Elora Aneva

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01.  Pisco Sour ou…

« C L A R I C E »

A tensão pairava no ar enquanto uma das arquitetas mais fodas do país e diretora de um dos escritórios de arquitetura de alto padrão mais prestigiados de São Paulo analisava meu portfólio atentamente em completo silêncio. Nem mesmo meus professores que avaliaram meus trabalhos foram tão minuciosos e eu não sabia o que pensar sobre isso.

Quando marcaram a minha entrevista presencial, eu não imaginava que seria com ela, a própria Valkyrie Touchon em carne e osso. Sabe quantas vezes já ouvi falar desse nome durante as aulas na faculdade? Várias vezes. Seus projetos arquitetônicos em São Paulo são sempre citados como exemplo de maestria em paisagismo urbano. Os dois hotéis renomadíssimos – e caríssimos – da cidade são obras dela, então sim…eu estava muito, muito, muito nervosa. E ninguém havia me preparado para isso antes.

Eu não sabia que “Valquíria diretora do escritório” era a tal Valkyrie das aulas, menos ainda que a Valkyrie das aulas trabalhava aqui. Tampouco sabia que a dita cuja era não só muito talentosa, mas muito, muito, muito gata.

Eu queria estar nervosa pelo fato dela estar julgando meu portfólio, mas eu estava mesmo era presa ao fato de que, meu senhor, ela era muito gata. Eu sou muito fraca para mulheres gostosas, gostosa e cheirosa então…

Felizmente ela está fora da minha alçada. Como já dizia o filósofo contemporâneo Baco Exu do Blues; essa mulher tem cara de que vai foder minha vida. E esse corpo é um caminho sem saída para a perdição, definição de mal caminho. Deus me livre…, mas quem me dera.

-Très bien, très bien, – a senhora Valquíria fechou meu portfólio e o devolveu. – Isso é tudo, muito obrigada.

Eu e Paola, a moça quem me entrevistou dias atrás e me recebeu aqui no dia de hoje, nos entreolhamos sem reação.

Como assim era isso? Isso o que?

– Como assim, senhora? E a entrevista? A senhora não irá entrevistar a candidata?

– Eu vi portfólio, ça suffit.

Valquíria fez um sinal sutil com a cabeça mostrando o portfólio que ainda estendia em minha direção. Dessa vez ela foi solidária o suficiente para me dar um sorriso que me deu um ódio.

Como alguém pode deixar explícito que seu trabalho é uma merda sem usar uma única palavra para isso e ainda oferecer um dos sorrisos de dó mais lindos da sua vida. Filha da xuxa!

Minha vontade era mandar tomar na cumbuca e arrancar meu portfólio das mãos dela, mas eu só peguei a pasta e ainda abaixei a cabeça, tipo(?) qual o meu problema? Por que eu reverenciei aquela mulher?

– Eu… ah… hm… desculpa(?). É… então tá bom. Acho que eu vou agora. Obrigada, tenha um bom dia!

Eu levantei e fui em direção a saída me esquecendo totalmente do famigerado aperto de mão. Ao menos não me humilhei saindo correndo. Eu estava totalmente desconsertada e sem reação com tamanha beleza e babaquice em um único ser.

Eu me odeio demais por ser trouxa por mulheres bonitas. Que ódio!

– Não fique chateada pelo o que aconteceu – Paola quebrou o silêncio enquanto me acompanhava para o elevador, eu nem prestei atenção que ela estava me acompanhando – a Valquíria é um pouco… excêntrica…, mas isso não quer dizer que seu trabalho seja ruim. Eu realmente estava torcendo para que você fosse aprovada. E eu tenho certeza que irá conseguir algo, você é muito talentosa.

Só não talentosa o suficiente para ser digna de uma entrevista…

Eu nem respondi para não ser ácida com quem não tinha culpa de nada. Paola foi muito simpática e educada comigo desde as primeiras etapas do processo seletivo. Nossas entrevistas foram bastante produtivas e rendeu muito mais que alguns minutos em silêncio. Mas… ela não decide nada por aqui. A decisão final é dos poderosos chefões e uma das chefonas me cortou logo de cara.

