« V A L K Y R I E »
– O cocktail. – Clarice acrescentou apontando para a cartela de drinks.
A base de vodca, licor de café, Amaretto e Bailey’s, o tal “orgasmo” era um cocktail muito doce para o meu gosto. Prefiro o outro tipo de “orgasmo” mesmo.
– Pisco sour, s’il vous plaît, – balancei a cabeça discretamente ao notar meu erro, – por favor, – tentei sorrir e no mesmo instante meu sorriso murchou tamanho meu nervosismo e preocupação.
Com tantos problemas para lidar, mais um para essa lista era a última coisa que precisava.
– E eu vou querer um Old Cuban, – Bruno se juntou ao meu lado. Sem nenhuma discrição, meu amigo encarou a Clarice de cima a baixo. – Você é nova aqui, – concluiu. – Você tem mesmo idade para trabalhar em um bar? Não está apresentando um documento falso, está?
– Pode até parecer que não, mas eu sou maior de idade, – Clarice me encarou. – Eu posso provar.
Esperei pelo momento em que fosse dizer que me conhecia, mas esse momento não aconteceu. E Bruno não desconfiou de nada, nem um segundo depois ele estava de conversa com outra pessoa aleatória e se esqueceu de nós e das bebidas como de costume.
Clarice perguntou algo me tirando dos meus pensamentos.
– Pardon?
– Você não usa açúcar em nada no escritório, achei que não fosse querer no seu drink também.
– Oui, vous avez raison… – Clarice ergueu uma sobrancelha e então me dei conta da minha gafe. Respirei fundo lentamente e tentei outra vez; – sim, você tem razão. Pode colocar menos açúcar, por favor.
Essa minha confusão me deixava frustrada. E quando estou frustrada, fico inquieta. E quando estou inquieta, a ansiedade toma conta de mim. E a ansiedade me deixa nervosa. E quando estou nervosa, me sinto ainda mais frustrada.
É um ciclo sem fim e um tanto desgastante, que se eu permitir, irá me consumir.
A Clarice parece ser uma boa garota, mas como posso confiar no meu próprio julgamento quando eu mesma me envolvi com tantas pessoas desprezíveis? Melhor não confiar muito… Mas algo dentro de mim diz para não me preocupar.
E desde quando Valkyrie não se preocupa com algo? Sou eu, afinal. Eu sempre me preocupo, seja necessário ou não. E agora é impossível não me preocupar… o que será que a Clarice irá fazer com essa informação?
Não que me importe muito com o que falam de mim. As pessoas geralmente não me entendem mesmo. E às vezes, nem eu mesma entendo minha própria confusão, então como esperar algo diferente dos outros? Por essa razão não julgo quem tem impressão errada a meu respeito e estou muito bem ciente do que falam de mim no escritório. E não ligo, de verdade, não me incomoda.
Mas irei me incomodar se as pessoas lá souberem dessa parte da minha vida que tento manter separada do trabalho. Tenho plena certeza que isso na boca daqueles homens irá ser munição para tentar afetar a minha carreira. E por mais que eu não ligue para o que os outros falam de mim, tem as pessoas que vão… principalmente as da minha família. E esse é o maior problema de todos.
– Você está bem? – Bruno me perguntou discretamente assim que me juntei ao seu lado no sofá.
– Por quê?
– Eu conheço você. Conheço esse seu tique com os dedos, sei muito bem que quando está “brincando” com os anéis é porque está nervosa. Aconteceu alguma coisa?
– Não, eu estou bem. Você está achando coisas por causa da conversa de mais cedo.
Bruno me encarou com a sua típica careta de desconfiança. – Sei… a Giovana estava contando da viagem dela para o Caribe com a Ju, – ele me introduziu ao assunto da roda para que eu não ficasse totalmente perdida e me sentisse deslocada.
Essa era a forma do meu amigo “aceitar” as minhas “desculpas”. Significa que não acreditava totalmente em mim, no entanto, não iria insistir no assunto. E eu nunca estive tão grata por isso.
Por mais que ter a Clarice por aqui significa um perigo para mim e a minha reputação, se eu dissesse que ela é estagiária no escritório, ela automaticamente perderia o trabalho aqui. Eu não a conheço, tampouco sei os detalhes da sua vida e se está aqui agora tem um motivo. Seria muita maldade da minha parte tirar essa fonte de renda extra por receios e medos meus.
É um risco que escolhi correr… por hora.
Tentei.
Juro que tentei não pensar, me distrair, mas confesso que fracassei. Fracassei miseravelmente. Nos cantos mais escuros da noite, nossos olhos se cruzavam, e eu tinha certeza de que, como eu, Clarice não conseguia ignorar nossa presença no mesmo espaço. Eu a observava de longe, sem saber se era por temor, apreensão ou se simplesmente não conseguia desviar o olhar.
Quanto a ela, eu não sei ao certo o que pensar… deve ser um tanto inusitado encontrar sua chefe em um lugar como esse e ter despertado sua curiosidade.
Por fim eu me rendi e fui embora muito mais cedo que o usual. Eram pouco mais de meia noite quando cheguei em casa. Normalmente fico até alta da madrugada socializando com meus amigos que curiosamente todos frequentam o mesmo club.
