Elora Aneva

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45. Quarante-cinq

« C L A R I C E »

O desconforto entre as pernas me fez acordar do meu sono agradável. Por um momento pensei em ignorar e voltar a dormir, não seria a primeira – e provavelmente também não era a última – vez em que acordava no meio da noite com a fralda úmida. Normalmente eu sequer acordava em momentos como esse, acostumada com a Val lidando com isso no meio da noite. Dessa vez, porém, o desconforto era muito maior que só a umidade. Estava doendo e ardendo.

Incomodada, eu levantei.

No banheiro percebi que o problema era um pouco pior do que imaginava. De alguma forma, desde a hora que me deitei até o presente momento, conquistei dolorosas assaduras na minha virilha. Já tinha sentido um incomodo – leve – há uns dias, mas isso aqui… como escalou para esse nível tão rapidamente?

Sem tempo – e energia – para questionamentos, optei por apenas me livrar dessa fralda e substituir por uma calcinha, que conseguiu ser tão desconfortável quanto ou pior por ter sua costura bem onde estava ferido. Faltava poucas horas para o meu despertador e eu não me sentia nada pequena para precisar de outra fralda. Vai dar certo… eu espero.

Voltei para cama e me aninhei ao lado da Val – que por um milagre divino não acordou na minha ausência -, e voltei a dormir.

Estava quase no estado de sono profundo quando senti uma mão me tocar no centro entre as minhas pernas e fazer arder minha pobre florzinha.

– Valquíria, o que você está fazendo?

– Pardon! Pardon! Où? Où est ta couche?

– O que?

Ela acendeu o abajur e levantou a coberta desesperada. – Onde está a sua fralda?

– Eu tirei.

– Mas…, mas ainda é madrugada. Por que tirou? Eu, eu… eu achei que ainda estava usando. Eu fui conferir se precisava trocar. Me perdoa, meu amor. Eu não quis te causar nenhum desconforto. Pardonne-moi.

A Val estava vermelha e desesperada. Provavelmente pensando que eu estava brava por ter me tocado enquanto eu estava dormindo.

– Ei, Val. Calma, relaxa. Eu sei que não fez com maldade. Está tudo bem, – toquei no rosto dela para a acalmar. – Está tudo bem. Você literalmente me deu banho quando eu estava no hospital, eu não ligo se me tocar. Eu confio em você e sei que não vai me fazer algum mal…, mas se for me tocar enquanto durmo, eu prefiro que seja nada sexual. Quero estar acordada em momentos como esse.

– Oh, oui. D’accord, d’accord… eu também… eu não gosto de sonofilia. Se eu tiver dormindo, não tente iniciar nada sexual comigo. Meu cérebro não processa contato físico da mesma forma durante o sono e o que é bom acaba sendo desconfortável e dá agonia, – Val parou um momento pensativa. –  Mas se você acordar e precisar do seu tété enquanto eu estiver dormindo, eu não vou ligar… na verdade, eu vou preferir que me deixe dormindo.

– Você não deveria ter liberado o acesso assim, – eu disse afundando meu rosto contra os seios de Val. 

– Eu ainda posso revogar a qualquer momento.

– Você não seria maldosa assim.

– Não me teste.

E eu não iria mesmo.

Algo dentro de mim dizia que a Val não estava brincando e eu que não seria louca de testar.

– Ainda tem pouco mais de duas horas até a hora de levantar, não quer que eu coloque uma fralda?

Senti meu rosto queimar de vergonha. – Não… eu vou ficar bem.

– Tem certeza?

– Tenho, – respondi ainda mais envergonhada.

A Val pode estar cansada de me ver de fralda, mas pensar nisso me deixa um pouco envergonhada. Sabe, ela é a minha namorada e está preocupada sobre uma possível fralda molhada ou um acidente. E por mais que eu goste da ideia de ter acesso liberado aos seus seios, o fato de isso estar associado ao fato de que ela me amamenta também me deixa levemente envergonhada.

E logo, logo, a Val irá me amamentar em todos os termos, incluindo o leite… é algo que eu quero muito dentro ou fora do pequeno espaço, mas é vergonhoso admitir que talvez eu realmente goste das coisas de pequena mesmo não me sentindo tão pequena assim.

– Tem certeza que ele irá ficar bem? – Perguntei receosa.

Val e eu estamos em frente da minha faculdade. Eu deveria sair e entrar para a minha aula, mas havia duas coisas me impedindo: Chloée indo para a creche a primeira vez e a Val usando conjunto de tênis feminino. Eu não sabia que precisava ver a minha namorada jogando tênis até a ver com o uniforme nada conservador. Às vezes é difícil acreditar que essa mulher é a minha namorada…

– Ma vie, confie em mim. Será melhor assim. O Chloée precisa ser adestrado e alguém que cuide dele enquanto estivermos fora durante o dia. A creche é a melhor opção.

– Mas ele é tão pequeno… e se os outros cachorros forem maiores e machucar ele?

– Eles são separados por porte e o Chloée ficará bem. Agora vá para a sua aula ou irá se atrasar. Eu também tenho horário.

– Ok, ok… eu vou. Até depois, – eu dei um beijo rápido na Val. – Tchau, meu amor – segurei o rostinho do Chloée entre as mãos e dei um beijo demorado na sua cabeça.

– Você só pode estar brincando com a minha cara, – a Val disse levemente irritada.

– Por que?

– Vai para aula, Clarice. Conversamos mais tarde.

– Ah… então está bem. Até depois, te amo!

– Também te amo, bébé.

