CLARICE
Como é possível uma sequência de merda tão grande acontecer em um intervalo tão curto de tempo?
Tudo que eu queria essa noite era passar por despercebida durante a cerimônia de premiação e ir embora para casa na primeira oportunidade. O que aconteceu foi justamente o oposto.
Por algum motivo as pessoas que sequer conversavam comigo no dia-a-dia me queriam por perto e insistiam em me inserir na conversa ou grupinhos que eu não estava afim. E para piorar, toda vez que finalmente conseguia dar um perdido neles, acabava me deparando com a francesa que tinha a sensação de estar em todos os lugares.
Eu não tinha nada contra a francesa, mas também não tinha nada a favor. Para ser honesta, dela eu queria distância. Não que fosse uma pessoa ruim. Ao menos não comigo. Mas sua presença me deixa nervosa e bem… seu perfume, curvas e sotaque eram uma combinação nada legal para mim.
E não, desde que entrei nessa empresa há quase um ano e meio, eu não me reconhecia mais.
Nunca tive problemas de “criar vida” em momentos inapropriados. Na verdade, eu tinha dificuldades em “criar vida” até quando queria, mas desde que comecei esse trabalho venho sofrendo com esses incidentes nada agradáveis.
Até então eu achava que, por mais que eu tenha um “P” entre as pernas, esse era mais um fato que me diferenciava dos garotos. Eu nunca tinha tido um problema de estar dura do nada ou só de olhar para alguém. Hoje em dia já não posso dizer o mesmo e eu acho que a culpa é justamente da chefe da minha chefe.
Ou chefe da chefe da minha chefe? Enfim, não sei… a francesa.
Ela… ela tem um perfume que anuncia a sua chegada antes mesmo dela chegar. E eu não estou falando de uma fragrância específica. É como se fosse ela e talvez a pele dela, ou sei lá. Aposto que até um perfume Jequiti teria o seu apelo se estivesse nela.
E bem, tem a parte dela estar sempre lindíssima e ser muito linda. Uma Gisele Bündchende cabelos e olhos castanhos e com curvas mais acentuadas. Não tem um único ser vivo naquele escritório que não vira para a ver passar e eu não seria diferente. O problema é que entre achar alguém em outro nível de beleza e ficar dura perto dela, existe um abismo de diferença e uma dor de cabeça também.
Então sim, eu estava desconfortável durante o jantar. Achei que sentar do lado oposto fosse melhor que me sentar ao seu lado, porém ficou ainda mais difícil não a ver e a ignorar estando bem a minha frente.
Fora a comida que estava péssima. Eu não sei porque tem gente rica gosta de complicar tanto pratos simples e deixar simplesmente intragável. Não comi nem a metade daquilo e o pouco que comi foi necessário beber muita água, refrigerante e qualquer outra coisa que me ajudasse a descer.
O resultado disso que não foi nada bom.
Eu tentei. Eu juro que tentei ao menos umas sete vezes ir ao banheiro a tempo, mas por algum acaso do destino, todo mundo decidiu que esse era o momento para falar comigo ou requisitar a minha presença. Para no final, depois de vários longíssimos minutos segurando a vontade de ir ao banheiro, eu conseguir a façanha de derrubar vinho tinto na francesa que não ficou nada feliz. Ao menos me soou muito brava.
E com razão…. Quem é que ficaria feliz em ter sua roupa – aparentemente muito cara, – manchada de vinho tinto? Ninguém!
Quando finalmente cheguei ao banheiro estava no meu limite para me segurar da vontade de fazer xixi e chorar, mas para o meu azar, o banheiro estava ocupado. Todos eles.
– Clarice.
Eu sabia que não teria me safado da roupa manchada ainda, mas não esperava que a Valquíria viria até aqui atrás de mim, provavelmente me xingar até a alma ou quem sabe até me demitir.
– Senhora Valquíria, – sorri amarelo, tentando disfarçar o meu desespero.
– Valquíria, – ela me corrigiu. – Embora eu goste de ser chamada de senhora em certas ocasiões, vindo de você me faz sentir velha…
Eu não sabia o que queria dizer com isso, mas diante o meu estado, eu não pude deixar de pensar o que não deveria. E o desespero aumentou ainda mais ao sentir que lá em baixo, eu começava a enrijecer.