É isso Clarice. Dias de lutas, dias de lutas. O resultado não foi diferente do que esperava, honestamente. Eu só não imaginava que meu portfólio seria tão ruim… e o pior é que eu refiz meus trabalhos todinhos levando em consideração os comentários dos meus professores. Sabe, nem valeu nota refazer isso e mesmo assim foi um lixo.

Será que eu devo trancar a faculdade e viver da minha arte na rua?

Eu fracassei no processo seletivo do que seria a oportunidade da minha carreira, mas a vida continuava e eu ainda tinha contas para pagar. E como eu pagaria por elas sendo desempregada? Me prostituindo… mentira. Fazendo meus bicos de bartender com a Glória.

Faz um ano que Glorinha me introduziu ao mundo dos freelancer de bartender e esse tem sido meu principal ganha pão. Trabalho nuns bares ali, numas festinhas aqui e aos poucos faço um dinheirinho ok para viver sem precisar parar com a faculdade.

– Pela sua cara já sei que não foi nada bem na entrevista, – Glória comentou assim que me viu chegar. – Deu muito ruim com os fodões?

– Para ter dado errado era preciso ter uma entrevista antes. E isso não aconteceu. Só olharam meu portfólio e me mandaram para casa. Zero perguntas, zero trocas. Por pouco ela não mandou um “obrigado, próximo” na minha cara – comentei brava enquanto me preparava para começar a trabalhar.

– Nossa, que filha da puta.

– Nem me fale. E o pior que a vaca é bastante conhecida e simplesmente projetou o Palácio Tangará e o Rosewood, fora os outros que não são tão famosos.

– Eu nem sei o que está falando.

– Pois é, mas todos os ricaços da cidade sabem… e os arquitetos também.

Glória colocou um copo no balcão a minha frente de repente.

– O que é isso? – Perguntei sem me levantar de onde estava agachada.

– Tome, você precisa beber.

Achei um tanto suspeito considerando que eu não bebo.

– Não se preocupa, – Glória percebeu a minha hesitação – é Bailey’s. Parece leite com chocolate para adultos. Você vai gostar.

Ergui o cenho desconfiada, porém cedi.

Sempre vejo Glória beber umas doses quando está na merda e parece lhe fazer bem. Hoje eu estava na merda e preciso fingir estar feliz no trabalho, vai ver eu também mereça uma dose.

Encarei minha amiga antes de dar um gole desconfiada esperando o pior e de fato, era cremoso, tinha sabor de chocolate e finalizava a famosa queimação do álcool bem leve.

– Só lembre de colocar gelo quando for beber, – Glória alertou. – Sem ele você não vai gostar.

Minha amiga entrou na dispensa e me deixou ali sozinha com meu copo ciente de que eu iria querer repetir a dose. Ela tinha razão, era bom e parecia leite com chocolate.

Trabalhar em bar de noite ao final de semana era corrido, mas eu gostava. Era muito melhor fazendo meus drinks que bebendo eles. E sempre tinha alguns homens trouxas que acham que dando gorjetas, nós mulheres, vamos dar nosso número ou ir para cama com eles, mas não. Eu não iria para cama com um homem e ainda não me surgiram mulheres que façam o mesmo para eu ser capaz de opinar… mas não nego que estaria mais inclinada para o sim.

– Você só tem cara de inocente, não é mesmo dona Clarice – Glória reclamou com as mãos na cintura. – Eu bem vi a senhorita flertando com aquela mulher.

– Estou trabalhando, mas não estou morta. É deselegante não flertar de volta quando uma bela mulher flerta com você. Vai que é o amor da minha vida? Nunca se sabe se vai conhecer a sua alma gêmea quando ela te pedir um drink no bar. É por isso que sou solicita com todas mulheres… homens não tenho nada a ver. Aliás, tem um ali para você atender.

E sim, eu dava preferência para mulheres para o meu atendimento. Quem não gostou reclame com deus, porque eu mesma estou pouco me ferrando.

O final de semana que passou me rendeu um bom dinheiro que deu para tirar um pouco do prejuízo do fim de semana em que fiquei em casa trabalhando no meu portfólio. Durante a aula de manhã eu fiquei remoendo o descaso que a vaca francesa teve comigo. Eu sei que eu sou medíocre, mas custava fingir? Fazer uma entrevista de cinco minutos que fosse só para dizer que fez, sabe?

