Elora Aneva

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07. J’ai démissionné

« C L A R I C E »

A tensão dominava o meu corpo. Infelizmente não era possível evitar o inevitável por muito tempo. Mais cedo ou mais tarde eu teria que encarar a Valq… a francesa outra vez. E eu não estava nada afim de fazer isso agora.

Não era como se eu estivesse de coração partido e sofrendo de amor. Eu só… me sentia humilhada (?). Não consigo aceitar que as minhas melhores memórias sexuais agora são com uma mulher que, em outras palavras, tem nojo de mim.

“Eu não sei ser lésbica”, mas sabe ser babaca muito bem. Que ódio… era só dizer que não queria que aquilo se repetisse ou que alguém soubesse. Só isso… mas não, a escrotidão foi tanta que precisava humilhar.

Eu estava tão revoltada que minha dor física era frequentemente esquecida até eu fazer um movimento que doía. O que era raro, mas acontecia com frequência.

Pegar condução nunca foi tão difícil. Se não bastasse a francesa, a vida também fazia questão de me humilhar.

Um dipirona e paz, era só o que eu queria.

Para a minha felicidade, a sala estava vazia. Letícia, Amanda e Mateus provavelmente saíram para almoçar mais tarde e não haviam voltado ainda. A outra lá não me interessa e não queria saber também.

Agora só faltava meu dipirona e eu seria uma pessoa completa e feliz…

– Você não está bem?

Já dizia vovó; não pense no diabo que ele aparece.

O mesmo servia para a francesa. Não tinha sequer vestígios da sua presença por perto e ela simplesmente brotou na sala justamente no momento em que fui tomar o meu remédio.

Me virei para ela lentamente. Primeiro, que mover rápido demais me doía. Segundo, que eu não queria conversar no momento. Terceiro, que estava particularmente a evitando.

– Você foi ao médico?

– Eu estou bem. É só uma dorzinha, já vai passar.

Valquíria me encarou, desviou o olhar, respirou fundo, me encarou de novo. – D’accord.

Era nítido que ela queria falar alguma coisa, mas não sabia como começar. E bem, eu não estava afim de ouvir, então apenas me virei de frente para o computador e comecei a trabalhar.

E ela não saiu dali.

E cara, que ódio. Eu queria simplesmente ignorar e seguir a minha vida, mas a presença dela me incomodava. Vai embora, vai embora, vai embora!!!

– Nós podemos conversar sobre o que aconteceu? – Ela finalmente teve coragem de falar algo.

– Mais? – Ela fez uma careta confusa. – Foi um erro. Não deveria ter acontecido. Fingimos que nada aconteceu e o problema está resolvido. Aliás, não era essa a regra daquela noite? Ninguém ficará sabendo, não se preocupe.

– Ce n’est pas de ça que je suis inquiète, – ela murmurou para si própria. – Je… – ela respirou fundo. – Eu quero… uh… me explicar.

Minha senhora?! Se explicar??? E tem outra explicação?

– Você não precisa se explicar. Eu sou só sua estagiária, você não deve satisfações a mim…

– Mas eu quero, – ela respondeu de imediato. Quase soando desesperada e por uma fração de segundo pareceu genuinamente arrependida… mas essa fração de segundo passou rápido demais.

– Bem, nesse caso… sou eu quem não está afim de ouvir. Você pode se explicar para o espelho se vai te fazer sentir melhor, você tem um enorme no seu banheiro.

E como eu sei disso? Porque nós também transamos lá… que ódio!

Acho que nem Valquíria esperava por essa resposta e ficou alguns segundos sem reação até ouvir as vozes dos outros três vindo.

Se ela não gostou, ela que me demita. Tô nem aí também não. Clarice do futuro que lide com isso porque a do presente não poderia se importar menos.

– Aí gente, que clima é esse aqui? – Letícia comentou.

– Estamos interrompendo algo? – Mateus perguntou. – Se você liberar podemos tirar outras meia hora de almoço sem problemas.

– Nossa, sim. Com maior prazer.

– Podemos?

– Non.

– Está tudo bem aqui?

– Oui, Mateus. Comme tu peux le voir, tout va bien ici.

E sem dizer mais nada, ela saiu brava. Muito provavelmente se sentindo contrariada. Se bobear nunca deve ter ouvido um não na vida e esperava que eu fosse lamber o chão para ela passar… só se for para escorregar na minha saliva!