– Você… você está bem?
Respirei fundo. Eu não queria ter uma crise bem na frente dela, mas com todas as emoções misturadas ao mesmo tempo foi inevitável.
Se ela estava aqui era porque queria a minha cabeça e se eu for demitida… se eu for demitida o meu pai irá me matar. Não no sentido figurado. Ele vai literalmente me matar!
– Como poderia? – Não queria chorar, mas as lágrimas vieram sem aviso, me fazendo gaguejar. – Eu-eu estraguei a sua roupa. Eu vou ser demitida e eu não posso perder esse emprego. Também não posso ir para a Romênia… então fodeu. Fodeu tudo. O meu pai vai…
Por uma fração de segundo vi meu pai diante de mim, levantando a mão pronto para me dar uma surra e por puro reflexo eu me defendi, mas o golpe nunca aconteceu.
– Pardon, je ne… – ao ouvir a voz da francesa, me dei conta de que quem estava ali era ela e só ela. Mas quando percebi isso era tarde demais.
Eu já tinha perdido o controle do meu próprio corpo e no momento que senti a umidade e o alívio, não consegui impedir.
Por sorte alguém saiu do banheiro e a francesa me escondeu com o seu próprio corpo. Já era tarde, mas ao menos consegui terminar o que comecei no lugar onde deveria ter feito desde o início.
Eu quero morrer! Quero morrer! Quero morrer!
Era a única coisa que pensava quando tudo acontecia ao mesmo tempo; a francesa querendo me comer viva, eu passando o maior vexame possível na frente dela e a minha “P” decidindo endurecer como nunca antes.
Eu só queria chorar e desaparecer, mas não seria possível. A vida real não te dá oportunidade de pular cenas.
– Clarice, está tudo bem? – Valquíria bateu na porta. Eu estava me esforçando muito para pensar nas coisas mais broxantes possíveis para tentar me conter. Enquanto estivesse dura não iria conseguir disfarçar o volume e não queria que ninguém, especialmente essa mulher, soubesse do meu segredo. – Você pode sair, só tem eu aqui, está seguro… ninguém mais vai entrar.
Como colocar para trás quando sua amiguinha quer apontar para cima?!
Jesus, vovó, cachorrinho fofo. Jesus, vovó, cachorrinho fofo. Jesus, vovó, cachorrinho fofo… repetia o mantra broxante para tentar fazer descer ao menos um pouco.
– Não, eu não vou sair.
– E você pretende ficar aí até que horas?
Jesus, vovó… será que você pode se calar só um pouquinho? Eu odeio francesas! Odeio sotaque francês! Odeio!
– Até todo mundo for embora, – respondi.
– Sinto muito te dizer, mas quando todos os convidados forem embora, a equipe de evento virá desmontar tudo. Vai demorar um bom tempo até não ter mais ninguém por aqui, talvez até mais que um dia.
– Eu espero.
– Eu não vou te deixar aí trancada por várias horas. Venha para fora, eu vou te ajudar.
Sair e passar por mais uma humilhação? Se já não bastasse estar suja com o meu próprio xixi, todo mundo irá descobrir a verdade sobre mim e eu não quero. Eu lutei muito para deixar o passado para trás para jogar todo no lixo assim!
– Não, você vai rir de mim.
– Por que eu riria de você? Eu não sou nenhuma criança para ser imatura a esse ponto. Só… me deixe te ajudar.
Talvez se eu fosse uma mulher de verdade. Se eu não tivesse nascido com defeito… talvez eu não teria vergonha, mas agora eu tenho e não quero ser vista assim. Não quero!
– Você num pode me ajudar!
Ninguém pode! Eu sou um erro! Eu não deveria ter nascido! Eu… eu…
Por mais péssimo que fosse admitir isso, me odiar e odiar meu próprio corpo funcionou muito melhor que o meu próprio mantra para me fazer broxar.