Enquanto caminhava em direção a estação de metrô revoltada com a situação, meu celular tocou. Já esperando ser meu pai, o único que me liga no horário de almoço de uma segunda-feira, atendi sem verificar e imediatamente me arrependi.

– Olá, bom dia. Eu falo com a Clarice?

– Sim, sou eu mesma – respondi desconfiada.

Em uma fração de segundo analisei todas as minhas contas e dívidas para saber se algo estava atrasada a ponto de receber ligação de cobrança, mas não consegui pensar em nada.

– Sou eu, Paola da T&M Visionnaire Architectes .

– Ah, oi Paola. Tudo bem?

– Tudo ótimo! – Ela respondeu empolgada. – Estou te ligando para informar que você passou no nosso processo seletivo para a vaga de estágio.

– Eu fui aprovada? Sério? – Perguntei desconfiada.

– Sim. E então, o que diz? Podemos começar o seu processo de admissão?

– Sim, claro!

– Eu vou precisar que me envie seus documentos e se tudo der certo, podemos marcar o seu exame admissional amanhã mesmo.

– Pode deixar, vou te mandar o quanto antes. Obrigada Paola.

– De nada, Clarice. Seja bem-vinda! Estamos bem empolgados em te receber.

– Eu também, obrigada!

Imagino o qual empolgados… sei lá o que aconteceu, mas tenho certeza que uma pessoa não está nada empolgada comigo sendo aprovada mesmo depois daquele fracasso de não-entrevista.

Ou será que os outros eram ainda piores que eu? Eu acho difícil acreditar, mas é a resposta mais plausível que consigo encontrar. Não sei se dá para ficar feliz ou triste com isso.

Ainda dentro do metrô eu já mandei todos os documentos que a Paola me mandou. Vai que a pessoa que eles realmente iriam contratar muda de ideia e eu fico de fora?

Sequer acreditei quando recebi a mensagem da Paola dizendo que estava tudo certo e que eu começaria na quarta-feira. Nem vou considerar a possibilidade de continuar trabalhando lá depois do estágio, mas só o fato de ter essa experiência no currículo vai ser muito bom para conseguir um outro emprego. Fora que o salário de estágio deles é bem acima da média. Se pá, eu consigo sair da casa do meu pai ainda esse ano!

Cancelei meus planos de hoje e amanhã apenas para preparar tudo para começar a trabalhar. Em outras palavras, separar todas roupas que posso usar, montar diferentes looks, fazer hidratação no cabelo para dar sorte e o mais importante: estudar as obras e as referências daquela vaca francesa até tatuar no meu cérebro.

Posso não ser uma fodona renomada, mas eu também não era um lixo a ser descartado e eu ia provar isso a ela.

“Não abaixe a sua cabeça para ninguém, estamos entendidas?” Glória me enviou a mensagem. “Mas não levanta a cabeça demais porque você ainda é uma estagiária e estagiária nem é gente na empresa”. Eu confesso que acabei rindo dessa besteira. Desde que falei a Glória os detalhes da entrevista e que havia passado nela, ela tem agido como a minha couch com medo de eu ser trouxa… e eu não a julgo. A minha fama não me ajuda muito e graças a ela estou superando essa minha trouxisse.

“Boa sorte”

“E não vá chorar em público. O banheiro é onde a gente chora no trabalho”

A última mensagem eu li já dentro do saguão do prédio comercial no coração da Faria Lima. Era claro que um escritório como o T&M Visionnaire Architectes iria ficar em um prédio com o B32. Tudo sobre esse lugar gritava dinheiro, poder e luxo, mas também era um alívio em meio a selva de pedras com a praça pública e as árvores. Era legal, muito bacana, mas caótico! E para variar eu cheguei junto com um grupo de gringos engravatados que ocuparam todas – sim, no plural – recepções.

Eu queria morrer, sentar, chorar, chamar a minha mãe… será que se eu mandar mensagem para a Paola para descer seria ruim? O que eu faço?

– Precisa de ajuda?

Quase fui parar no teto com o susto que levei com a voz atrás de mim. Me virei de repente e me deparei com peitos. Confesso que tive um pequeno pane no sistema e por essa razão demorei alguns segundos para me recompor e olhar para cima. E aqui fica o questionário, sou eu que tenho ausência de altura ou essa mulher que era muito alta? Independente da resposta, eu gelei a espinha ao me dar conta de quem pertencia aqueles peitos.