Você está oficialmente fora do meu pódio de mulheres mais gatas, gostosas, lindas e cheirosas, Valquíria.

– Ó, eu conheço a diva e isso aí é mau humor. O que você fez, Clarice? Ou melhor, o que você deixou de fazer? – Mateus me encarou com as mãos na cintura.

– Eu?! Nada.

– Sei…

– Mateus para de pegar no pé da menina, – Amanda lançou um olhar repreendedor para ele e veio em minha direção. – Fica tranquila, tá? Não tem nada não. E mesmo se tivesse, não existe cagada que um estagiário possa fazer que a gente não seja capaz de consertar.

– Depende, também não exagera. Vai que ela leva isso como um desafio e tenta nos surpreender.

– Você não faria isso, né Clarice?

Sorri sapeca.

– Por Deus, Clarice. Não ouse.

Eu já ousei.

A cagada que eu fiz ninguém irá poder limpar.

Exatamente às 17h eu estava de pé para ir embora. Não queria correr riscos de ser abordada pela minha chefe. Hora de ir embora era hora de ir embora.

Devido a dor e a vontade de sumir, eu me dei ao luxo de pedir um carro para casa. Tinha tantas coisas para fazer da faculdade que o tempo extra chegando mais cedo me seria bastante útil.

Enquanto aguardava o motorista, fiquei trocando umas mensagens no celular e vendo atualizações da vida alheia. Estava tão distraída na minha que, quando o carro parou à minha frente eu estava quase me movendo achando que era o Uber.

E adivinhem só… não era.

– Clarice, entre no carro. Eu vou te levar para casa.

Olhei rapidamente a hora em meu celular e fiquei confusa. Desde quando Valquíria é pontual para ir embora?

Felizmente, logo atrás do carro de Valquíria, chegou o carro que eu estava esperando de fato. Era até engraçado, na frente um Mercedes-Benz GLC 63 AMG e atrás um Fiat Mobi, ambos aguardando por mim.

– Meu Uber já chegou, não precisa.

E era óbvio que eu fui de Fiat Mobi.

Seja lá qual será a sua explicação, eu realmente não estava afim de ouvir. E eu realmente não me importava. Eu não vou ficar alugando meu ouvido para héteros, eu tenho mais o que fazer. Eu hein…

Cheguei em casa cedo na expectativa de fazer minhas coisas da faculdade e me deparei com uma realidade caótica e nojenta. Meu pai, que passou o domingo desaparecido, resolveu dar o ar de sua graça e adivinhem só quem provavelmente passou todas essas horas enchendo o furico de cachaça? Exatamente.

Não sabia o que era mais lastimável de toda a cena; se era o fato do meu pai estar caído no chão sobre o próprio vômito e xixi ou se era toda a sujeira que ele causou.

Definitivamente a sujeira na casa… por mim ele poderia explodir e eu não iria sentir falta.

– Pai? – O cutuquei com a ponta do pé. – Você está vivo?!

Bastou o cutucar outra vez para o homem se virar de barriga para cima resmungando.

– Sai desse chão. Vai tomar um banho. Você está fedido.

– Minha filha!

Meu pai pegou em meus braços para usar de apoio para se colocar de pé e eu quis matar esse homem. A força que fui obrigada a fazer para não cair sobre ele e o chão imundo me causou uma forte dor na costela. E se não bastasse isso, ao se levantar ele ainda veio para cima de mim para me abraçar.

Se limpo, eu já não quero abraçar esse homem. Sujo menos ainda!

– Me perdoa, minha filha! Eu sei que sou um ser humano horrível, mas eu vou mudar. Me perdoa. Eu não quis te machucar.

E mais uma vez o papo do “vou mudar” e nunca muda. Eu já perdi as contas de quantas vezes ouvi essa… antigamente eu até acreditava, eu realmente já quis que o meu pai de quando a minha mãe era viva voltasse, mas hoje não mais.

Desse homem eu só quero distância.

– Ok, Luís. Vai tomar o seu banho. Você está fedido e todo sujo.

– Você perdoa o pai, filha? Você vai me perdoar?

– Uhum, agora vai tomar banho!

Arrastar esse homem para o chuveiro não foi uma tarefa fácil. Já não era quando eu estava inteira, com dor foi mais difícil ainda.