– Você não sabe o que sou capaz, mon cœur – não prestei muita atenção, apenas foquei em disfarçar o volume para tentar sair daqui. – Eu estou hospedada no hotel, – ela continuou. – Venha para fora, eu te levo para a minha suíte e nós mandamos a sua roupa para a lavanderia. Você poderá tomar um banho também… vamos lá, Clarice. Eu sei que você será esperta o suficiente e aceitar minha proposta.
Depois de muita luta, eu finalmente consegui colocar para trás – até certo ponto, – e disfarçar bem o volume, me fazendo parecer uma garota normal.
Sem pensar muito, eu abri a porta do box e para minha surpresa Valquíria estava apoiada parcialmente nele e acabou perdendo um pouco do equilibro no movimento. O problema era que o movimento a deixou levemente inclinada na minha direção e o seu decote bem na minha cara.
O resultado foi inevitável. Todo meu esforço foi para o lixo e eu estava enrijecendo mais uma vez.
– Uh, eu-eu… desculpa eu não… – a tensão não me permitiu formar uma frase. Toda minha concentração estava entre as minhas pernas e o esforço surreal para não olhar para onde não deveria. – Eu não sabia que estava tão perto. Desculpa…
–Está tudo bem, – Valquíria respondeu tirando o próprio paletó, piorando ainda mais a minha situação. – Aqui, use isso para cobrir. Tem uma saída por aqui e não fica muito distante dos elevadores, – ela me entregou a peça de roupa, sem hesitar uma única vez.
– Mas essa… essa é a sua roupa cara…
– Existem lavanderias. Não será problema. Agora vamos logo, antes que o pessoal comece a ir embora e o lounge do hotel fique cheio outra vez.
Por mais que eu não concordasse com a ideia, eu acabei aceitando. E foi assim que fui parar em uma suíte do hotel com a chefe da chefe da minha chefe e isso era péssimo.
– Allez, entrez! (Vamos, entre aí!).
Eu não fazia muito bem ideia do que estava dizendo, mas deduzi ao ver abrir a porta do que parecia ser o banheiro para eu entrar e assim o fiz.
– Agora tira a sua roupa.
Engoli o seco com a sua ordem.
Não era a minha intenção fantasiar nem nada, mas merda… como não imaginar coisas a ouvindo falar isso?!
– E me dê, – ela continuou. – Vou mandar para a lavanderia.
– Ah… sim, claro… eu… – me senti uma idiota por ter viajado em algo tão simples. Mas minha imaginação foi muito fértil. – Você vai ficar aí? – Perguntei ao perceber que ela ainda estava parada na porta, como se estivesse me esperando.
Eu não tiraria minha roupa na sua frente. Eu não sou nem louca de fazer isso.
Valquíria fez uma careta surpresa, como se tivesse se dado conta do erro. E então se virou para o closet e pegou algo que estava pendurado. Um roupão, daqueles de banho.
– Vista isso e tire todo o resto para lavar.
Vesti o roupão por cima da minha roupa e tirei toda a parte de baixo discretamente. Valquíria também me estendeu uma sacola da lavanderia para eu colocar a minha roupa suja.
– Aqui…
Quando fui devolver o saco com as minhas roupas sujas, eu quase tive um piripaque. Valquíria também decidiu tirar seu colete manchado para mandar lavar. Bem ali. No closet. Que também era o caminho de entrada do banheiro.
E ela estava sem sutiã.
Ela estava de lado, mas foi o suficiente para ver o que não deveria. – Ah, parfait (perfeito)! – Ela disse se virando em minha direção ao mesmo tempo que terminava de vestir a blusa de seda ou cetim que compunha seu novo look. E eu vi. Ao vivo e em cores, os seios da Valquíria, mesmo que por breve segundos e estava completamente sem reação. – Coloque ali.
Demorei alguns segundos para processar o que falou e fazer como o que pediu.
– Tome o seu banho, eu-eu… uh… – Valquíria paralisou por um instante quando me virei para ela outra vez. – … vou mandar isso para lavar. Você pode usar o roupão enquanto isso.
– Obrigada, – respondi envergonhada. Toda essa situação era para lá de constrangedora e eu só queria deletar todas essas cenas da memória.
– D’accord… d’accord, d’accord, você… uh… precisa de… uh-hmm… algo mais?