De todas as pessoas do mundo, por que justamente ela? E por que uma blusa com decote transpassado logo hoje? Não é vulgar, pelo contrário, ela estava bastante elegante, e gata, e linda, e meu deus…, mas, isso não se faz com meu pequeno ser. Assim tão de perto meu coração não aguenta.

– Você está bem? – a diretora Valquíria perguntou.

Dei um passo para trás e tentei ignorar o fato de que o visual completo da diretora estava de matar, mas não consegui. Valquíria vestia uma saia de cintura alta, cortada com precisão para abraçar as suas curvas – e que curvas – de forma graciosa. Sua blusa branca de manga longa, tinha um detalhe cruzado na frente dando um ar elegante e sofisticado. O discreto colar de ouro convidava a olhar para a zona proibida e era uma tentação perigosa que eu estava usando todas as minhas forças para ignorar.

A roupa em si não tinha nada demais, o valor talvez. O fator determinante aqui era ela. Se fosse eu vestindo isso, não teria nem metade do ¼ do sexual appeling que tem na diretora. Nem comecei a trabalhar e já estava ciente que iria precisar consultar um cardiologista. Haja coração para lidar com mulheres bonitas… pena que a mulher bonita em questão era ela.

Lembrar da entrevista em deixou brava. Eu ainda não superei e não vou superar tão cedo. Essa vaca! Quem ela pensa que é? Só por que tem um prêmio Pritzker e é sexy? Tomate cru! Bobona.

– Clarice?

O meu nome sendo chamado no sotaque francês foi a coisa mais fofa do mundo, mas o que me chamou minha atenção foi o fato dela saber meu nome. Essa mulher não deveria se preocupar com outras coisas para saber o nome do estagiário novo?

– Você está aí? Está tudo bem? Precisa chamar a enfermeira?

– Que? Não… quer dizer, sim eu estou bem. Eu só não sei se vou para fila da recepção ou não sei.

A diretora virou para trás para ver a fila e então se virou para mim. – Vraiment pas, – ela disse algo em francês, – Eu vou liberar a sua entrada. Venha comigo.

Se era permitido ou não, aí eu já não sabia. Mas a diretora liberou a catraca que dava acesso aos elevadores duas vezes para que eu pudesse passar também. E como se o universo me odiasse, o elevador parou em todos os andares até o vigésimo quarto. Eu vi dez anos da minha vida passar diante dos meus olhos enquanto estava dentro daquele elevador sem saber como reagir. A diretora por sua vez estava inabalável.

As portas do elevador abriram e a francesa se virou para mim.

– Bienvenue, – Ela disse lançando uma piscadela.

Antes que eu pudesse processar o que aconteceu ela já estava longe, caminhando pelos corredores do escritório enquanto um rapaz passou a segui-la assim que a viu.

– Você chegou, – Paola me recebeu com um sorriso. – Seja bem-vinda! Vem, eu vou te apresentar o lugar e o nosso time de funcionários.

Se eu pudesse resumir como foi meu primeiro dia, eu diria caótico.

A Visionnaire era um dos poucos escritórios que atuava em arquitetura e urbanismo, paisagismo, restauração de edifício, acompanhamento de obras, luminotécnica e BIM. Ou seja, para os perdidos da faculdade que ainda não sabiam com o que especializar, esse era o paraíso das oportunidades de experimentar de perto e se descobrir. No entanto, isso faz com que o escritório viva em um ritmo frenético.

Era tanta informação para processar no meu primeiro dia que devo ter perdido alguma porcentagem da capacidade do meu cérebro. O escritório ocupava os dois últimos andares do B32 e deveria ter umas cem pessoas ou mais, ou seja, eu não me recordo do nome de ninguém. Male, male lembrava o nome dos outros estagiários que me apresentaram. Os únicos nomes que eu já tinha decorado eram: André, Martin, Jorge, Aline e Valquíria.

Esses nomes eram repetidos o tempo todo seguidos das frases; “não me responde”, “precisa assinar”, “estou esperando o(a) …”, “onde está o(a)…”. Dos cinco, Jorge era o queridinho e a Valquíria a des-querida, e convenhamos que não é muito difícil entender o porquê.