Eu o deixei se virando sozinho no banheiro e fui lidar com a zona que estava a sala e a cozinha. Se eu não limpasse isso, ele não iria limpar e eu não iria querer ficar no chiqueiro.

E era isso, enquanto o bobão foi tomar banho e dormir, eu fiquei a noite toda limpando sua sujeira. Quando terminei, quem estava exausta era eu e a única coisa que fui capaz de fazer era tomar banho, me entupir de remédios para dor e dormir.

A cada dia que passava eu só conseguia odiar ainda mais esse homem e querer ir para longe daqui.

No dia seguinte eu quis morrer a ter que ir para a faculdade. Era um mix de dor, sono e preguiça me implorando para ficar mais algumas horas em casa. E eu confesso que até cogitei essa possibilidade.

Mas eu que não sou doida de fazer isso com o traste em casa para ele me arrancar o couro. Eu provavelmente sou a única universitária desse país que tem praticamente 100% de presença enquanto meus colegas estão sempre calculando quantas faltas podem ter sem serem reprovados.

De soneca em soneca, eu acabei me atrasando e precisei sair às pressas. Só deu tempo do famigerado banho para acordar e vestir roupa. O café da manhã foi mini “pães de queijo” que parecem com tudo, menos pão de queijo, e um suquinho de caixinha.

O meu luxo de pobre é pegar o ônibus metropolitano cuja a passagem é mais cara, mas que vai direto para a FAU e eu posso dormir por 1h30min bem linda e plena. Bastou fechar os olhos para dormir que me dei conta de uma coisa… esse mesmo ônibus passa pertinho da casa da Valquíria, literalmente na quadra de trás.

E agora sem querer, eu já sabia três rotas alternativas para a casa da mulher que eu não queria ver nem pintada de ouro… mas que a vida já tinha reservado um horário na nossa agenda em algumas horas.

Minhas aulas acabavam às 12h e eu tinha exatos 3 minutos para chegar ao ponto para chegar no trabalho às 12:49 e começar a trabalhar às 13h. Caso contrário, a próxima opção eram 12:18 e chegava bem em cima da hora às 12:59. E aí você me pergunta, “e você almoça que horas, Clarice?” e eu respondo: não almoço.

Só que hoje eu estava morrendo de fome por não ter jantado ontem a noite e nem tomado um café da manhã decente. Ou seja, eu precisava comer. E o que tinha na frente do meu trabalho que fazia comida rápida e eu podia pedir do meu celular e só retirar quando chegar? Mc Donald’s.

Eu estava me sentindo uma gênia por ter feito isso e ainda chegado a tempo no trabalho. Estava feliz comendo meu hamburguinho e tomando minha coquinha gelada enquanto trabalhava… mas sabe quem não ficou nada feliz? Valkyrie Touchon.

Juro por deus que até esqueci de mastigar antes de engolir quando ela chegou – dez minutos atrasada porque ela pode, – e lançou um olhar fatal para mim e meu lanchinho. Só olhou também, porque não falou nada… continuou andando para a sua sala.

O povo aqui está sempre comendo enquanto trabalha. O próprio Theo todos os dias às 15h fala que está afim de um docinho… e a própria Valquíria vira e mexe está comendo suas frutas. Então eu realmente não entendi o olhar… será que ela me odeia? Bem, eu não tô nem aí. Problema é dela.

Não deu dois minutos o telefone na minha mesa começou a tocar. Mateus só levantou o olhar para o telefone e então para mim, em seguida desviou para a sala da Valquíria.

– Boa sorte, – ele disse.

Atendi ainda com esperanças de ser a recepção ou algo do tipo, mas seria sorte demais.

– Clarice, venha a minha sala.

Respirei fundo e desliguei.

Com pesar no coração, levantei e senti que arrastava 50kg nas pernas enquanto caminhava. Bati na porta com dois toques e fui abrindo.

Eu não tinha prestado atenção antes e agora que o fiz queria furar meus olhos de raiva. O look do dia era simplesmente roupa de gostosa e ela estava realmente muito gostosa de saia alta justa. Meu deus, como eu gostaria de desver isso.

– Você me chamou.

– Oui, asseyez-vous, s’il vous plaît – ela apontou para a poltrona em frente a sua mesa e eu deduzi que estava me mandando sentar.

