VALQUÍRIA
– Eu não acredito que você vai ter coragem de fazer isso, – Mariela comentou pela terceira vez, incapaz de aceitar a minha repetida resposta. – Você não está mesmo pensando em trocar um homem alto, musculoso e pauzudo por… – ela respirou fundo, procurando palavras para descrever, – aquela… coisinha… eu nem sabia que você gostava de mulheres, dirá lá garotas.
Era natural que essa mudança radical na minha escolha cause estranheza. O Vinícius é simplesmente o homem mais disputado por todas as mulheres – e homens – do prédio. Ia muito além do nosso escritório. E bem, ele claramente queria ir para cama comigo, não era como se eu precisasse de muito esforço.
Para ser honesta, tem meses que ele está tentando. Eu só… não conseguia o ver como outra coisa além de um pau para sentar, e ouvir a sua conversa fiada me dava preguiça. Talvez se fosse mais calado e mais proativo, poderia até cogitar alguma possibilidade… hmmm non, não aconteceria.
A verdade era que eu estava cansada de me envolver com pessoas apenas por algumas horas de prazer e descartá-las em seguida. Pela primeira vez na vida, sentia no coração o desejo de estar com alguém de fato. Viver um amor romântico. E duradouro.
O que eu não esperava – e a parte cômica de toda essa história, – era que justamente quando decido ouvir meus pais e me aquietar em busca de um verdadeiro amor, estou interessada por uma garota. Uma garota consideravelmente mais nova que eu e se encolhe toda vez que me aproximo.
– Você é louca, – Mariela continuou.
Talvez eu de fato seja, mas o que posso fazer?
Ela é tão fofa e linda. Me encanta a delicadeza que tem para absolutamente tudo. O seu sorriso é de tirar o fôlego, embora seja uma cena rara. E os seus olhos… me fascina o fato de mudar a cor de acordo com a luz do ambiente.
Clarice era jovem, mas muito inteligente. Se saía muito melhor que Vinícios em qualquer conversa. Ela só era tímida demais e um pouco retraída…, mas nada que eu não consiga resolver.
Às vezes eu só queria a trazer para o meu colo, beijar seus lábios e a fazer minha com os meus dedos. Seria pedir demais?
Mas aí lembro que sou sua chefe e me aproximar assim poderia ser considerado assédio. Ou seja, durante meses tentei uma abertura, mas Clarice era mais difícil e complicada do que imaginei inicialmente, não engajava em nenhuma conversa que não fosse trabalho.
Eu não quero ouvir sobre seus números, a não ser que esse seja o seu telefone. De resto? Não me interessa o relatório, números, metas. Eu quero que descubra a cor da minha calcinha e não as soluções para problemas dos clientes. Quem se importa com os clientes?!
Aparentemente para Clarice eu sou somente sua chefe. E nada que eu faça parece mudar isso.
Por essa razão, esse era o meu momento para fisgar a sua atenção para mim. Teoricamente a cerimônia de premiação ainda era trabalho, mas aqui estávamos fora do escritório e sem roupas de negócios. Ainda tinha a festa pós o jantar, música, bebidas, se hoje nada mudar, eu não sei mais o que faço.
Não quero ser obrigada a usar táticas duvidosas…, mas também não aceito falhar sem nem uma conversa.
– Você pode ter ele se quiser, – respondi após dar um gole em meu drink. – Eu não quero. “Aquela coisinha” me interessa muito mais e é o que eu vou atrás, – deixei o meu copo no balcão do bar e voltei minha atenção para Mariela, – só tome cuidado para não derreter o seu cérebro no processo. Agora me dê licença, s’il vous plaît.
Clarice estava sozinha pela primeira vez desde o início do evento, eu não poderia perder essa oportunidade para uma conversa.
Caminhei em sua direção determinada, confiante. Certa de que ela não escaparia dessa vez. Mas me enganei. Dado um momento, alguém assumiu o palco do evento para fazer a abertura da cerimônia e com a movimentação das pessoas de pé no coquetel, eu a perdi de vista.
Putain!
Eu sei que é fofo, mas ela precisava ser tão baixinha e sumir no meio do povo?!
[…]
Meu objetivo da noite era conseguir uma conversa com Clarice antes do jantar, mas deu errado. Se não bastasse a dificuldade de a encontrar em meio a multidão, tinha a sensação de que estava fugindo de mim. Não que ela tivesse motivo para tal… ou teria?
Bem, se você pensou que eu vim até aqui sem um plano B, está muito enganado. J’ai toujours un atout dans ma manche (eu sempre tenho uma carta na manga).
Conversando com a pessoa certa, eu consegui fazer algumas alterações na distribuição de mesas e coloquei o meu nome ao lado da Clarice. E não, a ideia de sentar os estagiários não tinha nada a ver com oportunidade de trocar experiências e engajar com a base da hierarquia. Eu só queria garantir que meu plano não falhasse e ela não poderia fugir de mim se tivesse que se sentar ao meu lado durante todo o jantar.