Paola comentou que foi a própria que me escolheu e eu fiquei sem entender. Como ela me escolheu sendo que ela mesma não quis me entrevistar. Vai entender a cabeça dessa mulher… pior que não dá nem para dizer que ela é a errada, só uma pessoa tem um Pritzker nesse escritório e não sou eu.

– Você está de carro, Clarice?

– Não. Eu vim de metrô.

– Você vai para qual Linha?

– Azul?

– Alguém pode dar uma carona para Clarice para estação de metrô mais perto da linha azul?

Oi? Moça, eu não pedi nada. Pelo amor de deus, que vergonha.

– Eu posso te deixar na Faria Lima. Não é azul, mas já é o metrô.

E de repente estavam discutindo quem iria me dar a carona que eu não pedi e tive vergonha de recusar. Por fim, eu estava no carro de um estagiário privilegiado que dava carona aos outros até a estação.

Um peixinho fora d’água.

Era exatamente assim que me sentia sentada no banco do meio apenas ouvindo as conversas sem ter assunto para interagir.

– O Martin está empenhado em fazer o projeto em Aruba ser o próximo premiado do Pritzker, – o estagiário motorista comentou. – O Gustavo disse que ele não deixa ninguém nem chegar perto.

– Sei não, estou começando achar que para ganhar esse prêmio o requisito é ser um cuzão igual a outra lá, – disse o estagiário do banco do carona. – Ficaram sabendo que aquela megera descartou o projeto do Gustavo? Ela não pediu para alterar, ela descartou o projeto todinho.

– Essa mulher é louca. Eu não aguento mais estar no meio do pé de guerra com os engenheiros.

– Pelo menos vocês não precisam ir na armarinho comprar coisas para festa de aniversário da filha do chefe de vocês.

– Mentira que o André te pediu isso?

– Estou te falando. Amanhã mesmo vou ter que buscar a esposa dele no médico, acredita?

E foi assim a conversa até chegar na estação.

Quando não falavam mal de algum chefe, falavam da vida pessoal deles ou de outra pessoa no escritório. Confesso que me senti mal. Nem conheço essas pessoas e ouvia comentários absurdos.

Eu gosto de fofocar e saber da vida alheia, mas a partilha de informações deve ser feita livre de julgamentos. O que acontecia dentro do carro estava longe disso. Bem longe.

Felizmente essa tortura no durou 20 min. Livre, eu finalmente pude me desintoxicar ouvindo minhas músicas.

A jornada para casa era longa, tal qual qualquer desafortunado que mora no inferno dessa cidade e não possui um carro e ou é pobre demais, mas com os meus fones de ouvido eu ia para qualquer lugar numa paz.

Eram pouco mais das 19h quando cheguei em casa e para a minha felicidade, meu pai não estava em casa. Ele provavelmente estava em algum bar enchendo a cara ou sei lá, gastando dinheiro com mulheres, afinal, se não fosse pagando eu duvido que alguma mulher perderia o seu tempo com esse cara.

Há vários anos quando minha mãe ainda era viva, o meu pai costumava ser um ser humano decente. No entanto, depois que ela faleceu tudo mudou. Meu pai se transformou do vinho para o chorume e desde então não o reconheço. Somos dois estranhos que não se bicam e quanto mais longe melhor. É por essa razão que junto cada centavo para me mudar daqui logo. Eu não suporto esse cara e nem ele a mim.

É um ódio mútuo e bastante recíproco.

Enquanto estagiaria novata, eu ouvi bastante histórias e comentários sobre as pessoas do escritório, principalmente os chefes. Alguns comentários eu achava exagero e ao conviver um pouco mais com essas pessoas percebi que eram até legais. Eu normalmente prefiro criar a minha própria opinião sobre os outros ao invés de ouvir opiniões alheias…, mas, entretanto, todavia, haviam comentários que não restavam outra opção senão concordar.

E a maioria deles eram sobre ela.

Hoje ouvi que, no período da manhã, uma moça do financeiro estava perguntando sobre o que achavam do seu vestido amarelo dela e a francesa disse “o vestido em si é bonito, essa cor em você não é”. Não sei dizer se foram essas as palavras, mas ouvi duas pessoas diferentes usarem as mesmas para contar a história. E para piorar, a moça do financeiro se trocou.