Uma coisa era certa; falou francês, coisa boa não era.

Era muito fácil ler a Valquíria e eu aprendi bastante com a minha equipe. Seu maior indicativo de humor está no linguajar. Se está tranquila e feliz: fala português. Está ficando nervosa ou brava: mistura as duas línguas. Está definitivamente brava, irritada ou qualquer outro cenário que devemos evitar: fala francês.

Ah, e quando está muito tesão ou gozando, ela também fala francês… mas essa informação é irrelevante.

– E então… sobre o que quer conversar?

– Eu notei que estava comendo fast food em sua mesa de trabalho. Você sabe que não deveria fazer isso, não sabe?

– Foi mal, eu achei que não teria problema já que a gente sempre come por aqui. É muito corrido sair da faculdade e vir para cá, e nem sempre dá para comer algo.

– E por que você pediu logo um fast food?

Fiz uma careta confusa. – Que?!

– Essa comida não é saudável, Clarice. Você precisa comer comida de verdade, arroz, feijão, salada e não essas porcarias ultraprocessadas.

– Espera aí, você está reclamando sobre eu comer no ambiente de trabalho ou a minha escolha de comida? Não entendi.

– Por que eu reclamaria sobre você comer no ambiente de trabalho? Somos seres humanos e temos necessidades fisiológicas. Inclusive, nós podemos muito bem reajustar seu horário de trabalho para que tenha tempo de comer. Ou você pode simplesmente me comunicar; “Valkyrie, eu não tive tempo de almoçar hoje, posso tirar um tempo para almoçar?”. Eu não vou te impedir.

Ela falando o próprio nome com sotaque é tão fofo. E o “trabalhô” com biquinho no final… aí meu deus. Não dá para levar a sério um sotaque desses.

Mas eu sinceramente não entendi o porquê dela estar tão revoltada. Ela deveria estar brava por eu comer na minha mesa e não por ter comido um méqui. É mó bom, poxa… e mesmo que não fosse bom, ela não tem que falar nada, quem está comendo sou eu, oras.

– Tudo bem, eu “comunico” na próxima…

Valquíria me encarou por um momento. – É sempre assim?

– Assim como?

– Uma correria que não te dá tempo para comer.

– Ah, sim… eu demoro uns 40, 50min para chegar aqui de ônibus da FAU.

– Você precisa de um carro.

Eu fiquei tão sem reação que balbuciei algumas palavras e não formei frase nenhuma. Será que ela acha que é só ir na concessionária como se fosse ir a padaria pegar um pão?

– Certo, se isso é tudo, – eu me coloquei de pé, – eu vou voltar a trabalhar.

– Espera.

Eu só parei para a ouvir porque aqui eu não tinha escolha. Ela ainda é a minha chefe.

– Nós ainda temos uma pendência para tratar.

– Sobre trabalho?

– Não.

– Então nós não temos pendências.

Ela não poderia me obrigar a ouvir o que tem a dizer só porque é a minha chefe. Se ela achou que isso iria acontecer, então ela estava bem enganada.

E essa praticamente foi a nossa semana inteirinha.

Valquíria tentou me abordar em diferentes ocasiões e todas elas foi ignorada com sucesso. Sinceramente achei que fosse largar do meu pé na terceira tentativa frustrada, mas realmente ela não sabia ouvir um não e não o aceitava.

Para o azar dela, eu estava determinada a não ceder. Ela poderia ter tudo na vida em um estalar de dedos, menos o meu tempo e atenção. Os meus ouvidos ela não aluga.

E por mais que eu estivesse disposta a ignorá-la, eu infelizmente não podia evitá-la.

Como de praxe, sábado eu fui trabalhar de tarde no Apex. Meio dia às cinco. Horário tranquilo, fácil e normalmente vazio. Eu nunca andei por todo o espaço do club, mas me disseram que era enorme e se estendia por toda área verde que aparecia no maps que não era nada pequena.

Havia mais de uma entrada, a qual eu desconhecia. E essa era a razão pela qual onde eu ficava era tão vazio fora ocasiões especiais. A maioria das pessoas estavam lá do outro lado onde era considerado uma área “neutra” da sociedade.

Normalmente vinham para cá nessa hora quem queria paz, tranquilidade… ou infernizar a vida alheia.