Ver meus dois amores indo embora sem mim deu uma dorzinha no coração, mas saber que em poucas horas estaria com a minha namorada mais uma vez me deixava animada. Ficar uma semana sem a Val foi o suficiente para tornar qualquer despedida algo doloroso e triste, mesmo que por algumas horas.

Por incrível que pareça, minha manhã na faculdade foi ótima. As aulas foram interessantes e minha turma parecia mais disposta e animada que o normal, o que é raríssimo em uma segunda-feira pela manhã.

– E aí, loirinha – o Diego me abordou durante o intervalo e se sentou na mesa onde estava Marina e eu. – Você vai no festival ou ainda estar na sua fase de idosa?

– Festival?

– De rock, – Marina respondeu. – O Igor da nossa turma vai tocar com a banda dele. Lembra?

– Quando vai ser?

– Sexta, sábado e domingo. Mas eu só vou sexta e sábado, – Diego disse.

– Eu acho domingo o melhor dia, – Marina respondeu empolgada.

– Ela fala isso porque quer pegar todo mundo que vai tocar e não pelas as músicas.

– Eu não tenho culpa se todos eles são uns gostosos… aliás, conheço umas lésbicas que servem muito e estão solteiras, se quiser que eu desenrole algo para ti – Marina disse para mim e eu fiz uma careta.

– Já estou muito bem servida pela a minha namorada, valeu.

– Você está namorando?! Desde quando?

– Desde muito tempo. Uns seis meses pelo menos.

– E você nunca falou nada esse tempo todo?

– Eu nasci em Minas Gerais, eu como quieto.

Marina revirou os olhos balançando a cabeça. – E você vai levar a sua namorada para o festival para a gente conhecer?

– A minha namorada em festival? – Eu ri. – Ia ser uma tortura para ela, coitada. E também não sei se ela vai curtir muito a ideia de eu ir e eu não quero dores de cabeça para o meu lado. Então, mesmo querendo ver o Igor tocar, acho que ficará para a próxima.

– Você é cadelinha nesse nível?

– Se você soubesse o quão gata é a minha mulher iria se surpreender com o fato de eu não andar por aí de quatro.

Apesar de ter música boa, ser divertido e ter muita opção de comida, o festival também é um lugar onde as pessoas ficam bêbadas, se conhecem e se pegam. Quase uma extensão dos eventos da faculdade que não tem uma fama muito boa. Ou seja, mesmo querendo ir pela música – e a comida boa – minhas expectativas da Val concordar eram nulas. Não que eu cometa muitas loucuras, mas não colocaria minha mão no fogo por essas pessoas aqui. As duas únicas vezes que consegui ir foram antes e depois de me relacionar com a Diana, por exemplo. Qualquer possibilidade de cogitar ir era motivo de surtos e briga. O que era muito irônico, afinal, nos conhecemos por causa dos meus “rolês de faculdade”.

Sinceramente? Eu não estava muito empolgada para ir. Entre ir ao festival e ficar fazendo vários nadas ao lado da Val, a segunda opção é a melhor. Entretanto, por causa do nosso acordo, eu decidi testar para ver. Ela quer mandar em mim e eu não quero me sentir presa e muito menos sufocada.

E por falar na Val, de repente recebi uma notificação de mensagem dela e rapidamente peguei o celular, mas quando vi que era uma imagem fiquei com medo. A julgar pelo histórico de imagens enviadas pela a minha namorada, abrir algo em público era arriscado demais. Felizmente – ou não tanto felizmente assim – era uma imagem sem ser de visualização única e considerando que nesse momento ela está trabalhando em seu escritório, estava seguro. 

A mensagem dizia: “Je pense que j’ai fait la plus jeune maman allaitante” que de acordo com o tradutor do celular significava: “eu acho que me tornei a mais nova maman lactante”. E em seguida estava a foto do que parecia ser uma mini mamadeira, provavelmente das bombinhas, com um pouquinho de leite. A quantidade era bem pouca, mas era definitivamente mais que uma gota. Talvez um gole… um gole feliz… e eu estava perdendo tudo.

“Eu não acredito… essa manhã você não me deu nada para tirar esse tanto no escritório. Você me odeia ou são os seus peitos?”

Val respondeu com uma figurinha de gatinho sério. “Nenhum dos dois… ainda.”

“Ainda? Por que?”

“Talvez você devesse perguntar ao seu cachorro”.

 Não entendi o que quis dizer e também não pude perguntar. O breve intervalo havia acabado e precisava voltar para a sala. A maioria dos professores na faculdade estão pouco se lixando se você está presente, mas o professor da próxima aula era chato e insuportável. Não tolera um minuto sequer de atraso e era justamente a disciplina que mais me prejudiquei enquanto estava no hospital. Em outras palavras: eu precisava caçar meu rumo. Nossa conversa ficaria para mais tarde.

Após as aulas, Glória veio encontrar com Larissa e eu para almoçarmos juntas antes do trabalho. Se tivéssemos tempo para uma refeição completa, iriamos em um restaurante decente comer comida normal, mas como não tínhamos essa disponibilidade, optamos por fast-food. Mas por incrível que pareça, ficaria mais feliz comendo um prato de comida feito pela Val.

– Você está gostando do trabalho, Laris? – Perguntei assim que entramos no saguão do prédio.

– Estou trabalhando com um projeto de iluminação de uma exposição no museu e é muito mais legal que construção civil.

– Deve ser mesmo…, mas eu gosto do que eu faço, – dei um gole na minha garrafa de água enquanto refletia sobre meu trabalho, – exceto a parte de cálculos, isso eu não gosto não.

– A sua vantagem é que a sua chefe é a sua namorada e ela pode te poupar do sofrimento.

Poupar? Poupar?! 