É comum pensar que ali dentro apenas aconteçam o que é “proibido”, quando na verdade somos uma sociedade tão normal quanto as outras e muito mais que só BDSM. O casarão tem tudo, inclusive quadra de tênis, academia, SPA, yoga, pilates e tudo mais que um club tem. A diferença que também exploramos nossa corpo e sexualidade, seja envolvendo sexo ou não… e honestamente, eu já nem lembro mais a última vez que de fato transei lá ou com alguém de lá.
Confesso que já fui uma frequentadora mais assídua. Hoje em dia vou aos sábados, às vezes às sextas e tudo isso por insistência do Bruno que diz que preciso viver além do trabalho… logo ele que é um neurocirurgião e vira e mexe está de plantão. Vai entender…
Meus planos de trabalhar em alguns dos meus projetos no domingo foram por água abaixo. Tudo isso por causa de uma mocinha de olhos azuis que não saia da minha cabeça.
Será que ela já contou a alguém? Ou está esperando segunda-feira para contar pessoalmente? Apesar dos meus olhos serem incapazes de desviar dela, eu não a vi com o celular nas mãos em nenhum momento. É contra as regras, mas se ela fez algum registro foi muito discreta.
Nem mesmo meu yoga ou meu chá de Vanilla Bourbon me ajudaram a relaxar. A preocupação sobre como seria o dia seguinte me deixava inquieta demais.
Odiava ter a minha carreira nas mãos de uma estagiária. Se essa informação chegar em Paris, minha avó irá fazer ensopado com meus órgãos e me deixar viva no processo para comer a janta depois.
A velha já fez um inferno na minha vida por ter cancelado o casamento. Ela com certeza irá achar que virei uma puta depravada. Puta sim, depravada não. Sejamos honestos com nosso julgamento, eu não gosto de mentiras.
Nos melhores cenários, ela poderá me chantagear para conseguir dinheiro ou privilégios no trabalho. Já tentaram me extorquir com muito menos. Não seria a primeira, muito menos a última vez.
Estou acostumada.
Meu advogado me orientou a tentar resolver de forma amigável. Eu quero acreditar que vamos nos resolver assim, realmente não quero tomar atitudes drásticas. Mas aquela garota é uma incógnita para mim. Seria muito decepcionante se ela for como os outros estagiários. Eu apostei tão alto nela.
E foi com essa aflição e ansiedade que fui trabalhar na segunda-feira seguinte. Como a Clarice trabalha somente no período da tarde, a minha manhã se arrastou dolorosamente em meia preocupação e caos.
– Você está assim por causa do projeto parado? – Theo me perguntou.
Demorei um pouco para entender de qual projeto Theo se referia. E só de me lembrar, revirei os olhos em puro ranço. – Essa é a última das minhas preocupações. O Pedro Henrique está declarando guerra comigo por ser um idiota imaturo, mas ele se esqueceu que não é o único engenheiro de São Paulo, já eu sou a única Valkyrie. Se ele continuar assim, vou simplesmente quebrar o contrato e colocar outro em seu lugar. Não será uma multa de rescisão que irá me prender.
– Se não é essa a sua preocupação, qual te aflige então? Está a manhã inteira esfregando esse anel e até agora não percebeu que o laço do seu lenço se desfez.
Instantaneamente olhei para baixo em meu próprio pescoço e refiz o laço do meu lenço de seda. Estar desajeitada me deixa agoniada e neurótica. Minhas roupas de trabalho estão sempre perfeitamente alinhadas e ajustadas ao meu corpo. Qualquer coisa fora disso é inaceitável.
– Eu estou apenas refletindo sobre algo que ainda não aconteceu, mas poderá acontecer a qualquer momento, – encarei o relógio. Faltavam quase meia hora para o horário de almoço, era como se o ponteiro não se movesse há duas horas. – Tem algum compromisso agora?
– Nada além do meu trabalho usual, por quê?
– Então vamos sair.
– Sair? Para onde?
– Almoçar. Tem um restaurante há uns vinte minutos daqui que eu gostei bastante e quero ir lá agora. Eu preciso sair de perto desse lugar para aliviar minha mente.
– Eu só tenho uma hora de almoço, sabe disso né?
– E eu sou a sua chefe, isso não é um problema. Vamos, eu pago.
Theo era um dos poucos – e raros – funcionários da empresa que verdadeiramente me compreende. Por isso, somos muitos próximos, e eu sei que essa proximidade não tem segundas intenções. Theo não tenta se tornar meu amigo apenas para obter “benefícios” que posso lhe oferecer como sua chefe, como alguns outros que acreditam me enganar.
E sim, eu o adotei como o meu pupilo.
Tenho grande prazer e orgulho em impulsionar a sua carreira e o defendo com unhas e dentes quando necessário.
Poderia até perder o foco em meus próprios projetos, mas durante o almoço, Theo e eu discutimos algumas ideias que ele tem para o seus próprios projetos. O ajudei tomar algumas decisões e por fim acabamos rindo de algumas situações de trabalho.