Quando a francesa deu as caras por aqui, eu tive certeza que eu teria tudo, menos paz.

Com um vestido de tricô branco que tinha apenas a função de ser elegante e sensual, afinal, com o tecido leve e arejado como aquele, não se cobria absolutamente nada, Valquíria estava deslumbrante. Com alças finas, a silhueta ajustada e um decote em V, a peça abraçava o corpo da francesa destacando suas curvas.

Ela estava de morrer e era óbvio que o biquíni branco que usava por baixo do vestido seria ainda pior. Tudo nela me chamava atenção, até braceletes e brincos de ouro, o colar então… parecia um convite para olhar entre seus seios.

Que ela veio com a intenção de me provocar, isso era óbvio para nós duas. Porém, as minhas expectativas eram que ela faria isso de longe ou, no mínimo, fingiria que essa não era a sua intenção. Mas convenhamos, era da Valkyrie Touchon que estávamos falando.

Sem um pingo de vergonha na cara, ela desfilou em minha direção até o bar. Tirou os óculos e sorriu para mim.

– Bonjour, Clarice.

Bonjour é o baralho!

Não respondi para não perder meu emprego aqui também, já que estava a um fio de perder meu estágio.

– Você ainda quer me evitar? – Ela perguntou depois do meu silêncio. – Alors… tu peux ne pas vouloir m’écouter, mais tu ne peux pas éviter de me regarder.

Com uma voz rouca e sensual, Valquíria me lançou essa diante dos meus olhos. Se eu entendi alguma coisa? Necas de pitibiriba, mas soou sexy e eu me segurei muito para não largar o copo qu estava polindo para puxar essa mulher pela nuca e a beijar.

Valquíria saiu e foi para a piscina. E nesse momento a minha sessão de tortura se início e eu entrei em puro dessespero.

– Ela disse que você pode até não querer a ouvir, mas não vai conseguir evitar a olhar… – Otávio que estava por perto comentou. – É… eu acho que alguém vai ter uma tarde difícil hoje.

Realmente… a filha da xuxa tinha razão.

Eu juro que tentei manter minha mente ocupada, preparando drinks e limpando o balcão, por sorte o calor trouxe mais pessoas e movimento para me distrair. Valquíria estava deitada em uma espreguiçadeira, tomando banho de sol, exibindo-se de forma quase provocativa. Cada vez que ela se mexia, eu sentia meus olhos sendo atraídos involuntariamente para ela.

Ela percebia.

A vaca sempre percebia.

Cada vez que nossos olhares se cruzavam, ela me encarava de volta, com um sorrisinho presunçoso nos lábios que me dava ódio. Era como se estivesse se divertindo com meu desconforto. Meus dedos apertavam o pano de limpeza com raiva, a vontade de jogar tudo para o alto e ir embora crescendo dentro de mim.

Eu só queria que ela fosse embora, que me deixasse em paz. Mas mesmo tentando evitá-la, não conseguia resistir a olhar para ela. Era como uma maldição.

– Clarice, você pode fazer mais uma margarita? – A voz de Otávio me trouxe de volta à realidade, e eu respirei fundo, forçando um sorriso enquanto começava a preparar a bebida. – Você está realmente brava com a sua mommy.

O encarei séria. – Ela não é a minha mommy.

– Olha, olha o que está falando, mocinha – Otávio me repreendeu. – Vocês pequenos tem suas emoções a flor da pele e acabam fazendo coisas que vão se arrepender depois. Você pode estar brava com a sua mommy agora, mas depois será bem pior sem ela. Então se aquiete.

– Eu não sou nada disso aí que está pensando que sou.

– Uhum, sei.

– Estou falando sério. Eu não sei de onde vocês tiraram esse absurdo, – servi a margarita sobre o balcão. – Vai. Vai servir isso logo.

Observei a francesa de relance mais uma vez.

O calor do sol e a tensão da presença de Valquíria estavam me consumindo, mas eu precisava manter a calma, precisava manter a compostura. Mesmo que dentro de mim, tudo estivesse em chamas e as lembranças da noite proíbida viessem à tona para me tirar do sério.

A solução para não surtar foi desenhar. Por sorte, encontrei lápis, borracha e uns papéis que estavam aí desde a tarde dos pequenos. Concentrada em meu desenho eu conseguia ignorar Valquíria e suas provocações.