– Algo mais? – Perguntei confusa.
– Oui… algo mais… para lidar com isso.
Valquíria apontou para a minha direção. Olhei para baixo acompanhando a direção do seu dedo e quis morrer com o que vi.
Se não bastasse estar dura como pedra, não reparei que o meu roupão estava levemente aberto e eu exposta.
Imediatamente cobri a virilha com as mãos e me inclinei, tentando evitar o inevitável.
O desespero e as lágrimas vieram em conjunto. Tudo que eu queria era sumir, evaporar, desaparecer, qualquer coisa menos me sentir exposta.
Não, não, não, não, não, não, não. Isso não estava acontecendo!
– Merda! Eu… eu posso explicar! Eu posso explicar! Eu sou… eu sou uma garota!
– Pardon?
A careta confusa de Valquíria me fez sentir enjoo. Era sempre assim que começava. As pessoas descobrem e então… então eu viro a aberração, quase uma doença contagiosa. Como se o fato de eu ser uma garota trans fosse influenciar as pessoas ao me redor ou sei lá, o que as pessoas acham.
Eu não posso acreditar que depois de todo esse tempo e esforço tentando ser só uma garota e nada mais, tudo foi por ralo abaixo. Eu não quero que as pessoas saibam do meu status! Eu não quero que as outras garotas olhem para mim como se eu fosse uma pervertida. Eu não quero me sentir diferente de todas elas. Eu não quero!
– Clarice, tout va bien, tout va bien (está tudo bem) – Valquíria me puxou para um abraço que me pegou desprevenida. – Tu n’as pas besoin de te cacher (Você não precisa se esconder).
Eu me sentia patética por estar chorando nos braços da diretora, mas seu abraço me quebrou… ou ao menos terminou de quebrar.
– Eu não entendi nada do que disse, – confessei.
– Você não… você não precisa se esconder, – esclareceu. Por um momento pareceu que está com dificuldade de achar a língua certa. – Está tudo bem, okay? – Ela começou a esfregar as minhas costas. – Não se esconda. Está tudo bem.
O seu contato gentil me deu uma vontade ainda maior de me entregar em seus braços e a abraçar de volta, mas me contive. Já era vexame demais, não precisava ser pior ainda.
– Me desculpa, eu… eu…
Perdi o controle de mim mesma e não me dei conta do que aconteceu. Estava distraída demais reparando no que não deveria… justifiquei em minha mente.
– Por que está pedindo desculpas, hein? – ela levou a mão que estava próxima do meu rosto para meu queixo e me obrigou a olhá-la. – Está tudo bem, d’accord? É normal esse tipo de coisa acontecer e não ter controle.
– Não é normal! Eu não sou normal! Eu sou nasci no corpo errado! Eu sou uma aberração! – As lágrimas voltaram com tudo e Valquíria me apertou outra vez nesse abraço meio estranho.
– Shhh! Shhh! Você não é uma aberração. Por que você seria uma aberração?
– Porque eu não nasci perfeita com as outras garotas! Eu vim com defeito. Toda errada…
– Você é perfeita exatamente como é.
– Isso não é verdade…
– Clarice, – Valquíria usou um tom de voz mais firme e segurou o meu rosto entre as duas mãos. – Écoute-moi (me ouça), você não é uma aberração. Você é perfeita do seu próprio jeito, estamos entendidas?
– Mas você… você não me acha estranha?
– Eh bien… comment dire? (Como posso dizer?)… Isso certamente foi uma novidade inesperada…, mas acho que já vi paus o suficiente para não me assustar com um… e você não é a primeira pessoa trans que eu conheço, então por que eu estranharia?…, mas enfim, vá tomar o seu banho. Eu vou… eu vou voltar para o evento por um momento para te dar privacidade. Você faça o que tiver que fazer para resolver isso e nós conversamos depois, d’accord?
Se ainda tinha alguma chance do meu rosto ficar ainda mais vermelho, ele acabou de ficar, tamanha vergonha que senti.
Eu realmente precisava fazer algo a respeito, mas não queria que Valquíria soubesse disso.