O relógio que ficou duas horas preso no mesmo minuto, decidiu correr enquanto estávamos no restaurante. Quando nos demos conta e decidimos voltar, faltavam quinze para as duas da tarde.
Em outra palavra, estávamos quarenta cinco minutos atrasados e há quarenta e cinco minutos Clarice estava no escritório trabalhando, sendo que deveríamos conversar assim que ela chegasse.
Toda a tensão que havia me esquecido retornou em dobro. Há essa altura, Clarice já teve tempo mais que o suficiente para causar um estrago considerável, e eu não gosto nem de imaginar como será voltar para o escritório com todo aquele murmúrio em meus ouvidos.
Eu tento ignorar, finjo que não estou ouvindo, mas infelizmente – ou talvez felizmente, – fui agraciada com uma audição muito sensível e consigo captar até mesmo o mais leve ruído na sala relacionado a mim.
Sinceramente, não sei o que essas pessoas esperam de mim. Minha simples presença parece incomodar, então optei por me afastar e não me envolver muito para não causar desconforto a ninguém. No entanto, por ter me distanciado, agora me rotulam de metida e esnobe. E eu fico sem saber como agir no meio dessa confusão.
Eu me considerava um tanto confusa, mas às vezes sinto que são os considerados “normais” que complicam demais as coisas e são a causa dessa confusão.
Ao sair do elevador e passar pela recepção do escritório, não percebi nada fora do comum. Não havia um burburinho extra ou olhares mais atentos, apenas a movimentação rotineira do dia a dia. Por algum motivo, as pessoas parecem me ver como uma ditadora pronta para repreender qualquer deslize, seja alguém fora do lugar, conversando ou usando o celular durante o expediente.
Curiosamente, nunca reclamei com ninguém por essas coisas. Pelo contrário, há uma lista de pessoas que já foram repreendidas pelo André ou pelo Martin, mas, por algum motivo, sou eu quem parece causar toda essa agitação como se fosse a responsável pela repreensão e não eles próprios.
No ambiente principal, onde a maioria dos funcionários se concentravam, vi Clarice estava em seu computador com os olhos fixos em seu monitor. E como se sentisse a minha presença, seus olhos azuis desviaram para mim. Mantive o contato visual por um momento para que sua atenção permanecesse em mim.
Cogitei em ir até sua mesa e a chamar para vir à minha sala, mas sabia que isso apenas causaria mais desconforto às pessoas ao redor.
-Clarice, – a chamei e fiz um sinal com o dedo a chamando. – Minha sala.
Pouco depois que entrei em minha sala, Clarice passou pela porta.
Bem diferente de quando estava no bar. A Clarice confiante e cheia de si, deu espaço a sua versão tímida e amedrontada. Um gatinho assustado que dava vontade de fazer carinho e levar para casa.
-A senhora quer falar comigo? – Senhora? Eu me sinto muito mais velha toda vez que me chamavam assim e não conseguia disfarçar meu descontentamento.
-Oui, – sorri desconfortável, tentando disfarçar o meu nervosismo.
Eu tenho mais de trinta anos nas costas e ainda me confundo as línguas quando fico nervosa. É ridículo e eu me sinto uma completa idiota, o que me deixa mais nervosa e quanto mais nervosa, mais eu erro.
Clarice se sentou e eu fiz o mesmo. Respirei fundo lentamente tentando assumir o controle mais uma vez.
-Alors… nós precisamos conversar.
Para a minha surpresa, Clarice virou um pimentão de tão vermelha.
-Você vai me demitir, não vai? Eu sinto muito pela impressora. Foi um acidente, eu juro. Eu não fiz de propósito.
-Quoi? De quoi parlez-vous? – Fechei os olhos e balancei a cabeça discretamente. – Que impressora? Sobre o que está falando?
-A 3D que queimou.
-A impressora 3D queimou? Quando?
Clarice encolheu os ombros e seu olhar para mim foi de dar dó. – Agora pouco. Me desculpa, foi um acidente. Eu pago o conserto. Pode descontar do seu salário… se eu ainda tiver um.
-O que aconteceu com a impressora?
-Eu sem querer derramei coca-cola na impressora e ela queimou. Eu pensei que já soubesse e que fosse me demitir assim que chegasse.
-Quoi ? Non ! Je ne ferais jamais ça. – Desviei o olhar de Clarice que me desconcertava e respirei fundo.
– Não, eu não te chamei para isso, – continuei ao recuperar a postura. – E não se preocupe, eu jamais demitiria alguém por um acidente como esse. Só faça o orçamento do conserto e me encaminhe.
-Eu já contatei cinco empresas diferentes, mas ainda nenhuma me respondeu… se não estamos aqui para falar da impressora, o que seria então?
-Eu te chamei aqui para falar do que aconteceu esse final de semana.
-O que aconteceu esse final de semana?
-Alors, você me viu…
-Vi? – Clarice me interrompeu. – Tem certeza?
-Sim, no… oh! Entendi. – Aquele olhar… era o mesmo do bar.
-Devo mandar o orçamento para o Felipe analisar e te encaminhar? – Ela mudou de assunto.
-Não, encaminhe direto para mim… eu vou resolver isso.