Bastou um risco no papel para eu me deixar levar. Aos poucos meus traços foram tormando forma e curvas. Estava desenhando sem rumo e quando dei por mim, havia desenhado o que não saia da minha mente… maldita francesa!

Amassei a folha brava e comecei do zero, tentando forcar em algo mais neutro. No entanto, meus pensamento sestavam inquietos, e a imagem dela voltou a surgir no papel, quase como uma maldição inevitável. Cada linha parecia trazer à tona uma memória, uma emoção, uma dor…

Eu estava perdida nos meus pensamentos quando senti alguém se aproximar do bar. Levantei os olhos e vi uma mulher sorrindo para mim. Ela era loira, de olhos verdes e usava um biquíni vermelho que realçava sua pele bronzeada. A cliente tinha um olhar curioso e um sorriso que transmitia uma mistura de interesse e charme.

– Você desenha muito bem, – ela disse, inclinando-se sobre o balcão para olhar o meu esboço. – É realmente talentosa.

– Ah, obrigada, – respondi, tentando esconder meu desconforto. Amassei o papel rapidamente, mas ela já tinha visto o suficiente.

– Não precisa amassar, – ela continuou, pegando a folha amassada da minha mão com um sorriso travesso. – Quem é a modelo? Uma musa secreta, talvez? Ou sua mommy…

Senti meu rosto esquentar. – Não é nada, só um esboço sem importância, – respondi, tentando desviar o assunto. – Posso te servir alguma coisa?

Ela riu suavemente, seu olhar nunca deixando o meu. – Eu aceito uma piña colada, – ela disse, ainda sorrindo. – E, se não for pedir muito, talvez mais um pouco do seu tempo.

Comecei a preparar a bebida, sentindo seu olhar fixo em mim e isso estava me deixando nervosa e atrapalhada. – Então, além de desenhar e fazer drinks incríveis, o que mais você faz? – ela perguntou, claramente flertando e eu fiquei sem saber como reagir.

Ela era gata, provavelmente se fosse em qualquer outra ocasião eu ficaria bem contente em corresponder. Mas, no momento e nesse local, essa mulher só me parecia uma bela dor de cabeça para minha vida. E honestamente, eu já tinha dor de cabeça o suficiente.

– Eu… faço arquitetura, – respondi, tentando manter a profissionalismo. – E você, está gostando de relaxar na piscina hoje?

– Sim, está sendo uma experiência maravilhosa, – ela disse, piscando para mim. – Mas acho que acabou de ficar ainda melhor.

Entreguei a piña colada, tentando esconder meu sorriso tímido. – Espero que goste, – falei, observando-a pegar o copo.

– Tenho certeza que vou, – ela disse, levantando o copo em um brinde antes de dar um gole de piña colada, ainda me observando com aquele olhar penetrante. – Então, como é o seu nome? – Ela perguntou, se inclinando um pouco mais para perto de mim.

A aproximação estava começando a me causar certo desconforto. – Clarice, – respondi, tentando manter a minha voz firme sem gaguejar. – E o seu?

– Claudia, – ela disse com um sorriso encantador. – Prazer em conhecê-la, Clarice.

– Prazer, – respondi tentando ignorar o calor que subia para o meu rosto.

Continuei a arrumar as bebidas no balcão e limpar, tentando parecer ocupada. Talvez assim ela percebesse que não estava afim de papo e fosse embora, mas aparentemente as pessoas aqui não tinham desconfiometro.

– E você, Clarice, está desacompanhada? Sua mommy está por perto? Ou você não tem uma ainda? – Claudia perguntou casualmente, mas com um bilho nos olhos que indicava seu verdadeiro interesse.

Mais uma na lista para achar que eu sou esse tal de little. Eu não entendo de onde tiram isso da cabeça. Por que não me veem só como a merda de uma bartender que é justamente o que eu sou aqui?! A Glória eles não chamam de pequena e ela é só 3cm mais alta que eu!

Antes que eu pudesse responder, senti uma presença familiar se aproximando e um perfume que conhecia muito bem pairar no ar. Valquíria, com a sua postura altiva e expressão possessiva, apareceu ao lado de Claudia. Seus olhos, cheios de ciúme e determinação, estavam fixos em mim.