Estava sentada no meu lugar esperando os demais convidados da mesa. Levantei o olhar quase me esquecendo de esconder a empolgação enquanto alguém puxava a cadeira ao meu lado, mas para o meu desgosto, a pessoa ali não era Clarice.
– Excusez-moi, mademoiselle. Que faites-vous ? (Perdão, senhorita, o que está fazendo?)
A moça, cujo o nome eu acho ser Lina, me encarou confusa. – Como é que é?
– Esse não é o seu lugar, – apontei para o prisma com o nome Clarice.
– Ah… eu troquei de lugar com ela pra sentar perto do meu namorado.
Para o meu desgosto, Clarice estava se sentando no lado oposto ao meu, embora o seu nome estivesse no lugar ao meu lado. Cretina…
O jantar foi extremamente tedioso.
Ao meu lado estavam duas pessoas que achavam que, em uma conversa exaltando os seus feitos, teriam a minha atenção ou quiçá uma possível promoção no futuro.
Embora desconfiem que não, eu estou de olho em tudo e todos o tempo todo. Não será uma conversa de uma noite que mudará minha opinião a respeito da pessoa. Especialmente pessoas me bajulando, com expectativas de que isso me agrade. Não promovo bajuladores. Precisará muito mais que isso para trabalhar ao meu lado.
Enquanto eu estava entediada, Clarice parecia estar… desconfortável. Não sei se os outros perceberam, mas era óbvio que não havia gostado da comida e comia a contragosto, usando a água e seu refrigerante para ajudar a descer. E bem, ela é naturalmente mais quieta e na dela, então não estava surpresa que estivesse mais acompanhando a conversa ao seu redor que engajando na mesma.
C’était très mauvais. Horrible. J’ai détesté (Foi péssimo. Horríve. Detestei).
Ao final do jantar eu já estava de saco cheio e impaciente. O tal namorado da moça ao meu lado estava usando um perfume horroroso, de baixíssima qualidade que estava me dando dor de cabeça. E bem ao meu lado, Martin usava um terno ridiculamente justo e uma gravata amarela de arder os olhos. Nem vou comentar sobre o barulho desnecessário que fazia para mastigar que estava me causando dores físicas.
– Eu vou ao… – Clarice tentou falar algo, mas foi imediatamente interrompida pela a outra estagiária ao seu lado.
– Gente! Vamos tirar uma selfie!
– Sim, por favor. Quero aproveitar enquanto estou arrumada e inteira. Depois da festa estaremos só o pó… – a garota olhou para mim e sorriu constrangida, – quero dizer, o penteado… ele não irá durar tanto com o tempo.
Eu sei muito bem o que acontece nas festas da empresa, por que as pessoas agem como se eu fosse a general que irá impedi-los de se divertirem?
O que era para ser uma selfie entre as três, virou foto do grupo inteiro. E não satisfeitos em usarem diferentes celulares, chamaram o fotógrafo oficial do evento para mais fotos. Era de se esperar que, com o fotógrafo oficial envolvido, eu e os demais diretores a mesa fomos convidados a nos reunir.
Eu me posicionei ao fundo, mantendo alguns centímetros de distância da pessoa mais próxima para evitar mãos na minha cintura e/ou abraços desnecessários. Se eu não gosto de excesso de toques até da pessoa com quem estou transando, imagine de pessoas que apenas mantenho a cordialidade.
Ao final da breve sessão de fotos, eu estava me afastando cuidadosamente quando esbarraram e acabei sujando a minha roupa roz pudra de vinho tinto.
– Puta merda! – Alguém comentou ao ver a cena, sendo o primeiro reagir. – Velho, você só faz merda…
– Eu… me desculpa. Eu-eu-eu vou, eu vou limpar.
Esse foi o momento em que me dei conta de quem foi a pessoa responsável por estragar a parte de baixo do meu conjunto exclusivo Araftu Couture feito sob medida.
– C’est bon, c’est bon, tu n’as pas besoin de faire ça (está bem, está bem, não precisa fazer isso), – disse impedindo que Clarice esfregasse o seu guardanapo de pano sobre a mancha de vinho e piorar ainda mais a situação. – Está bem. Eu já disse, – repeti em um tom um pouco mais firme do que gostaria.
Clarice paralisou me olhando assustada. – Desculpa… eu lavo. Quer dizer, eu pago para lavarem… compro outro?
Ergui o cenho observando o desespero de Clarice, achando graça. Ela é tão encantadora. – Comprar outro?
– Novinho em folha. É só dizer onde comprou… eu vou… eu vou amanhã mesmo.
– Para Romênia?
O grupo ao nosso redor começou a rir e cochichar, e eu quis dar um soco na cara de cada um deles por deixarem a minha Clarice ainda mais desconfortável.
– Aqui, Valquíria – Martin me ofereceu o meu paletó que estava pendurado na minha cadeira.
– Merci.