De qualquer forma, a minha única opção no momento era aceitar a sua proposta e ir tomar o meu banho. Frio, quase congelante, qualquer coisa para acabar de vez com meu “P” duro sem ter que usar a minha mão. Eu me recusava a fazer isso. Mesmo que para isso eu também quase congelasse no processo.
Demorou mais do que eu gostaria para aquietar os ânimos e ainda assim não foi uma resolução completa. Mas dava para o gasto.
Ainda esperei cerca de vinte minutos até Valquíria voltar para o quarto com uma roupa totalmente diferente da que estava usando mais cedo. Ela trocou o conjunto de paletó, colete e calça por uma saia de cintura alta e a blusa de seda ou cetim com decote transpassado, conseguindo ficar ainda mais gostosa que mais cedo.
– Está mais calma? – Valquíria perguntou e seu tom me soou genuíno.
– Sim, – respondi envergonhada.
– Très bien (muito bem). Eu pedi serviço de quarto. Vi que quase não tocou na sua comida essa noite e deve estar com fome.
A encarei confusa e surpresa. – Como você… como você sabe?
– Você estava bem a minha frente durante o jantar.
Sim, mas ainda assim a mesa redonda era grande o suficiente para manter uma distância considerável. Mas eu não questionei a respeito. Eu realmente estava ficando com fome.
– Está confortável? Quer que eu veja alguma roupa no closet que dê para você vestir?
– Não precisa, está bom assim. Não quero te incomodar mais.
– Tem certeza? Suas roupas ainda podem demorar a chegar. Talvez não fiquem prontas até amanhã pela manhã.
– Amanhã?!
Levando em consideração o horário, eu não poderia exigir que ficasse pronto ainda essa noite. Além do mais, esse tipo de serviço é caro e qualquer coisa expressa poderia me custar uma fortuna. Eu não tenho o mesmo dinheiro que os meus pais, não posso esbanjar em um hotel de luxo.
– Não se preocupe. Você pode passar a noite aqui. A cama é grande, cabe duas de nós nela… ou mais.
Dividir cama? Com a francesa?! Não! Mil vezes não!
– Eu prefiro ir para casa. Eu não… eu não posso passar a noite aqui.
– De roupão e nada por baixo? Não acho que seria o visual mais adequado, mas se insiste…
Pensando bem… isso definitivamente não é uma boa ideia.
– Você tem razão… acho melhor ficar… e eu… eu aceito a sua oferta de uma roupa…
– Eu devo ter trazido um pijama que não seja camisola. Ou uma camisa de algodão, que certamente ficará grande em você. Eu só não posso oferecer uma calcinha… eu tenho algumas novinhas, mas… não acho que… será confortável? – A observei sem saber como reagir. – São fio dental, – justificou.
Eu preferiria não saber que as calcinhas da francesa eram todas fio dental.
Não imagina isso. Não imagina isso. Não imagina!
Valquíria me levou ao closet para procurarmos algo que eu pudesse vestir entre suas roupas. Não entendia como que, para alguém que só estaria hospedada por um final de semana, tinham tantas opções de roupas, mas não estava aqui para julgar alguém.
Entre o conjunto de pijama de seda e a camisa de algodão, eu escolhi a camisa e o shorts do conjunto.
O serviço de quarto chegou quase sincronizado conosco. Para mim, um prato com um suculento bife e legumes cozidos. Para a Valquíria, um prato de queijos com umas coisas de gente fresca que não soube identificar, mas que pela porção parecia apenas um tira gosto para me acompanhar.
– Alors… quer conversar sobre mais cedo? – Valquíria perguntou aleatoriamente enquanto comíamos. – Alguém mais na empresa sabe a respeito?
– Não! – Respondi imediatamente, um pouco mais desesperada demais para o meu próprio gosto. – Eu… não quero que os outros saibam, – me encolhi na cadeira, me sentindo envergonhada.
– Pour quoi? (Por quê?).
– Eu só… não quero que as outras garotas me tratem diferente.
– Você sabe que na empresa existem regras para que isso não aconteça, – Valquíria repetiu a pergunta.