Encolhi os ombros como se fosse eu quem estivesse fazendo algo errado. Seu olhar me causou medo e ao mesmo tempo me deram vontade de correr para seus braços, a abraçar e pedir desculpas. Desculpas por algo que eu sequer fiz.

– Clarice está muito ocupada para conversas triviais, – Valquíria disse, sua voz fria como gelo e o sotaque francês ainda mais carregado. – E, caso esteja curiosa, Claudia, ela não está disponível.

Claudia arqueou a sobrancelha, claramente se divertindo com a situação. – Valquíra… sempre tão direta, eu já entendi tudo – ela sorriu de forma provocadora. – Mas eu estava apenas conversando. Nada de mais… ninguém irá morder a sua pequena. Não se preocupe.

Valquíria deu um passo à frente, seu olhar fixo em Claudia. Por um momento temi que fosse dar mais um de seus socos certeiros. Era só o que me faltava baixaria no meu bar…

– Eu conheço muito bem suas intenções, Claudia. E garanto que não vou permitir que se aproveite dela.

– Valquíria, por favor – murmurei, tentando manter a calma e impedir uma possível agressão. – Não precisa disso.

– Precisa sim, Clarice – Valquíra respondeu, sem desviar o olhar de Claudia. – Não vou deixar que ela te enrole.

Claudia riu suavemente, levantando as mãos em um gesto de rendição. – Calma, Valquíria. Só estou admirando o talento da Clarice, – Claudia exibiu o meu desenho amassado.

– Admira de longe, – Valquíria respondeu firme e tomou o papel da mão de Claudia.

Eu podia sentir a tensão no ar, quase palpável. Queria fugir dali, mas minhas pernas pareciam coladas ao chão. – Tudo bem, gente. Está tudo bem, – tentei apaziguar, mas Valquíria não se moveu.

Claudia deu um passo para trás, ainda sorrindo. – Tudo bem, eu entendi. Mas saiba, Clarice, que se precisar de uma amiga, ou uma nova mommy… – ela falou com lábios para que Valquíria não a ouvisse, – estou aqui – ela retirou da capinha do celular um cartão de contato e estendeu em minha direção.

Era capaz do cartão se desfazer no ar sob o olhar furioso da francesa. Confesso que tive medo de pegar e eu me desintegrar diante o seu olhar. Felizmente nada aconteceu.

– Obrigada, – respondi sem graça.

Claudia ainda piscou para mim e sorriu provocativa para Valquíria. Com isso, ela se afastou, sua figura elegante se misturando com as outras pessoas ao redor da piscina. Valquíria continuou ali, os olhos ainda fixos em Claudia até que ela desaparecesse de vista.

Para a minha felicidade, Glória chegou no mesmo instante que Claudia saiu e isso significava que eu poderia ir embora. Nem pensei duas vezes antes de juntar as minhas coisas para meter o pé dali e me livrar dessa mulher.

Minha amiga nem questionou o motivo de eu sair quase fugindo. Ela percebeu o clima tenso no ar e apenas me deu um tchau tímido.

E eu achando que ao sair do bar me livraria de Valquíria, tive meus planos frustrados ao perceber que ela me seguia.

– Você não tem mais nada que fazer além de me perturbar? – Perguntei furiosa sem diminuir um passo.

– Nós precisamos conversar, Clarice.

– Eu não tenho nada para falar com você, Valquíria.

– Mas eu tenho.

– O problema é seu.

De repente, senti o meu braço ser puxado para trás me forçando encarar Valquíria no olhos. Essa aproximidade me deixava desconcertada. Um mix de sentimentos, uma vontade de fugir e a agarrar ao mesmo tempo.

Acabei ignorando meu coração e ouvindo a razão. Me soltei de sua mão e retomei a postura.

– Você não precisava fazer o que fez lá dentro, – murmurei para Valquíria, tentando conter minha raiva. – Além de feio, ainda causou impressão errada sobre nós.

Quem ela pensa que é para agir assim? E se eu estivesse interessada na Claudia? Ela teria ferrado o meu esquema.

– Precisava sim, – ela respondeu, firme ainda brava com a situação. – Claudia não presta. Eu jamais deixaria que alguém como ela se aproxime de você.

– Isso não é da sua conta, – rebati, sentindo a frustração crescer dentro de mim.