Sim, a moça comprou outra roupa no horário de almoço de tão mal que se sentiu.

Parte de mim quis acreditar que fosse exagero. Não era possível que alguém fosse tão maldosa assim… e aí a vida mostrou que eu estava errada e dessa vez diante dos meus olhos.

– Qui a fait ce* trabalho horrivel ? Esse não é projet original.

A presença de Valquíria causava uma tensão no ambiente. Eu nunca vi todo mundo trabalhar – ou fingir – simultaneamente. Normalmente está todo mundo conversando, às vezes até no celular vendo vídeos no Tiktok, mas com a francesa aqui era outra história.

– O engenheiro fez algumas alterações, – Felipe, o nosso “supervisor” respondeu.

– O ingénieur*? Que ingénieur*?

– O Pedro.

– Pedro Henrique? E você aceitou?

– Ele é o engenheiro.

A diretora jogou os papeis em sua mão no lixo ao lado. – Pois ligue para ele e diga que ele é a vergonha da profissão. E se não consegue fazer trabalho, contratamos outro. O “projet” continua o mesmo.

Valquíria deu um sorriso de meio segundo e saiu como se não tivesse jogado o trabalho do cara no lixo.

Se essa mulher jogar o meu trabalho no lixo, eu choro. Sem brincadeira, eu iria chorar e desistir da minha carreira ali mesmo. E o pior é que todo mundo aqui é louquinho para entrar para o time dela só para dizer que ela foi mentora deles no currículo. Coragem… eu que não quero trabalhar com a francesa. Posso até ser uma cadelinha de mulheres gostosas assumida, mas cadela de chefe? Não, não. Prefiro ficar na minha apreciando sua beleza e repudiando suas atitudes de longe.

“Diz que você não tem compromisso esse final de semana”.

A mensagem de Glória me trouxe de volta a vida de meus devaneios e rapidamente respondi.

“Não, tô suave. Por que?”

“Eu assumi um bar foda num club e vou precisar de ajuda no sábado”

“Assumiu um bar? Ué, o que rolou?”

“Os caras são chatos, mas pagam pela chatice deles. Fora que eu basicamente posso fazer meu horário, o lugar é bacana, atende poucas pessoas”.

“Se você diz… que horas no sábado?”

“Você vai durante o dia abrir o bar para mim, trabalhamos no pico da noite e aí eu te libero mais cedo para ficar mais fácil pegar um carro”

“Beleza, manda endereço e o horário depois”

“Eu vou gravar um vídeo de onde você tem que achar as coisas para facilitar a sua vida. E os caras não gostam que fique tirando fotos ou etc, então fora o vídeo, não fique usando o celular lá.”

“Sim, senhora.”

‘Valeu amiga, você é uma amiga”.

Eu deveria ter imaginado que para pagarem tão acima da média e dar todas as “regalias” que a Glória citou, o bar em questão deveria ser “diferenciado”. E era… bastante.

Os imponentes muros e portões davam um ar de exclusividade tal qual as casas da galera de elite, eram discretos e altos o suficiente para dar total privacidade ao que acontecia dentro. Na entrada, uma segurança que mais parecia uma muralha humana de tão alto, acompanhava o porteiro. Porteiro esse que faltou pouco me revistar para permitir minha entrada e só permitiu porque eu tinha um “pré-cadastro” deixado pela Glória.

Adentrando os portões, um deslumbrante jardim se desdobrava, abrindo caminho para o majestoso casarão à frente. Se eu não soubesse que não era um hotel, poderia facilmente que se tratava de um.

A porta principal, uma verdadeira obra de arte por si só, estava aberta e revelava uma visão cativante: à frente, outra porta conduzia à área externa, onde uma sedutora piscina se exibia, enquanto os raios de sol refletiam em suas águas, banhando o hall de entrada em uma luz radiante.

Embora eu soubesse exatamente para onde ir, fiquei momentaneamente atônica, como se fosse hipnotizada pela beleza de cada detalhe do ambiente. Estava atentada a subir as escadas em espiral que contornavam o átrio, ansiosa para explorar os andares superiores. Lá em cima, um telhado de vidro permitia a entrada abundante de luz natural, causando uma sensação de aconchego no meio de tanta sofisticação. Eu facilmente moraria aqui… se tivesse dinheiro, claro.