-Obrigada… eu posso? – Ela apontou para a porta e eu concordei com a cabeça, – Licença.
A nossa conversa me deixou profundamente reflexiva.
Foi como se uma brisa fresca tivesse soprado através das minhas suposições habituais. Pela primeira vez, alguém teve a chance de obter alguma vantagem de mim, mas optou por não fazer. Clarice poderia facilmente conseguir dinheiro, um cargo ou qualquer coisa do gênero e sequer tentou.
Isso apenas aumentou a minha curiosidade em desvendar a incógnita que era Clarice.
Quem é essa garota, afinal?
– Um hotel… mais um, – Theo comentou assim que encerramos a chamada em vídeo com outro cliente. – Eu tenho minhas suspeitas que qualquer cliente que insiste em trabalhar com você é para um hotel.
Confesso que projetar hotéis não era minha paixão, mas por algum motivo, eu me destacava nisso e muitas pessoas me procuravam para esse tipo de projeto. O cliente em questão era um sheik que planejava construir mais um hotel ultraluxuoso em Dubai. Mais um projeto grandioso que seria incapaz de fazer sozinha e para isso tinha a minha seleta equipe a qual tinha bastante gosto em trabalhar.
– Temos espaço para mais alguém em nossa equipe? – Perguntei.
– Como assim?
– E se eu quisesse chamar mais alguém para integrar o nosso time, acha que temos espaço para recebê-la?
Theo me encarou desconfiado por um instante. – Você quer convidar mais alguém para a equipe? Você, que recusa pedidos de todas as pessoas que pedem para trabalhar ao seu lado… O que está acontecendo?
– É uma estagiária. Eu gostaria de tê-la antes que os outros a descubram e a queiram também.
– Aquela que andou pedindo sua ajuda num projeto? Eu pensei que estivesse só a ajudando e não que fosse a querer trabalhando contigo – Assenti. Eu realmente não quero no meu time. – Sempre temos trabalho para ser feito. Se você acredita que vale a pena, eu me disponho a ajudar.
Normalmente, não costumo incluir estagiários em meus projetos dessa forma. Se estão dispostos a aprender comigo, não me importo em compartilhar conhecimento e ajudá-los a crescer. Mas…, trabalhar diretamente comigo é uma situação bem diferente e complexa.
Os projetos que lidero geralmente têm altas expectativas dos clientes, não há espaço para nada além da perfeição, e a equipe que montei ao longo dos anos trabalha de forma harmoniosa e sincronizada. Confio plenamente neles para realizar o trabalho e sei que será bem feito. Por essa razão, introduzir alguém novo, especialmente um estagiário, é um risco significativo, e eu valorizo muito minha paz de espírito.
Então não, eu não os quero… exceto pela Clarice.
Quanto mais conheço essa garota, mais a minha curiosidade sobre ela aumenta. Não posso negar que meu interesse em a convidar para minha equipe é totalmente pessoal, mas eu quero conhecê-la melhor e não há outra forma melhor de fazer isso que a colocando para trabalhar diretamente comigo.
« C L A R I C E »
Durante esses dois dias, eu aguentei as brincadeiras sobre o meu “incidente” com a impressora 3D. No primeiro dia, ontem, foi um festival de piadas, e eu – estagiária recém contratada, – já estava me preparando mentalmente para ser mandada embora. Quando a francesa me chamou para conversar então… tinha certeza absoluta que era o meu fim e a conversa era apenas para receber a minha demissão por justa causa.
Graças ao bom deus, isso não aconteceu.
No segundo dia passei meu expediente ligando para todas as empresas que consertam esse tipo de impressora enquanto ouvia as piadas. Nem parecia que estava cercada de pessoas que estavam na faculdade. A sensação era que tinha voltado para a quinta série.
Mas eu não me abalei.
Depois de muita insistência e paciência com as empresas de conserto, finalmente consegui montar uma lista com cinco orçamentos diferentes, incluindo avaliações das empresas, descrição dos serviços, endereço, telefone e até uma tradução para o francês, cortesia do Google Tradutor. Estava prontinha para apresentar tudo para a francesa… até que dei uma olhada no relógio e percebi que os cinco minutinhos extras que eu planejava depois do expediente se transformaram em uma hora, ela provavelmente foi embora e ainda falta terminar uns pequenos detalhes.
– Por lei, você não poderia fazer hora extra, mocinha.
Outra vez quase fui parar no teto por causa dessa francesa que adora me assustar. Será que ela faz isso de propósito ou sou eu que me assusto por qualquer coisa?
– O que ainda faz aqui?
– Eu estou terminando de fazer a lista de orçamentos que me pediu.
Estava tão atenta ao meu monitor que só percebi o perigo quando ela puxou a cadeira ao meu lado para se sentar.
Com uma xícara de chá nas mãos e postura perfeitamente ereta, Valquíria Touchon, a inacessível, estava sentada ao meu lado me encarando com curiosidade. Tipo, que?! O que estava acontecendo aqui? Isso não fazia parte do roteiro.
Se eu contar para alguém do escritório, ninguém vai acreditar.