– Acho que não estamos falando da mesma mulher. Se tem uma coisa que a Val não faz é me poupar. Regalias e certos benefícios? Sim, pode até ser. Agora, poupar… aquela ali só não trabalha com chicote na mão e não nos prende no porão porque bater com chicote e ficar no porão deixaria suas roupas amassadas e sujas.

Laris riu. – O Theo diz a mesma coisa.

– Viu só, é um consenso. O que minha chefe tem de gostosa tem de chata, mas eu também não troco.

– Você é um caso perdido, Clarice.

– Sinto que ouvi isso recentemente.

Nós estávamos no elevador e pelo horário parávamos em quase todos os andares, ou seja, a viagem era longa.

– O meu pai me convidou para ir visitar ele nesse recesso de fim de ano.

– E você vai?

– Tem alguns anos que não vou ao Ceará, acho um bom momento.

– Mas você vai voltar?

– Tenho 90% de certeza, mas se quiser garantir 99%, você pode vir comigo.

– Ir com você para o Ceará?

Vixi… isso vai ser mais difícil que ir para o festival. Não que eu queira também. São três ou quatro horas de voo, até parece que eu vou me submeter a isso. Nem pensar, estou segura e confortável em terra.

– Isso se já não tiver planos com a sua mulher. Do jeito que ela é, não duvido que já tenha todo o recesso planejado.

– Ela tem?

A porta do elevador se abriu no nosso andar e interrogação ficou na minha cabeça.

Eu nem tinha pensado no feriado de fim de ano. Muito provavelmente a Val queira passar o natal com a sua família e considerando que todos estão no Rio de Janeiro, ela irá viajar. Bom, entre três horas de avião e seis de carro, eu prefiro pegar a estrada e ficar com o meu amorzinho.

Larissa e eu nos despedimos quando chegamos no escritório. As mesas no meu local de trabalho estavam vazias, provavelmente todo mundo saiu para o almoço mais tarde. Porém, conseguia ouvir a voz rouca – e sexy – da minha francesa favorita vindo de sua sala e não perdi a oportunidade para a perturbar.

– Oi.

Ela levantou o olhar para mim e sorriu. Sem interromper o que estava falando ao telefone, ela fez um sinal com as mãos para eu fechar a porta. Embora não fosse capaz de entender totalmente o que estava falando, sabia que estava encerrando a chamada só porque cheguei. Não que fosse necessário, eu poderia facilmente esperar.

– O que está fazendo aí tão longe? Vem cá.

O “longe” em questão era a poltrona de frente para mesa. Eu me levantei e me aproximei sem saber ao certo onde queria que eu me sentasse já que a própria mesa estava cheia de seus papeis e projetos.

– Já estava morrendo de saudades, – ela disse me puxando para o seu colo e em seguida afundando rosto contra o meu pescoço. – Como foi a aula essa manhã?

– Foi estranho.

– Pourquoi?

– Porque parte de mim ainda não estava acreditando que iria te encontrar aqui e que você realmente voltou de Paris.

– Mas eu estou aqui agora e com saudades, – Val disse beijando o meu pescoço me causando arrepios.

A princípio pensei que ficaríamos por isso até sentir sua mão subir pela minha coxa e eu perceber suas reais intenções. Aqui. No trabalho. Quando alguém pode chegar a qualquer momento… e confesso que se não estivesse com assaduras que estavam causando desconforto lá em baixo, eu provavelmente teria embarcado na sua loucura.

– Val!

– Hm?

– Alguém pode entrar a qualquer momento. Você enlouqueceu foi?

– Um pouco, talvez.

Revirei os olhos. – Não, você deveria ser a mais responsável aqui, – afastei sua mão da minha coxa e o olhar de Val foi indecifrável; ela estava se divertindo da minha reação e ao mesmo tempo nada contente? Não fui capaz de opinar. – Vai ter um festival de rock esse final de semana – mudei de assunto de repente.

– E?

– E os meus colegas da faculdade vão.

– D’accord… e?

– Eu quero ir também.

– Okay, um festival de rock… d’accord… e você quer que eu vá com você? – Val perguntou confusa e receosa.

– Eu sei que você não se dá bem nesse tipo de ambiente, não se preocupe. Eu só queria saber se irá deixar já que agora por causa do nosso acordo preciso da sua permissão.

– Ah, d’accord, d’accord… se é só isso, pode ir.

A encarei desconfiada. – Assim tão fácil? Isso não é uma pegadinha, é?

– Hm, non? Ma vie, se está tudo para você que eu não vá junto, então não temos problemas algum aqui. Você pode sair com os seus colegas da faculdade, contanto que siga as regras.

– Que são?

– Sem drogas. E quanto a isso não há discussão. Exceto álcool. Você pode beber se quiser, mas com moderação. E nada de dormir fora ou pegar caronas, principalmente se o motorista em questão tiver bebido. Nem que seja às quatro da madrugada, eu prefiro que me ligue para te buscar e levar para casa.

– Mas… você não vai ficar com ciúmes? Brava ou sei lá… brigar comigo por querer ir a esse lugar?

Val me encarou um momento. – Clarice, quem está com você agora sou eu; Valkyrie. Lembra? Eu não sou nenhuma das suas ex’s loucas. Eu me garanto e sei que não irá me trocar por outra baranga sirigaita… até porque se fizer isso, irá conhecer a versão da sua maman brava ponta para te dar boas palmadas com uma palmatória até aprender sua lição: tu n’appartiens qu’à moi et à personne d’autre.

Ela sussurrou a última parte no meu ouvido. Parte de mim suspeita de que Valquíria, ou melhor, Valkyrie sabe o efeito que tem sobre mim quando usa sua voz roupa sussurrando em francês em meu ouvido. Ela pode me mandar catar coquinhos e eu acharei sexy o suficiente para deixar minha calcinha enxarcada.