– Não é a mesma coisa. Eu sempre vou ser “diferente” delas, ninguém nunca mais irá olhar para mim da mesma forma se souberem e eu não quero isso… então, será que… será que podemos manter isso em segredo? Por favor…
Valquíria pegou a minha mão sobre a mesa e olhou em meus olhos. – Por incrível que pareça, eu entendo muito bem como se sente… você não tem que se preocupar com o seu segredo, ele está em boas mãos.
Tive uma leve impressão que Valquíria também tinha o seu próprio segredo, mas não seria eu quem iria perguntar.
– Obrigada… – sorri constrangida.
– Enfim, como está a sua comida? –
Valquíria mudou o assunto completamente e eu até respirei aliviada por isso. O clima ficou até mais leve entre nós.
– Muito! Muito obrigada por ter pedido algo para mim. Eu realmente estava faminta! Aquelas comidas do jantar eram péssimas. Muita informação e gosto de uma coisa só ou nada.
Valquíria riu se divertindo do meu comentário. Essa foi a primeira vez em que eu a vi rir de uma forma casual e de algum jeito, conseguia ser ainda mais linda assim.
– Coma do pão também, irá gostar. É fermentação natural.
Fiz como pediu e de fato, o pão – que não era daquele francês – era realmente uma delícia e com a manteiga então, era sensacional. Eu adorei cada garfada e comeria mais se tivesse.
Depois do “jantar” Valquíria foi tomar seu banho e eu fiquei na cama assistindo televisão enquanto esperava.
Era uma sensação muito estranha, até mesmo desagradável, a liberdade que tinha entre as pernas no momento. Eu normalmente uso peças íntimas mais justas para ser mais discreta possível, embora minhas outras roupas sejam mais largas. Então não ter absolutamente nada me segurando e nem a constante pressão era estranho. E bem, os shorts da Valquíria, embora fosse do tamanho perfeito para ela, em mim ficou larguinho, além de menor, eu não tenho o mesmo tamanho de coxa e bunda.
Deus! Não pense nisso agora… Clarice, por favor.
Tentei ao máximo focar a atenção no desenho aleatório que passava no canal da Cartoon, na expectativa de controlar minha mente perversa que parecia ter autonomia e ir contra minha própria vontade.
E até que deu certo no primeiro momento. Assistindo ao desenho eu me distrai completamente. Mas aí a Valquíria saiu do banho e o seu pijama era algo péssimo. Impossível. Sério, não é possível que alguém durma usando algo do tipo no dia-a-dia. Ela provavelmente estava esperando alguém ou… será que eu atrapalhei seu encontro?
Se bem que ela tem um namorado… aquele bonitão do escritório, esqueci o nome, mas todo mundo – exceto por mim, – baba por ele. Pensando bem, agora faz sentido ela estar hospedada no hotel do evento sendo que nós moramos na cidade do evento.
Meu deus… além do vexame e humilhação, manchar a roupar dela, eu ainda fui empatada foda alheia.Eu definitivamente estarei demitida na segunda-feira.
– Está com sono? – Valquíria perguntou se aproximando da cama, usando uma camisola que caia perfeitamente sobre seu corpo. Engoli o seco, negando com a cabeça. – Quer assistir a um filme ou alguma coisa? Não estou nada cansada ainda.
– Pode ser… o que quer assistir?
– Eu só não gosto de “jump scare”, qualquer outra coisa me serve bem.
Observei Valquíria subir na cama e se colocar de baixo da coberta. Havia uma distância entre nós, mas estávamos essencialmente dividindo a mesma cama, coberta e lugar.
Me virei a televisão, concentrada em procurar algo. Preferência comédia sem riscos nenhum de cenas desnecessárias. E depois de meia hora navegando por todos os catálogos possíveis, acabamos assistindo novela mexicana. Não me pergunte como fomos parar nisso.
Eu só sei que, a partir do segundo capítulo me senti meio sonolenta. No terceiro já não conseguia manter meus olhos abertos e acabei dormindo em um sono profundo. Era inevitável não pegar no sono em uma cama tão confortável, com roupas confortáveis e sem ruídos desagradáveis de vizinhos, apenas o agradável e baixo som da televisão.
O dia todo já havia sido uma grande merda, ao menos uma boa noite de sono eu merecia. E como já estávamos aqui, eu não resisti muito e me deixei levar.