– Você poderia muito bem deixar para amanhã. Sabe disso, não sabe?
– Se eu deixasse para amanhã, iríamos perder meio período até eu chegar e terminar. Agora poderá pela manhã se quiser e quem sabe pela tarde já tem a decisão final para agendar o reparo.
– Você tem um ponto, Valquíria disse e bebericou seu chá com os fixos em mim.
Tenho a sensação que o olhar dessa mulher era capaz de tirar sua roupa e ler a sua alma. Era intimidador e dominante, se ela me pedisse para lamber o chão para eu passar muito provavelmente eu lamberia.
– Você já terminou? – Assenti. – Posso ver?
Estava prestes a virar o monitor em sua direção quando Valquíria se levantou e se inclinou para frente bem ao meu lado. Nesse momento eu gostaria de faz um disclaimer importantíssimo: a mulher mais gata e maravilhosa que já vi na minha vida estava inclinada para frente apoiando o corpo sobre a minha mesa com uma mão, enquanto eu, um mero ser mortal, estava a centímetros de distância dessa beldade. Foi impossível evitar que meus olhos fossem atraídos para o seu decote quase na minha cara, e mais inevitável ainda que eles vagassem para a sua retaguarda.
Como eu ainda não tinha reparado nessa santa raba, eu não sei. Mas agora que reparei só poderia dizer: deus proteja e guarde a abençoada mão que acaricia essa obra de arte que é o bumbum dessa mulher.
– Essa empresa parece ser a melhor opção. Aos menos suas referências passam mais confiabilidade, – Valquíria concluiu e voltou a se sentar. Para que e por que, aí eu já não sei. – Envie uma mensagem para o meu comercial para eu não me esquecer de resolver isso logo pela manhã.
– Eu não tenho o seu número comercial.
Valquíria franziu a sobrancelha surpresa. – Como não? Era para você ter o número de todos. Onde está o seu?
– Eu não tenho um… – respondi com medo de isso virar um B.O. amanhã e todo mundo me culpar.
– Certo, eu vou pedir o Theo para providenciar uma linha para você. Enquanto isso me empresta o seu celular, eu vou anotar meu número e você me envia.
Entreguei o celular na mão de Valquíria ainda incrédula e confusa. Ela estava realmente salvando o seu número comercial em meu celular pessoal, assim do nada.
Ela ainda tirou uma foto do meu monitor e lhe enviou uma mensagem como se fosse a coisa mais natural do mundo. Não deveria ter uma hierarquia nessa empresa? Por que ela tá falando comigo? Comigo!?
– Aqui está, – Valquíria devolveu o aparelho. – Agora ajeita as suas coisas e desligue esse computador. Você não deveria estar aqui a essa hora.
– Sim, eu já vou embora.
– Você vai para a linha azul, correto?
Fiquei tão sem reação que fui incapaz de responder. Como ela sabe disso?
– Eu te dou uma carona. Você mora perto da estação?
– Não, eu pego um ônibus na Conceição.
Valquíria me encarou em silêncio por alguns segundos e se levantou. – D’accord… Eu te dou uma carona até em casa.
Se eu ouvisse um “até a estação Conceição” já acharia um absurdo, mas Valquíria conseguiu ir além.
– Não, não. Não se preocupe com isso, eu estou tranquila. Eu vou pegar o metrô e chego lá rapidinho.
– Eu faço questão. Juste un moment, s’il vous plaît.
Sem aceitar ouvir um não ou esperar pela minha réplica, Valquíria já estava longe indo até sua sala pegar suas coisas.
Juntei as minhas coisas sem entender mais nada que acontecia aqui. Esperava ser um surto e delírio meu, porém, não deu nem dois minutos e a Valquíria voltou com a sua bolsa de baixo do braço.
– On y va, – ela disse me chamando e eu, como uma cadelinha, obedeci.
No elevador um silêncio.
Pensei que iriamos para os andares do estacionamento, mas era óbvio que alguém como ela não iria se dar a esse trabalho quando se tem um valet para te trazer o carro. E de alguma forma eles já sabiam que a Valquíria estava chegando, pois não deu um minuto para estacionarem um Mercedes bem a nossa frente e o manobrista sair em direção a ela,
– Na mão, dona Valquíria – o valet entregou as chaves do carro na mão da francesa. – Eu coloquei para carregar essa tarde,
– Obrigada, Caio – ela o cumprimentou com um aperto de mão.
Detalhe muito importante: Valquíria o cumprimentou e sorriu por mais de três segundos. Valquíria. Sorriu. Por. Mais. De. Três. TRÊS. Segundos.
– Vem, vamos embora.
Com a maior naturalidade do mundo, Valquíria assumiu o volante do carro – que deve ser mais caro que toda a minha existência nessa terra, – e o manobrista abriu a porta do passageiro para mim todo simpático e sorridente. Nunca na minha vida me senti tão desconfortável e com medo de entrar em um carro.
– Você não está planejando ir até a minha casa com um carro desses, está?
– Oui. Qual o problema?
– É perigoso…
– Mais um motivo para eu te levar até lá ao invés de pegar ônibus sozinha a essa hora, – ela me passou o celular dela. – Coloca o seu endereço no Waze.
