido do resto, d’accord?

O desconforto no rosto de Clarice era tão evidente que até eu percebi. Também não era a primeira vez que acontecia. Era nítido que ela não se sentia confortável com a situação. Não gostava quando eu pagava a conta e também não me pedia nada. Outra pessoa em seu lugar já teria me dado uma lista, já Clarice… podendo me pedir por uma casa, ainda prefere trabalhar em dois lugares para conseguir sozinha.

Ou será que ela de fato não cogitou essa possibilidade?

De qualquer forma, eu não queria piorar seu desconforto comigo. Meus presentes ao invés de lhe agradar, muito provavelmente apenas a afastaria de mim e eu não quero isso. Mas em hipótese alguma deixaria essa conta de hoje ser de sua responsabilidade. Para tudo há limites.

– Como está a nossa garota? – A Dra. Patrícia, a médica que estava responsável por Clara, entrou no quarto. – Que susto, hein?! Deixe-me ver como está agora. – A médica examinou Clarice. Observei tudo aflita e tensa, ainda com resquícios do trauma que foi toda a situação. – Bem, a saturação do oxigênio está normal e a respiração bem mais tranquila. Eu não vejo mais motivos para continuar te prendendo aqui na observação, – ela sorriu para nós. – Mas a senhorita irá precisar se cuidar em casa. A quanto tempo ela não tinha uma crise dessas, mãe?

Semicerrei os olhos. Eu realmente estou tão acabada assim?

– Ela não é a minha mãe, – Clarice respondeu. – Eu tenho 21 anos.

A dra. Patrícia arregalou os olhos surpresa. – Se fosse porta de balada eu teria que pedir a sua identidade, – brincou com bom humor. – E eu achando que você tinha uma mãe muito bem conservada.

Isso foi um elogio ou uma ofensa?

– Enfim, quando foi a sua última crise?

– Acho que há uns quatro anos. Algo assim.

– Certo, eu vou te receitar alguns medicamentos de controle para a asma e você trate de ir ao pneumologista o mais rápido possível para acompanhar de perto e reajustar o tratamento se for necessário. E nada de sair por aí sem o seu inalador de resgate, está me ouvindo? Asma é algo sério e precisa ser levada a sério. Eu já volto com as receitas.

A dra. Patrícia saiu e voltou com várias folhas de papel em mãos. Pedidos de exames, encaminhamento para especialista, receita de remédio contínuo, inalação para os próximos dias e inalador de resgaste para emergências. Ela foi me dando os papéis à medida que falava sobre cada um deles.

– Agora, além da asma, também preciso falar sobre a sua anemia e o déficit de algumas vitaminas que identificamos nos exames de sangue.

Encarei Clarice que me olhou de volta tão surpresa quanto eu.

– Para tratar a anemia, vou te prescrever um suplemento de ferro, que deve ser tomado diariamente, de preferência junto com uma fonte de vitamina C, como um suco de laranja, para ajudar na absorção.

E eu pensei que tínhamos acabado por aí, mas não. Para o meu desespero, a Dra. Patrícia continuou;

– Você também está com níveis baixos de vitamina B12 e ácido fólico, o que pode contribuir para a anemia. Vou incluir suplementos dessas vitaminas na sua prescrição. É importante que você tome conforme indicado e, se possível, aumente o consumo de alimentos ricos em ferro, como carnes magras, espinafre e feijão, além de alimentos ricos em B12, como ovos e laticínios. Ficou alguma dúvida, Clarice?

– Não, doutora. Tudo certo.

– Ótimo. Você está pronta para ir para casa, mas lembre-se de que o cuidado continua. Eu não quero voltar a te ver aqui.

– Aqui eu não volto não, doutora. Pode deixar!

Saímos do pronto atendimento e pegamos um táxi para voltar até o estacionamento onde estava meu carro. Depois do susto de hoje eu nem sei se quero Clarice fazendo nenhum esforço físico sequer, nem mesmo caminhar.

– Vamos fazer nosso piquenique? Estou com fome. – Clarice perguntou casualmente.

– Piquenique?! Pas putain, Clarice (nem fodendo, Clarice). Eu vou te levar para casa e você vai comer arroz e feijão.

– Mas eu não quero arroz e feijão.

– E eu não perguntei se você quer. É uma ordem e você vai me obedecer. Não ouse me desafiar.

Sabendo que argumentar não surtiria efeito nenhum, Clarice apenas aceitou e entrou no carro sem reclamar. Atitude sensata de sua parte. Eu realmente não estava com humor para uma discussão quando se tem saúde envolvida.

Eu que achei que o trabalho seria a maior causa dos meus fios de cabelo branco,agora tenho Clarice para competir por esse podium.

«-»

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