Não sou do tipo de pessoa que sonha enquanto dorme. Normalmente estou tão cansada que durmo como uma pedra. Ou tenho pesadelos nada agradáveis. Hoje, porém, estava em meio a um sonho bom e relaxante. Eu me sentia leve, confortável e livre.
Clarice
Era como estar na praia. O sol agradável tocando a minha pele na temperatura perfeita…
Clarice.
A areia sob os meus pés. O som do mar… tudo se encaixava perfeitamente e era bom. Exceto pelo… pelo cutucar insistente.
– Clarice! – O tom de voz um pouco mais firme me fez acordar de repente. – Eu não vou conseguir dormir se continuar me cutucando.
– Cutucando? – Cocei os olhos confusa e sonolenta.
Demorei um pouco para entender o contexto ao meu redor. Por um breve instante havia me esquecido que estava dividindo a cama com a Valquíria em um hotel e não na minha casa. Esse foi um dos motivos que me fez levar alguns segundos para perceber que, apesar da cama desnecessariamente grande, estávamos praticamente coladas uma na outra, inclusive lá.
– Desculpa! – quase saltei para fora da cama para me afastar dela. – Eu não… eu não percebi.
– Está tudo bem. Eu não incomodo se quiser dormir abraçadas, mas eu preciso que fique quieta senão eu não consigo dormir.
– Perdão, foi sem querer…
– Você precisa de um tempo sozinha no banheiro?
– Que?! – Perguntei genuinamente confusa, até me dar conta do que estava falando. – Não! Eu estou bem. Eu estou bem. É só… vai passar. É só a gente dormir que passa, – me virei de costas para ela e me cobri até o pescoço. – Vamos dormir.
– Se você diz… bonne nuit et repose bien, mon cœur.
Não entendi exatamente suas palavras, mas sabia que estava desejando boa noite. O problema que falando assim e baixinho soava tão, mas tão, tão sensual e apelativo que eu preferiria que só tivesse ido dormir.
E eu tentei. Tentei de todas as formas possíveis voltar a dormir, mas por mais grande que a cama fosse, era impossível ignorar a presença de outro alguém tão próximo. Fodida como sou, meu corpo decidiu que hoje, nesse exato momento, era a melhor ocasião para me lembrar que não me alívio há semanas.
– Você tem certeza que está bem, Clarice? – Valquíria perguntou depois de um tempo que tínhamos voltado a “dormir”. Ela acendeu o abajur ao seu lado. – Está inquieta e respirando estranho.
– Estou.
– Não é o que parece, – ela se aproximou de mim de baixo da coberta e senti meu corpo todo tenso. – Tem certeza que não vai fazer nada a respeito? Você me parece alguém que precisa de alívio…
– Está tudo bem, – respondi imediatamente para evitar o constrangimento maior.
– … eu posso te ajudar, – antes que eu pudesse processar a sua fala, Valquíria estava colada em mim e sua mão deslizando pela minha barriga até a barra dos shorts. – Se quiser…
A última parte soou quase como um sussurro em meu ouvido que me fez arrepiar da cabeça aos pés.
Meu lado racional gritava aos berros para dizer não e parar enquanto ainda havia tempo. Mas os gritos eram abafados pelo tesão que estava sentido. E bem, Valquíria entendeu o meu silêncio como consentimento e aos poucos permitiu sua mão explorar dentro dos shorts.
– Só relaxa, d’accord? Je m’occupe du reste (eu cuido do resto).
Eu não precisava entender o que dizia para sentir o efeito por todo o meu corpo. Suspirei no momento que a senti me apertar delicadamente.
– Boa menina. Assim mesmo, – Valquíria me masturbou por breves segundos quando me soltou de repente. – Vira, – ela mandou já se mexendo na cama para mudar de posição.
Obedeci sem refletir muito e senti uma tensão em meu corpo ao ver que a francesa estava bem próxima da minha virilha. Pior ainda foi quando puxou o shorts para baixo, me deixando exposta.
– Você é maior do que esperava, – ela comentou pegando em a “P” mais uma vez, fazendo movimento para cima e para baixo lentamente.