– Eu… eu… eu preciso ir.
Clarice disse saindo às pressas, e como eu estava vestindo o meu paletó não tive chances de sequer a impedir de ir para dizer que estava de fato tudo bem.
Embora seja uma peça única, se por ventura não forem capazes de resolver o problema, era só fazer uma nova. Foi só o colete tomara que caia. Se fosse o paletó com bordado feito a mão eu até entenderia o desespero. Mas não é.
Usando o paletó para esconder a mancha de vinho, atravessei o salão para ir atrás de Clarice para saber como estava.
A vi entrar em um dos banheiros mais distantes e a segui até lá, para a encontrar no corredor verificando se todos os boxes estavam de fato ocupado e estavam.
– Clarice.
Ela quase deu um salto de susto ao me ver.
– Senhora Valquíria.
– Valquíria, – a corrigi. – Embora eu goste de ser chamada de senhora em certas ocasiões, vindo de você me faz sentir velha… você… você está bem?
– Como poderia? Eu-eu estraguei a sua roupa. Eu vou ser demitida e eu não posso perder meu emprego agora. Também não posso ir para a Romênia… então fodeu. Fodeu tudo. O meu pai vai…
– Clarice, – estendi a mão para tentar a acalmar, mas ela levantou o braço na defensiva imediatamente e eu recuei. – Pardon, je ne… (perdão, eu não…)
Antes que eu pudesse terminar qualquer frase que fosse falar, reparei na mancha escura começar a se formar na calça social de Clarice. Embora fosse óbvio o que estava acontecendo, algo não fazia sentido algum; por que raios a mancha começou a se formar em um lado da perna?
Clarice se encurvou envergonhada e no mesmo instante alguém saiu dos boxes. Sem pensar muito, dei um passo à frente para esconder Clarice atrás de mim e discretamente a empurrar para dentro, antes que as outras pessoas que pareciam prontas para sair fizessem o mesmo.
As três moças lavaram as mãos, se ajeitaram no espelho e saíram todas juntas. Eu as acompanhei para trancar a porta de entrada e impedir que mais gente viessem.
– Clarice, está tudo bem? – Bati na porta de leve. Conseguia ouvir que estava chorando baixinho e meu coração se partiu de dó. – Você pode sair, só tem eu aqui, está seguro… ninguém mais vai entrar.
– Não, eu não vou sair – ela respondeu após uma longa pausa em silêncio.
– E você pretende ficar aí até que horas?
– Até todo mundo ir embora.
– Sinto muito te dizer, mas quando todos os convidados forem embora, a equipe de evento virá desmontar tudo. Vai demorar um bom tempo até não ter mais ninguém por aqui, talvez até mais que um dia.
– Eu espero.
Se fosse qualquer outra pessoa chorando no banheiro se recusando a sair, eu teria mandado se foder e deixado para trás. Mas como era Clarice, eu não só estava sendo paciente como também estava morrendo de dózinha.
– Eu não vou te deixar aí trancada por várias horas. Venha para fora, eu vou te ajudar.
– Não, você vai rir de mim.
– Por que eu riria de você? Eu não sou nenhuma criança para ser imatura a esse ponto. Só… me deixe te ajudar.
– Você num pode me ajudar!
– Você não sabe o que sou capaz, mon cœur – Clarice não respondeu, se mantendo em silêncio. – Eu estou hospedada no hotel. Venha para fora, eu te levo para a minha suíte e nós mandamos a sua roupa para a lavanderia. Você poderá tomar um banho também… vamos lá, Clarice. Eu sei que você será esperta o suficiente e vai aceitar minha proposta.
Eu já estava quase considerando que Clarice fosse teimosa demais para aceitar ajuda, quando a porta do box se abriu de repente e eu me desequilibrei em sua direção.
– Uh, eu-eu… desculpa eu não… – Clarice ficou ainda mais vermelha que mais cedo, quase um pimentão de vergonha. – Eu não sabia que estava tão perto. Desculpa…
Não foi necessário muito para entender a origem da sua vergonha. Bastava acompanhar o seu olhar e saber que o motivo de tudo isso era por conta do meu decote.
–Está tudo bem, – respondi. – Aqui, use isso para se cobrir. Tem uma saída por aqui e não fica muito distante dos elevadores, – disse entregando o meu paletó.
– Mas essa… essa é a sua roupa cara…
– Existem lavanderias. Não será problema. Agora vamos logo, antes que o pessoal comece a ir embora e o lounge do hotel fique cheio outra vez.
Em nenhum dos meus planos mais promissores, eu imaginaria que terminaria a noite com Clarice em meu quarto. Não que eu espere que algo vá acontecer, mas já é um ponto de partida.
Tudo que eu preciso fazer é ajudá-la, fazer se sentir segura e confortável comigo, o que não é difícil… eu sei tratar muito bem as minhas presas.

1 Comentário
Gente do céu, MELHOR trabalhar dela e sempre o próximo, ameiiiiiii.