Essa mulher é louca. Está pedindo para ser assaltada lá no bairro.
– O único Mercedes que passa no meu bairro é o ônibus. Você irá chamar a atenção de todo mundo com esse carro. Não é uma boa ideia, vai ser melhor me deixar na estação mesmo.
– Eu disse que te levaria para casa, não disse? – O olhar que ela me lançou foi o suficiente para entender o recado e apenas aceitar. – Já colocou o seu endereço? – Assenti. – Alors, on y va.
Era isso.
Minha única opção foi aceitar. Confesso que estava com medo de respirar dentro do carro e estragar alguma coisa. Do jeito que sou estabanada, não confio muito não. E qualquer estrago aqui, é um estrago na minha vida inteira. Imagina pagar pelo reparo de qualquer coisas dentro de uma Mercedes dessas? Falência minha e das minhas próximas gerações também.
A sensação de estar sentada ali, no banco do carona do carro da Valquíria, era um tanto bizarra. Embora vivemos no mesmo planeta, vivíamos em um mundos completamente diferentes. As coisas que enfrento todos os dias não existem em seu mundo e a realidade dela é totalmente diferente da minha. Eu sequer conseguia imaginar o que Valquíria faria em seu tempo livre… quero dizer, em partes, agora eu sei algo que ela faz e mesmo assim eu jamais, em hipótese alguma iria imaginar aquilo(!). Mas enfim, quem sou eu para julgar…
Sei lá, na minha cabeça ela era do tipo pacata que lê clássicos da literatura e ouve música barroca enquanto toma seus chás sem açúcar. Eu realmente esperava que fosse tocar um “Cello Suite No. 1 em G maior” quando ela deu play em sua playlist que estava ouvindo antes e achei que fosse um erro ou engano quando começou a batida da bateria e em seguida uma voz feminina que depois identifiquei ser a Beyoncé.
Não era uma música conhecida para dizer que era o aleatório do Spotify e para a minha surpresa, Valquíria estava balbuciando a letra da música enquanto balançava a cabeça discretamente ao ritmo da música. Fiquei até curiosa para saber que música era e liguei o shazam, “Boss – The Carters”.
Todas as músicas seguintes eram da Beyoncé e eu nunca iria imaginar que um dia veria a Valquíria balbuciar a letra de uma música como Blow. Mas também não sei porque fiquei surpresa, nós literalmente nos encontramos em um club de BDSM. O que essa mulher já não deve ter feito e ainda faz…
Engasguei com a minha própria saliva.
Minha imaginação vagou por zonas proíbidas que causou um pane no sistema. Jesus, mamãe, misericórdia, deus!
– Está tudo bem com você? – Valquíria parou o carro no acostamento com o pisca alerta ligado. – Aconteceu alguma coisa? Você está vermelha.
Neguei com o dedo enquanto morria de tossir. Valquíria tentou me ajudar dando uns tapinhas nas minhas costas e me deixou mais nervosa com essa aproximação.
– Beba essa água, por favor – ela me ofereceu sua própria garrafa de água.
Que vexame, meu senhor deus. Será que eu posso descer aqui e ir andando para casa?
– Está melhor?
– Sim, obrigada – bebi mais um pouco da água. – Eu engasguei com a minha saliva.
– Mas o que deu em você para engasgar com a própria saliva?
Minha senhora, pelo amor de deus, não pergunte.
– Eu não sei, – menti.
– Garota, você quase me fez ter um ataque do coração. Tem noção do quão vermelha você ficou?
Você nem faz ideia do porquê.
Deus, me perdoa. Eu vou me comportar.
– Você mora com os seus pais? – Valquíria perguntou de repente mudando completamente o assunto.
– Teoricamente só com meu pai, – Valquíria fez uma careta confusa. – Meus parentes moram todos um do lado do outro e vivem se visitando e se intrometendo na vida alheia.
– Ah… parece os meus. Se minha avó pudesse escolher minha roupa íntima, tenho certeza que faria. Dieu merci, mamie está bem longe lá na França e não tem mais disposição para atravessar o oceano para nos infernizar do lado de cá.
– Você parece tão determinada em tudo que faz, não tem cara de que tem parentes tentando te controlar.
Valquíria me encarou de canto de olho. – Você acha? – Assenti. – Merci, je suppose… eu gostaria que fosse verdade, mas não sou tão determinada quanto parece. E tenho mais pessoas em minha vida tentando me controlar que apoiar. Provavelmente se ainda morasse na França seria ainda pior.
– Com tantos países no mundo, por que logo o Brasil?
– Eu sou franco-brasileira, você sabe, né? – Valquíria me olhou rapidamente. – Meu pai é brasileiro e a minha família paterna todinha também… Eu tenho RG e CPF – ela acrescentou com a minha desconfiança.
A última constatação me deixou mais surpresa. Eu sei que tem gringos que conseguem, mas são documentos diferentes de estrangeiros.
– Eu achei que fosse francesa-francesa e sei lá, decidiu vir para o Brasil?! E tem quantos que você mora aqui?