Essa nova posição não me favoreceu muito, porque agora tinha uma das – se não a – mais linda das mulheres que já vi na vida de quatro em cima de mim, usando uma camisola de seda sensual e com a mão em mim bem lá embaixo.
Eu já fui masturbada antes e isso não era novidade para mim, mas nesse momento eu me sentia uma virgem nas suas mãos, tamanho desespero dentro de mim.
Valquíria cuspiu no meu pau para usar a própria saliva de lubrificante e essa cena quase me fez gozar ali mesmo. Considerando que eu tenho uma séria dificuldade para tal, é um feito quase milagroso.
Lembrar desse detalhe agora não foi lá uma coisa muito boa, pois minha cabeça se dividiu entre “meu deus, isso aqui está muito bom, eu vou gozar” e a tensão de que “eu preciso gozar” não porque eu quero, mas porque é o que ela quer e espera de mim. Se eu não gozar ela irá ficar frustrada e decepcionada e eu não quero decepcionar ninguém. Mas essa pressão apenas torna tudo mais complicado e difícil.
Olhar para Valquíria nesse momento me faria gozar mais rápido. Mas olhar para a Valquíria iria me lembrar que era ela quem estava ali. E em qual outro mundo eu poderia imaginar que estaria nessa posição e com alguém como ela? Isso é errado.
Valquíria engatinhou para perto de mim, sem me soltar e aproximou o rosto do meu ouvido. – Je pensais avoir été très claire dans mon ordre, mon cœur. Détends-toi. C’est un ordre. (Pensei que fui bem clara com a minha ordem, coração. Relaxe. É uma ordem).
Continuava sem entender uma só palavra, mas sua voz sensual, rouca e arrastada em meu ouvido mexia com a química do meu cérebro. Se não bastasse isso, a alça da sua camisola caiu pelo ombro, mostrando parcialmente o seu seio. Eu não queria ser desrespeitosa e olhar mais do que eu deveria, mas era uma batalha que eu estava perdendo.
– Gosta do que vê, Clarice? – Valquíria perguntou, me pegando no flagra. – Não seja tímida. Você pode tocar se quiser.
Ela usou a mão livre para pegar a minha e colocar sobre o seu seio, sem rodeios. Se fosse qualquer outra mulher, eu a beijaria. Mas aqui eu não poderia abusar da sorte. A Valquíria era definitivamente tudo, menos “qualquer outra mulher”.
– Isso. Seja uma boa menina e relaxe… laisse faire, mon bébé (deixe acontecer, meu bebê).
Valquíria sussurrou a última parte e eu não me aguentei. Seu toque, o seu olhar e sua voz eram demais para mim e sem avisos prévios gozei em sua mão, sujando toda a minha barriga. A sujeira só não foi maior, pois a Valquíria usou a própria mão para conter o resto que veio a seguir.
– Très bien, ma bonne fille. (Muito bem, minha boa menina). Não é tão melhor quando você obedece a minha ordem? – Valquíria disse ainda com a mão na “P”, fazendo movimentos que facilmente me faria ficar dura outra vez e gozar novamente. – Eh bien, acho que agora temos uma bagunça para limpar, – ela comentou abrindo e fechando a mão e eu morri de vergonha com o tanto que gozei em sua mão.
– Me desculpa, eu…
– Você fique aí, mocinha – Valquíria me empurrou de volta para cama com a ponta do dedo da mão limpa. – Eu não disse que poderia levantar.
– Mas… – o olhar que recebi me fez calar a boca no mesmo instante. – Sim, senhora – corrigi.
De um olhar assassino para um sorriso satisfeito, capaz de destruir corações. Essa foi a mudança em fração de segundos no semblante da francesa.
– Esse é o jeito certo de me chamar de “senhora”.

3 Comentários
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minha nossa como eu vim parar aqui? ( pvf não me tira 🙏🏻
Gag te lá gag
Gente do ceuuuuu, fiquei até sem falas kkkkkkkk Autora pelo amor de Deus não some to adorando 🫶🏽
Amei a Val automaticamente assumindo que a Clara é trans e mudando completamente o jogo de sedução