– Qual a minha lição?

– Você pertence somente a mim e mais ninguém. 

Sexy. Definitivamente sexy.

– Allors, se você irá ao tal festival significa que terei que arrumar outros planos para mim. Que dia é o festival?

– Sexta, sábado e domingo.

Val mudou o semblante. – Você não está planejando ir todos os dias, está? Eu vou acabar mudando de ideia.

– Só vou no sábado e mesmo assim não vou o dia inteiro. Eu ainda preciso recuperar o tempo longe de você.

– Boa menina, – Val sorriu e colocou uma mexa do meu cabelo atrás da orelha. – Quer sair para jantar comigo essa noite?

Choraminguei sem saber de onde veio isso de dentro de mim e deitei a cabeça no ombro da Val. – Não… eu quero comer a sua comida.

– Certo, – ela me abraçou e acariciou os meus cabelos. – E o que quer comer?

– Faz aquele macarrão da primeira noite? Por favorzinho?

– Oui, mon bébé. Eu faço.

Val me aperto um pouco mais nos seus braços e a sensação que tive era que estava me desmanchando em seu colo. Não era o local e nem o momento mais apropriado para isso, mas a memória sensorial de ter o tetê na boca só me fazia querer mamar só um pouco antes de começar o dia.

– Ma vie, o pessoal deve voltar a qualquer momento. Eu preciso que fique grande outra vez.

– Mas eu não…

Meu deus! Eu quase escorreguei.

– Não se preocupe, meu amor. A parte chata do seu trabalho irá te deixar bem grandinha.

E nisso ela tinha razão.

Qualquer resquício de pequinês saiu do meu corpo no momento que me deparei com uma pilha de documentos para lidar. Diante tamanha chatice e tédio, é impossível ser pequena.

Com meus fones de ouvido e totalmente concentrada no trabalho, eu não vi o tempo passando. Só parei quando senti minha garganta secar e me deu vontade de beber água, porém, quando fui pegar a minha garrafa no seu lugar de sempre percebi que não estava lá. E também não estava no outro canto da mesa. Procurei na mochila e não encontrei.

É sério que eu esqueci na faculdade? Não acredito! Eu gastei um rim nessa merda por causa da Glória que insistiu que precisávamos de algo térmico e que fosse decente – e que pudesse traficar nossas bebidas nas festas que costumava trabalhar… no meu caso, bebidas não alcóolicas, mas enfim, bebidas.

Droga. Só porque minha namorada é rica, não quer dizer que eu também seja. Eu parcelei essa garrafa, era a minha herança para os meus filhos. Como eu posso ter sido idiota a esse nível?

Já estava me xingando mentalmente genuinamente indignada e muito brava comigo mesmo porque tinha certeza que acabaria comprando outra igual e eu sou totalmente o Julius de Todo Mundo Odeia o Chris. A única vez que gastei sem sentir a dor por cada centavo foi para fazer o quadro da Val.

Estava imersa nos meus pensamentos e revolta que não percebi o que acontecia ao meu redor, nem que a Val tinha saído da sua sala e que estava apoiada na ponta da mesa discutindo com o Theo e a Amanda algo. Mesmo de costas, a minha namorada era tão linda. Até passou a minha raiva…, porém, o que me fez abrir os olhos surpresa foi ver a minha garrafa perto das canetas, ao lado do outro monitor perto do meu.

Mas…?

Eu não olhei ali?

Sem pensar muito, peguei a garrafa e dei um gole do resto de água que tinha ali. Quando o líquido tocou a minha língua eu quase engasguei de susto.

– Tudo bem aí, Clarice? – Val me olhou por cima do ombro, a expressão mais neutra que a minha sogra, mas seu olhar… ela fez de proposito.

– Uhum, eu engasguei com a… água.

– Normal, – Theo riu balançando a cabeça.

Agora ciente do que realmente tinha dentro da garrafa, eu bebi sem sustos. Em algum momento que eu não vi, Val trocou a água da garrafa pelo o seu leite me pegando totalmente desprevenida. Infelizmente, a surpresa – maravilhosa – durou pouco e deixou um gostinho de quero mais.

Peguei meu celular e enviei uma mensagem para ela: “você uma filha da xuxa, nem para me avisar”

“C’était bon, ma vie?” (Estava bom, minha vida?)

“Quero mais… ainda tem?”

“À la maison” (em casa).

Adoro como ela faz essas coisas comigo e segue a vida como se nada estivesse acontecendo, discutindo trabalho e dando ordens sem se afetar em nada. Enquanto isso eu estava aqui tentando extrair até a última gota do leite.

É docinho, quente, bom… se eu já era completamente louca por essa mulher só por ser como é, imagine agora que estou viciada em seu leite? O que vai ser da minha vida? Eternamente cadela da Val? Muito provavelmente sim.

« V A L K Y R I E »

E quando você irá voltar para a França? – A pergunta da minha mãe no telefone me deixou desconfortável.

O acordado era que eu voltasse a França em alguns dias, no entanto, ainda não encontrei oportunidade para introduzir o assunto com a Clarice. Planejava fazer isso essa noite durante o jantar. Pensei que com boa comida e quem sabe um pouco de leite seu coração estaria mais inclinado a aceitar a minha proposta, mas tudo foi por água abaixo quando durante o jantar ela me soltou a seguinte bomba:

– A Laris me convidou para ir com ela no Ceará.

Nesse momento, meu alerta amarelo se acendeu. Se Clarice quiser ir com a sua família, eu não poderia a impedir. Sofreria com a sua ausência, mas é a sua família. Dei um gole no meu vinho para empurrar o amargor da saudade antecipada goela abaixo.