– Seguidos, uns cinco, quase seis anos. Ao total, uns dez eu acho. Eu me formei em arquitetura aqui, depois estudei dois anos em Paris, voltei para cá. E antes disse eu morei uns anos aqui durante a minha adolescência quando a minha avó estava bem doente e meu pai quis ficar perto dela.
– Não parece, – deixei escapar sem querer e recebi um olhar fatal, não bravo, mas curioso.
– Acha meu português tão ruim assim? – Ela se apoiou no volante e ficou me encarando esperando minha resposta.
– Você fala melhor que o Erick Jacquin.
Ela revirou os olhos balançando a cabeça. – Eu falo bem português… quando não estou nervosa, ansiosa, tensa ou envergonhada… e sim, eu sempre estou ou nervosa, ou ansiosa, ou tensa, ou envergonhada no escritório. Eu sou muito melhor no clube, você vai ver.
– Vou?
Se bem que… já tem momentos que ela fala uma língua só, mas… eu vou ver ela no Apex Club?
– Você não vai trabalhar mais lá?
– Pensei que eu seria banida… sei lá, por te conhecer e tals.
– Eu não vou contar, você vai?
– Não.
– Magnifique! Problema resolvido.
Como se Valquíria tivesse influência sobre o meu corpo, o seu sorriso provocou o meu. Não sei explicar essa sensação que sentia, tampouco porquê sentia. Apenas posso dizer que era bom e seu sorriso passava uma sensação paz gostosa.
– Por que você trabalha no clube? – Valquíria perguntou de repente. Seu tom de curiosidade era de quem estava matutando a pergunta na mente. – O salário no escritório não é o suficiente? Eu pensava que estava acima da média.
– E está… mas eu preciso de grana extra para outros planos… quero me mudar, – completei. – Morar sozinha e essas coisas.
– Morar sozinho pela primeira vez é sempre um evento.
Conversar com a Valquíria era fácil. Muito mais fácil do que achava que fosse. Eramos capazes de conversar sobre assuntos mais sérios e outras casualidades bobas da vida em um curto período de tempo. Por um momento me esqueci de que era com a minha chefe que conversava. Teríamos conversado por mais horas se não tivéssemos no nosso destino.
– Nos vemos amanhã, Clarice. Bonnuit.
– Até amanhã. Boa noite.
Por causa da carona eu cheguei antes do meu pai e fui direto para meu banho. Queria aproveitar a paz de estar sozinha em casa para estudar e fazer uns trabalhos na faculdade. Enquanto respondia as mensagens da Larissa e a Glória, reparei no chat em que a Valquíria enviou a imagem para si mesma.
A sua foto não era nada profissional. A começar pelo cabelo que, normalmente está solto e sem um fio fora do lugar, e na imagem estava a parte de cima preso em um coque e as suas madeixas onduladas estavam organizadas, mas não perfeitamente alinhadas. Ela segurava uma cambuquinha entre as mãos escrito “Valkyrie” e bebia direto dela fazendo uma careta brincalhona com o olhar. Até eu tenho uma foto mais séria que isso, não era possível que essa fosse a foto que ela escolheu para um contato comercial…
Eu não sei porque ela quis assim, mas vai entender essa doida. Eu mesma nem tento, prefiro apenas aceitar e seguir.
Enfim, eu precisava editar o nome do contato. Colocar em letras bem garrafais “CHEFE” para não correr riscos de enviar algo ou deixar os status abertos, aí já viu.
Na manhã seguinte, enquanto assistia minha aula, recebi uma notificação no celular e quando vi um “CHEFE” na frente fui imediatamente ver. Não era nada demais, era só Valquíria reagindo a mensagem com um emoji de check e sua resposta que foi literalmente uma sequência de underline, duas barras, underline. Algo bem assim “—–//—–” e eu fiquei sem entender, mas novamente: quem entende essa mulher? Não sou eu, também não deve ser você.
Cheguei em meu horário habitual no escritório e percebi uma estranha movimentação. Enquanto alguns sorriam empolgados, outros pareciam ansiosos. Alguns contentes e outros com cara de poucos amigos.
Eu logo entendi o motivo da auê todo ao ver o exagerado quadro de projetos em andamento sendo alterado por uma mulher que não conhecia. Ali naquela parede – que na minha opinião era mais uma propaganda para os clientes que aqui vinham – estavam detalhes sobre os projetos principais, as pessoas que trabalhavam neles e seus estágios.
Ali tinha a mansão em Aruba liderada pelo André, um condomínio de luxo aqui em São Paulo liderado por Martin, uma galeria em Nova York liderada por Aline e agora um hotel em Dubai liderado por Valquíria.
E por mais que um hotel em Dubai pareça algo realmente grandioso para causar bafafá, o motivo da movimentação toda era os espaços em branco nos nomes dos envolvidos no projeto, dando a entender que alguém seria convocado para participar. E apesar de todo mundo aqui descer o cacete na parcial-francesa, todo mundo quer trabalhar com ela. Tinha outras vagas nas equipes dos outros arquitetos, mas não eram deles que as pessoas aqui estavam falando.
– Imagina se rola uma viagem pra Dubai. Cê tá doido, – Gustavo comentou.