– Eu me importo com você, Clarice, – Valquíria disse, sua voz suavizando um pouco. – Mesmo que você não acredite.

– Ah, pronto… me poupe, Valquíria. Você não sabe o que está falando.

– Por que diz isso?

– Você só está atrás de mim porque não suporta ser rejeitada. Você, que nunca ouviu um ‘não’ na vida, não sabe lidar com isso e agora quer que eu volte atrás na minha fala.

Ela abriu a boca para responder, mas eu conitnuei, a raiva transbordando. – Você acha que pode ter tudo o que quer, não é? Mas eu não serei seu passatempo para matar sua curiosidade com mulheres e depois descartar.

– Clarice, ce n’est pas… não é bem assim, – ela começou, tentando se explicar, mas eu a interrompi novamente.

– É exatamente assim, – eu disse, a voz tremendo de raiva. – Você não está realmente interessada em mim como pessoa. Você só quer um passatempo, algo para preencher seu ego. Você não se importa comigo de verdade, só não suporta que eu tenha te dito não e não queira te ouvir. Mas depois que conseguir o que quer, todo esse interesse vai passar.

Valquíria deu um passo para trás, parecendo genuinamente ferida por minhas palavras, mas eu não me deixei abalar. – Você é uma mulher hétero, Valquíria. Não me venha com essa de que está arrependida e que se importa. Você só quer o que não pode ter.

Ela respirou fundo, tentando manter a compostura. – Clarice, você está sendo injusta. Eu errei ao dizer o que disse, sim, mas se você me permitir me explicar irá me entender. Eu… eu realmente me importo com você e estou arrependida do que disse. Eu estava errada em todas as palavras.

Suspirei, sem saber o que dizer. A raiva e a confusão dentro de mim eram intensas. – Valquíria, eu só quero paz. Me deixa em paz.

– Clarice, s’il te plâit… permets-moi de t’inviter à dîner ce soir, – a encarei confusa. – Me deixe te convidar para um jantar essa noite… qualquer lugar que quiser, eu pago. Só vamos conversar… civilizadamente.

– Eu sei muito bem como essa conversa irá acabar… eu não sou seu guardanapo não, Valquíria. Não pense que irá me usar quando precisar e depois descartar como quiser. Eu hein…

Valquíria, percebendo como soou, fez uma careta surpresa. – Não, não era isso… – ela suspirou. – Posso te levar para casa? Nós conversamos no caminho.

– Nem pensar… minha tia está de folga hoje e a última coisa que eu quero é que ela e a vizinha fofoqueira amiga dela me vejam saindo de um carro como o seu… olha… – encarei o céu pensativa, respirei fundo, sentindo um nó na garganta. – Eu te perdoo, Valquíria – admiti finalmente. – O que você disse foi um tanto desnecessário e babaca da sua parte, mas você não é uma má pessoa… então eu te perdoo, mas eu prefiro limitar nosso relacionamento ao escritório.

Ela engoliu em seco, os olhos buscando desesperadamente nos meus alguma esperança. – Então… o que você quer dizer com isso?

– Significa que eu te perdoo por tudo que disse, – expliquei, escolhendo minhas palavras com cuidado. – Mas eu não quero que me procure mais ou que interfira na minha vida fora da Visionnare. Você só é a minha chefe e eu sua estagiária. Nada mais que isso.

Valquíria pareceu atordoa por um momento, então recuperou a compostura. – Mas… eu não quero que seja assim. Eu não posso simplesmente aceitar isso – ela pegou a minha mão. – Eu gosto de você. Mais do que isso, eu acho que me apaixonei por você. Você não sai da minha cabeça, Clarice. Isso não pode ser normal… eu nunca me senti assim antes.

Fiquei sem palavras, surpresa pela confissão dela. – Valquíria, eu… não sei o que dizer, – murmurei, tentando processar suas palavras. Eu não poderia me deixar iludir por suas palavras e respirei fundo. – Você só está confusa… logo mais irá perceber que ainda prefere homens. Isso vai passar… agora eu realmente preciso ir. Até segunda, Valquíria.

– Clarice, espera!

Eu não esperei.

Eu não podia esperar mais um minuto sequer perto dela. Não depois de tudo o que eu ouvi. Muito menos com o coração disparado e confuso.

Eu precisava de tempo e espaço.

E por isso eu fugi.

«-»

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