– E você quer ir? – Perguntei com certo receio da sua resposta.

– Eu? Ir para o Ceará? – Clara riu. – Até parece que eu vou ficar quatro horas num avião. Quero não, obrigada.

– E se fosse para Paris?

– Quatro horas de voo para Paris?

– Doze… onze horas e vinte minutos para ser mais exata.

Clarice ficou paralisada por um momento muito longo aumentando a ansiedade dentro de mim.

– Por que está me perguntando isso? Você não está planejando em voltar para Paris já, está? – Fiquei em silêncio sem entender se Clarice estava magoada ou não com isso. – Você chegou ontem, – ela acrescentou.

– Je suis navrée (eu sinto muito).

– Já tem uma data?

– Je ne sais pas, ma vie (eu não sei, minha vida). Em uma semana, não sei. Já foi difícil conseguir vir para cá agora. Com toda situação da minha grand-mére, todos decidiram reunir no Château de Touchon para o natal.

– O que é isso?

– É o vinhedo onde meus pais moram em Épernay. Não é como a fazenda da vovó e provavelmente não deve ser tão divertido quanto, mas terá a mim… e os seus tetês por perto.

A última parte foi eu tentar apelar e convencer a Clarice a encarar uma noite inteira dentro de um avião. Infelizmente eu não tenho escolha a respeito disso, eu preciso estar no natal em família ou serei infernizada durante anos. E muito pior que isso, se por acaso algo acontecer com a minha mamie eu nunca vou me perdoar por não estar lá com ela. Mas também não queria estar longe da minha petite. Então se Clara se recusar, eu vou sofrer e muito.

– Eu… eu – Clara cutucou a comida com o garfo imersa em seus próprios pensamentos. – Não tem como ir de outro jeito?

– De outro jeito? Clarice, sabe que existe um oceano entre a América e a Europa, certo? Não dá para ir de carro. E nessa época do ano não tem navios fazendo travessia para lá e mesmo que tivesse, eu não quero passar cinco dias ou mais cruzando o oceano.

– Cinco dias?!

– Mon amour, – peguei a mão de Clara sobre a mesa. – Eu realmente quero que vá comigo. E se aceitar, eu prometo que irei cuidar de tudo para que experiência seja a menos traumática possível, mas se for pedir demais a você e não quiser ir, eu vou entender. Morrendo de saudades e sofrendo muito, mas vou entender. Você não é obrigada a nada.

– Mas se eu não for significa que vou ficar mais um tempão longe de você… e sozinha aqui porque todo mundo vai visitar a família e eu… e eu… e eu…

– Amour. Calma, respira.

Clara olhou para mim. – Eu tenho medo.

– E se te der um remédio para dormir? Eu normalmente não tomo porque gosto de estar desperta, mas você pode dormir a viagem toda se quiser. Eu vou estar ao seu lado e posso te abraçar o tempo todo. Vem comigo? S’il te plaît, mon amour. (por favor, meu amor). Eu preciso de você comigo.

Eu não sou muito boa em fazer caretas, mas dessa vez arrisquei até um olhar de gato de botas para a convencer, pois eu quero muito que Clara esteja comigo. Não quero aturar tanta gente chata sozinha, eu vou precisar do meu amor por perto para foder todo o stress fora de mim após os encontros familiares. Egoísta da minha parte? Sim, muito. Mas também não é como se Clara fosse tirar proveito disso.

– Você sabe que eu sou naturalmente incapaz de dizer “não” para você, fazer essa cara é jogo sujo, – Clara puxou a sua mão de volta para mim encerrando o nosso contato. – Eu vou, mas só por sua causa… eu sei que não se sente tão confortável por lá, eu não vou te deixar passar por isso sozinha. Então não pense que sou uma interesseira me aproveitando de você e o seu dinheiro, tá? Se fosse só por mim, eu ficaria por aqui mesmo e com os pés bem firmes nos chãos.

Putain… e eu achando que meu problema seria só o voo, acabo de me dar conta que depois terei que lidar com uma dor de cabeça ainda maior: Clarice se sentindo deslocada.

A minha família é muito diferente da família paterna. Não existe acolhimento, existe regras de etiqueta e aparências. Minha mãe é – parcialmente – uma exceção a regra por causa do meu pai, ela precisou mudar muito dos seus costumes e manias para conquistar o seu Fernando. E eu insisto em dizer que só deu certo por causa do golpe da barriga – vulgo eu – caso contrário, meu pai nunca teria se submetido é isso. Eu nasci uma Touchon e às vezes odeio isso.

– Já estamos juntas tempo o suficiente para eu saber que está comigo por amor e não por dinheiro. É mais fácil eu te conquistar com um prato de comida…

– Ou seu leite, – Clarice acrescentou me interrompendo.

– Ou com o meu leite que presentes caros ou qualquer outra coisa que dinheiro possa comprar.

– Só tem um presente caro que você me deu que eu aprecio…

Mas eu nunca te dei um presente caro.

– O Chloée.

Respondemos ao mesmo tempo e nos encaramos em silêncio em seguida. Sorri amarelo.

Clarice considera o Chloée um presente caro, enquanto o meu ex-noivo me deu gelo por dias por ter errado o modelo do Rolex que queria. Eu escolhi o que achei mais bonito e ele queria outro por ser mais caro, como se o modelo que lhe dei não fosse mais caro que um apartamento.

E tem a Lamborghini.

Eu odeio carros baixos. Nada é mais desconfortável para mim que me sentir presa dentro de um e putain… como eu odiava toda vez que o Pedro Henrique insistia em dirigir aquela lata de sardinha para seja lá onde tínhamos que ir. Já houveram ocasiões que fomos em carros separados só porque não queria ir na Lamborghini.