– Você não iria, com certeza. Você é estagiário, – Igor olhou para os lados e inclinou para falar baixinho; – agora se você souber quem mamar…
Todos riram e quis me jogar da janela. O papo desse povo é tão merda. Me surpreende que para conseguir entrar aqui seja tão difícil e ainda assim temos pessoas assim.
– Quem será que vai entrar?
– Sei lá, só sei que já estou preparando meu portfólio para me candidatar a essa vaga.
– Você acha que ela vai abrir para uma seletiva? Eu não sei não, hein. Aí vai todo mundo aqui disputar pela vaga e vem alguém de Paris.
– Vocês se iludem demais.
Apesar de achar muita hipocrisia meter o pau na pessoa e depois querer trabalhar com ela, achava genuíno o interesse das pessoas em entrar para esse time. Ao menos os estagiários estavam.
Você participar de um projeto foda já é uma abertura de caminhos para o futuro. Um projeto foda ao lado de alguém renomado no mercado, é a oportunidade perfeita para o tal do “networking”. Eu deveria fazer parte das pessoas que estão empenhadas em tentar essa vaga, mas convenhamos: a maioria dos estagiários aqui já tem “berço” e alguns usam o salário só para curtir a vida, já que os pais bancam todo resto. Eu sou a única fodida que não tem um carro e pega metrô por ser a única opção, tem outros três que literalmente moram na linha Amarela e usam o metrô por ser mais rápido.
E eu não quero stress.
Gostosa, gata para baralho, voz sexy, sotaque mais sexy ainda, dá para conversar fora do escritório, mas trabalhando ela é um porre. Eu hein, vou querer trabalhar com alguém que irá jogar meus papéis no lixo e falar que não sei fazer as coisas direito. Haja terapia e dinheiro para os remédios para conseguir sobreviver a isso. Não é atoa que quase não se vê a equipe dela fora do canto deles no segundo andar. Eu mesma não conheço ninguém. E ela só passa por aqui porque a diretoria se reúne no primeiro andar.
O que será que acontece no lado “Rose” do escritório?
– Argh, essa mulher não me responde! – Felipe resmungou revoltado. – Clarice, você quem fez a cagada de agendar a manutenção sem a autorização do pagamento, te vira e consiga isso logo. Eu não vou atrás da outra lá para levar um esporro em francês. Se vira e pede para ela assinar.
– Como?
– Ué, pega esse papelzinho – ele deu a folha na minha mão, – e vai para o matadouro no andar de cima. E boa sorte.
– Eu ir lá?
– Vixi… logo no primeiro dia do projeto? Você está pedindo uma mijada. Eles estão o dia inteiro na sala de reunião, ela não vai gostar nadinha de ser interrompida. Capaz de nem assinar isso aí.
Felipe esfregou o rosto frustrado. – Deixa eu mandar outra mensagem. Nunca que ela vai perder o tempo com uma estagiária agora com um projeto novo… da próxima vez não contrata um serviço sem autorização. Eu poderia te dar uma advertência por isso.
– É muita audácia decidir sozinha e contratar. Torça para não dar nada errado ou implicarem com isso.
– Mas eu só fiz orçamento…
– Não é o que está parecendo… – Felipe assumiu como erro meu sem me dar chances de explicar que eu só passei as opções para a Valquíria e deve ter sido ela quem contratou.
Me sentindo contrariada e frustrada, eu dei a cara tapa e decidi mandar uma mensagem.
“Oi sra. Valquíria…” aí, apaga. Credo.
“Oi, Valquíria. Tudo bem?” E se for informal demais? Ah, quer saber, dane-se. Enviei.
“Estão pedindo a sua autorização para pagar a manutenção da impressora 3D.”
Eu estava prestes a explicar que não fui eu quem chamou os técnicos aqui hoje, mas para a minha surpresa a resposta de Valquíria veio antes.
“Estou na sala de reunião 2”
“Pode trazer para assinar”
– Que merda, ela não olha as mensagens já tem duas horas.
– Ela me pediu para levar na sala de reunião para assinar – eu disse inocentemente.
– Que? Ela te respondeu?
– Sim, – mostrei a tela do celular rapidamente e o Felipe não deu muita atenção tamanha revolta.
– Você está me zoando. Essa vagabunda não me respondeu até agora, olha aqui.
O monitor de Felipe estava aberto no whatsapp, bem na conversa com a Valquíria onde ela realmente não o respondia. Eu só reparei em um pequeno detalhe, a foto do perfil não era a mesma. Enquanto em meu celular a foto era de uma mulher descontraída e talvez divertida, na tela do computador de Felipe, a foto era de uma mulher séria e estritamente profissional.
Entreolhando as telas, percebi que Valquíria havia postado um status. Curiosa, eu abri e era uma foto de um prato de macarrão e uma taça de vinho em cima de um balcão de uma cozinha com uma legenda em francês e um ar muito casual para uma conta de trabalho.
Eu não consigo entender.
Era impressão minha ou Valquíria tinha me dado seu número pessoal? Mas por que?
Definitivamente não dá para entender o que se passa na cabeça dessa mulher…
«-»
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