Sinceramente, eu até hoje não consigo entender o que se passava na minha cabeça para não só me submeter a muita coisa como também patrocinar muitas das minhas próprias torturas.

– Enfim, esqueça isso, meu amor. Eu não quero que pense besteiras, d’accord? Eu sei que você me ama. E se alguém disser o contrário, você ignora.

– Bem, eu tenho certeza que quando vier à tona no escritório todos vão achar que é por interesse.

– E todos eles estarão errados. Ma vie, nós duas sabemos que você me deixou miserável por duas semanas porque não queria nem sequer olhar para mim. Você não facilitou para mim e até mentiu para não admitir que eu fiz o melhor cookie só para não dizer que sou o amor da sua vida.

– Você falando assim faz parecer que eu fui muito maldosa.

– E não foi?

– Um pouco, talvez.

– Ganhar um Pritzker foi mais fácil que conseguir a sua atenção. Qualquer outra pessoa com algum interesse teria cedido mais fácil.

– Para não sermos injustas, eu sempre tive interesse nos seus peitos… e na sua bunda.

– Era o que estava no alcance dos seus olhos, né mon amour?

– Você… isso foi cruel.

A careta de Clara me fez rir.

Ela é definitivamente a pessoa mais baixinha que já entrou na minha vida… que não esteja em fase de crescimento. Antes dela, todas as pessoas que me envolvi romanticamente era no mínimo na mesma altura que a minha e a maioria mais alta. Não me leve a mal, eu só tinha preferência por coisas grandes… e aí veio a Clara, com seus 1,54m para me fazer descobrir que gosto muito mais de abraçar a minha baixinha.

Minha baixinha feita sob medida para me fazer morrer de amores e ao mesmo tempo levar a loucura… em todos os sentidos. Confesso que me surpreendi quando a vi nua a primeira vez. Clarice esconde suas curvas muito bem em suas roupas maiores que o seu tamanho e eu sinceramente não esperava que de baixo delas fosse encontrar uma mulher muito, muito, muito atraente aos olhos e sensual. Um verdadeiro atestado de lésbica e que agora estava viciada.

– Valkyrie!

Levei um pequeno susto ao ouvir meu nome. – Pardon?

– Você ouviu alguma coisa que eu disse? – Uma interrogação surgiu em minha testa.

– Estava dizendo algo?

– Eu não acredito que você não prestou atenção em nada que eu disse por causa dos seus pensamentos sórdidos!

– Eu não…

– Valquíria, você estava mordendo os lábios me devorando com o olhar – ela balançou a cabeça e estalou a língua. – Eu espero esse comportamento de mim, agora você? Onde estão os seus modos?

– Tem sido dias difíceis.

– Longe de mim? Eu posso ver… e resolver, – Clara se inclinou para perto de mim e sussurrou no meu ouvido; – eu vou cuidar de você essa noite.

– Na verdade, estou mais interessada em eu cuidar de você essa noite, – acariciei sua coxa com as pontas dos dedos, – estou com saudades de tocar o seu corpo e te sentir em meus dedos.

Clarice se afastou, seu rosto estava corado envergonhada.

– Vamos ver.

– Vamos ver?

Que tipo de resposta é essa “vamos ver”?

Sem mais, Clarice voltou a devorar seu prato como se nada tivesse acontecido o que era bem atípico dela. Sou eu quem faz o papel de seguir como se nada tivesse acontecendo, essa é a minha especialidade.

Terminamos o jantar e depois de lidar com as louças fomos para o sofá da sala. Ainda era cedo para dormir e eu queria aproveitar ao máximo o tempo a sós com o meu amor. Tínhamos muitos assuntos sérios para conversar de tantas coisas que andaram acontecendo ao mesmo tempo. Porém, eu tinha outras necessidades mais urgentes para lidar primeiro.

– Tu m’as beaucoup manqué, mon amour – eu disse roçando os lábios contra o pescoço de Clarice. – Senti muita, muita, muitas saudades de você. O dia inteiro. O tempo todo.

Clara me envolveu pela nuca e acariciou os meus cabelos. – Não ouse ir para longe de mim outra vez.

– Non, eu vou te levar para onde quer que eu for.

– Será que você pode evitar um pouco de ir para qualquer lugar? Eu não quero ficar me submetendo a voos, especialmente os muitos longos.

– Tentarei o meu melhor, mon amour.

Não resisti mais nenhum segundo longe dos lábios de Clara e capturei sua boca com a minha em um beijo suave, romântico. Cada ponto onde nos tocávamos pareciam ter virado brasa: sua coxa pressionando a minha, seus dedos traçando a linha da coluna sob a blusa, sua mão em meus cabelos. Meu corpo estava incendiando, pedindo por mais. Eu precisava sentir seu gosto em minha boca e o seu calor envolvendo meus dedos. E foi em busca de saciar essa sede que deixei minhas mãos livres para explorar seu corpo.

Foi no momento em que meus dedos encontraram a barra dos seus shorts, Clarice virou o rosto interrompendo o nosso beijo.

– Val, espera.

– Muito rápido? – Perguntei lhe dando beijos nos ombros e pescoço. – Eu posso ir mais devagar.

– Não… eu… Val… – Clara me afastou um pouco empurrando de leve pelos ombros. – Coentro, – seu rosto ficou vermelho e então desviou o olhar, – eu… eu não quero – ela continuou com certo receio em suas palavras, – desculpa.

A observei por um momento paralisada no mesmo lugar sem mover um músculo para não ampliar seu desconforto. Nesses segundos a minha mente criou diversos cenários e possibilidades em busca de respostas.

– O que foi? Aconteceu alguma coisa? Está tudo bem?

– Não, não aconteceu nada. Eu só… não quero isso hoje. Desculpa.

– Você não precisa pedir desculpas por isso, ma vie – segurei seu rosto entre as minhas mãos a fazendo olhar para mim outra vez. – Não peça desculpas por isso, d’accord? – Ela concordou com a cabeça, porém seu olhar ainda carregava outro pedido de desculpas. – Me explica, eu te machuquei? Foi algo que te fiz e te deixou desconfortável?

– Não, não é você. Eu prometo que não é nada que você fez.

– Okay… então foi algo que outro alguém te fez?

– Também não. Não é nada. Eu só… não quero fazer isso hoje.

Sentei outra vez no sofá para dar espaço a Clara sem que meus olhos se desviassem dela. – Tem certeza que não é nada? Talvez cólica ou algo do tipo?

– Não.

– Você não está assim pelo o que aconteceu de madrugada, está?

– O que aconteceu de madru… oh! Oh! Não. Definitivamente não. Eu nem estava lembrando disso, – Clara fez impulso para frente ficando próxima de mim e segurou meu rosto entre as mãos. – Não fique paranoica com isso. Acredite em mim quando eu digo que não tem nada, sou apenas eu que não quero isso hoje. Eu não quero sexo, quero amor e mimos.

Queria ser convencida apenas por isso, mas algo em mim se mantinha bastante desconfiado e incrédulo. Eu conheço muito bem a minha namorada, sua resposta jamais seria simplesmente “nada” … ao menos não para sexo. Ela provavelmente diria seu real motivo mesmo que ele seja “estar cansada”, “com fome” ou só “preguiça”. Agora “nada”? O “nada” da Clarice sempre é “tem alguma coisa, mas não quero te falar”

Bom, pelo menos a Clarice grande funciona assim. Escondendo sentimentos e fazendo piadas fingindo que está tudo bem. Já a sua versão pequena… a ma petite não esconde segredos da sua maman.

– Oh, o mon bébé só queria a atenção e os mimos da maman, – eu disse a puxando para o meu colo.

– Bem, não era bem assim que eu…

– Vem cá, ma petite. Você já passou o dia inteiro sendo obrigada a ser grande, deixe a maman cuidar de você.

– Não fala assim comigo.

– Por que? Você não quer que a maman cuide de você?

– É que… – Clarice hesitou.

Sua hesitação foi a minha confirmação. Clarice está escondendo algo.

– A maman ser rejeitada pela a Clarice grande é aceitável, mas a minha petite rejeitar a maman? Isso dói. Dói muito. Você está machucando o coração da maman.

– Naum… o neném num rejeitou a maman, – Clara fez bico e seus olhos marejaram de lágrimas. – Num pode fazer dodói na maman! Desculpa eu?

E voilà… aí está a minha pequena.

Talvez eu tenha pesado um pouquinho na hora de empurrar, mas deu certo e vou a compensar com muito amor, carinho e atenção.

– Está tudo bem, mon bébé – a abracei esfregando suas costas ao mesmo tempo que acariciava seus cabelos. – Você não fez dodói na maman. Está tudo bem. Não chora, bebê.

Sem sombra de dúvidas, ficar uma semana longe da minha pequena a deixou ainda mais sensível a ponto de chorar por algo como isso. Parte de mim se sentiu ainda mais culpada por ter pesado a mão ao empurrá-la para o pequeno espaço.

– Deita aqui, meu bebê – puxei suas pernas para que ficasse deitada em meu colo, – a maman não fez a sessão dessa tarde para deixar o pouco do leite para você direto do tetê. Você quer mamar um pouquinho? – Clara concordou com a cabeça.

Tirei a camisa que usava e abri o sutiã por trás. Clara observou tudo com os olhos bem atentos apenas aguardando o seu momento. O fato de ter esperado já era um sinal que a minha bebê estava manhosa e necessitada da sua maman. Eu não seria má em a deixar esperando ainda mais e logo lhe ofereci o seio na boca.

Clarice abocanhou o peito e suspirou se derretendo em meu colo. Ela se entrega tão fácil por um tetê. Para o meu. Essa bebê aqui é só minha.

Demorou um pouquinho, mas depois de algumas sugadas insistentes, senti uma leve formigação e pelo olhar de Clarice para mim, ela finalmente tinha conseguido o que tanto queria: o leite.

Acariciei seu rosto com as pontas do dedo e a aninhei para mais perto de mim. Nossos momentos assim já eram únicos e especiais, porém esse adendo tornou ainda mais único. Clarice estava se alimentando de mim algo que lhe trazia paz, conforto e era uma prova não verbal do meu amor.

Infelizmente, foram apenas alguns minutos até o fluxo do leite se reduzir a gotas espaçadas e a Clarice me pedir pelo o outro lado. Esperava algum tipo de reclamação, mas a minha pequena estava lidando muito bem com essa fase de leite quase escasso. Das poucas vezes que participei de conversas entre mommies no Apex como uma intrusa, ouvi alguns relatos que me preocupavam. É difícil esperar um comportamento normal quando quem você irá amamentar é uma verdadeira Magali.

– Mon bébé, vamos colocar uma fraldinha nesse bumbum e continuar da cama? – Perguntei ao perceber que o leite havia acabado do outro lado também.

Conhecendo a minha pequena, eu esperava que fosse se jogar em meu colo toda manhosa para a levar para a cama, mas sua reação foi totalmente inusitada.

– Não! – Ela se levantou rapidamente e antes que pudesse fugir a envolvi pela barriga e a trouxe de volta para perto.

– Onde você pensa que vai?

– Num quero fraldinha! – Ela cobriu as partes intimas com as mãos. – Não quero!

– Por que não? Você é um neném, neném usam fraldinhas para não fazer acidentes.

– Não! Eu num vou fazer acidentes.

– Eu não quero apostar para ver. Você vai usar a sua fralda porque eu estou mandando.

Clarice fez bico prestes a chorar outra vez. – Mas…, mas…, – ela desabou a chorar. Dessa vez um choro que não parecia apenas manha. – Faz dodói n’eu, maman! Eu num quero dodói.

– Faz dodói? – A puxei de volta para o meu colo preocupada. – Onde faz dodói? – Clarice não respondeu, mas olhou para as próprias mãos sobre o colo. – Aqui está dodói? – Ela confirmou com a cabeça. – D’accord… vamos para o quarto dar uma olhada nisso.

A envolvi em um abraço para conseguir levantar do sofá com ela no colo. Clarice me agarrou como um coala, o que facilitou um pouco. No caminho para o quarto eu pensei em inúmeras possibilidades e felizmente, as piores delas eram facilmente descartáveis. Se o dodói lá em baixo foi causado por alguém, eu teria descoberto antes. Ao menos o relógio iria denunciar um período de stress. Não deveria ser algo tão grave.

Deitei Clara na cama e como o Chloée estava por perto eu o peguei do chão e entreguei para ela. Não queria o cachorro dormindo conosco na cama, mas por agora seria uma boa distração.

– Eu posso? – Perguntei antes de puxar seus shorts.

– Pode, maman – ela respondeu sem nem ver sobre o que eu estava falando, tamanha sua distração com o Chloée.

Tirei os shorts com a calcinha junto e logo entendi o que era a causa do “dodói”. Como as pequenas assaduras de ontem escalou para isso, era uma boa pergunta. Clarice provavelmente vestiu a fralda calça sem preparar a pele e piorou ainda mais a situação. É por motivos como esse que quem deve cuidar da bébé é a maman.

– Fica aqui, mon amour. Eu já volto.

Fui pegar as coisas de neném e lavar as minhas mãos. Por causa da pouca assadura que eu tinha conhecimento, essa manhã comprei um balsamo para trazer alívio mais rápido. Ainda bem que fiz, afinal, não acho que as pomadas regulares tragam algum alívio imediato.

Clarice estava assistindo algum vídeo de música no celular com o Chloée, estava tão distraída que nem percebeu que eu havia voltado e não reclamou quando tentei passar o balsamo na sua pele a primeira vez. Foi bom porque assim continuei a cuidar das assaduras delicadamente sem alguém reclamar e resmungar de dor.

Após e preparar a pele de Clara, vesti uma de suas fraldas que não fossem calça. Ela tomou banho mais cedo e pelo horário já poderíamos encerrar o dia, ou seja, hora do pijama e sem mais telas.

– Maman! – Clara protestou por eu ter pego o Chloée no colo.

– Essa coisinha fofa aqui irá dormir e a senhorita também. Hora de dar tchau.

– Eu num quero dar tchau!

– Quem não vai dormir, não tem tetê. Você quem escolhe.

– Você… você…é cruel – Clara fez um último carinho no cachorro, – tchau Chlô, até amanhã.

– Viu só? Foi fácil.

Deixei o cachorro na caminha dele – que por insistência da Clara, ficava no nosso quarto – e fui ao banheiro fazer meu ritual pré-cama. Como esperava, alguns segundos depois que entrei, a minha pequena veio atrás. Ela não tem uma rotina de antes de dormir, mas tem o costume de me seguir pela casa. O resultado disso era que acabava as duas fazendo o mesmo ritual.

Clarice estava nem aí para o que estava passando em seu rosto, seu interesse era estar comigo e eu achava isso fofo.

– Maman?

– Oui.

– Eu posso assistir um pouquinho de desenho antes de mimir?

A resposta correta deveria ser não, porém meu coração mole não resistiu ao olhar pidão e acabou cedendo.

– Tudo bem, ma vie. Só um pouquinho, entendidas?

– Super!

Clara correu de volta para o quarto e se jogou na cama já pegando o controle da televisão. Esperava que fosse ligar direto em seu desenho de cachorros e me surpreendi ao ver que era a minha novela.

– Isso não é desenho, Clarice.

– É para você, maman.

– Para mim?

– Uhum! Eu vou assistir aqui – ela mostrou o celular. – Você vai assistir ali. E a gente vai deitar agarradinhas, nada de ir trabalhar.

– Você já me conhece muito bem, não é mesmo ma petite? – Me juntei a ela na cama e lhe dei um beijo na testa. – Tudo bem, nada de trabalho. Vamos ficar aqui na cama abraçadas assistindo novela e desenho.

– E tendo tetê.

– E tendo tetê.

O que era para ser só um pouquinho de desenho acabou sendo o tempo de um capítulo da novela inteiro. Eu deveria imaginar que essa sempre foi intenção dessa pestinha. Ela sabia que eu iria me distrair e deixando ultrapassar a hora e assim matava dois coelhos numa cajadada só: extra tempo de desenho e tetê.

Bom, pelo menos até a sua bateria acabar… e convenhamos que esse neném aqui não tem lá tanta energia.

Peguei a chupeta da Clara que estava na caixinha sobre a mesa de canto e dei em sua boca logo assim que tirei o peito. Ela resmungou sonolenta e voltou a dormir aninhada em mim.

– Boa noite, mon amour.

Em outros tempos a minha noite só estaria começando, mas agora eu sou do tipo de mulher que pega no sono observando a minha mulher dormir e eu não poderia estar mais feliz.

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