Sem mais enrolar, eu segui em direção a área externa. O bar, destino do meu trabalho, estava na área coberta ao redor da piscina, exatamente onde Glória havia me indicado. Pessoas uniformizadas transitavam para cima e para baixo e alguns foram até solícitos em vir me cumprimentar, perguntar se precisava de algo e tudo mais.

Aí você pensa, um local como esse só pode ser um hotel de luxo ou até mesmo a casa de alguém da elite… agora imaginem a minha cara quando entrei na edícula para pegar um banquinho e usar de degrau e me deparei com uma cruz em X, algemas, cordas, chicotes e descobri que o “club” de Glória na verdade era um club BDSM.

“AMIGA?! Que porra é essa que você me meteu?”

“Relaxa, se você ficar no seu lugar não irá ver nada demais. Lembre-se que os caras estão te pagando muito bem”

“Mas um puteiro?”

“Não é um puteiro. É um club de BDSM, mas funciona como qualquer outro club também.”

“Aí meu deus… eu só tenho 8 anos, sabe?!”

“Deixa de drama, garota. Tá agindo como se você não fosse a primeira a querer experimentar todas as coisas que tem aí”

E pior que a Glória não mentiu, eu só não esperava entrar nesse meio de forma tão… sei lá, formal(?).

“Vou te falar, amiga. Tu vai gostar de trabalhar aí. É muito mais tranquilo porquê eles estão muito entretidos com outras coisas. A gorjeta rola solta. E a população mais gata de São Paulo se concentra aí, então te aquiete e trabalhe. Pense no dinheiro.”

“Aí que ódio que eu tenho de você, Glória. Você me deve e irá pagar meu uber essa noite”

“Ok, eu pago.”

Guardei meu celular outra vez e continuei meu trabalho. Agora que eu sei exatamente como são as coisas por aqui, eu meio que entendi o porquê eles prezam por privacidade. “O que acontece no club fica no club” vibes.

E no fim Glória tinha razão. Um pouco depois começou chegar algumas pessoas para aproveitar as facilidades do club e me apareceram três mulheres gatíssimas na piscina. Eu nunca fui triste olhando essas beldades de biquininho, meu deus… confesso que eu fiquei curiosa para saber o que elas faziam dentro da edícula. Pena que não dá nem para espiar.

Minha tarde no bar foi ridiculamente tranquila. Apesar de ter só feito os drinks mais chatos de preparar que precisa de liquidificador e tudo mais, foi muito tranquilo comparado ao que eu e a Glória estamos acostumadas. Inclusive, dado um momento me chamaram para comer um lanche na cozinha. Eu esperava um pão com manteiga e café, recebi um sanduíche natural igualzinho aos que os membros do club estavam comendo.

Se eu não estivesse fazendo meu estágio eu iria muito mandar meu currículo aqui. Imagina comer essa comida todos os dias?!

– Já percebi que a gata está aproveitando a mordomia, – Glória disse ao chegar me assustando. – Sentada no so-fá durante o trabalho… que bonito, hein Clarice.

– Eu estava no banquinho, aí eles falaram para sentar aqui que era mais confortável, eu sentei uai.

– Sei… – Glória balançou a cabeça, – Mas é assim mesmo, contando que você esteja por perto para quando precisarem, eles não ligam se está ou não atrás do balcão. Tem muita gente que trabalha aqui e que também são membros do club.

– Sério?! – Perguntei curiosa.

– O segurança lá fora é membro, – Glória olhou para os lados e se inclinou para perto de mim. – Maior submisso da história desse país. Daquele tamanho… e a domme dele não é muita coisa mais alta que você.

Semi-cerrei os olhos desconfiada. – Como você sabe disso?

– Ué, gata. Eu não estava fazendo nada, estava rolando uma aula de shibari, perguntaram se eu queria assistir… – ela deu ombros. – E não me olhe com essa cara porque se fosse você, você também iria.

– Não sei nem que diabos é isso.

– Logo, logo você aprende… agora deixa eu ir ao vestiário me trocar.

– Vai lá, bobona.

A noite no club era bem diferente da tarde. Não era correria como os outros bares que trabalhei, mas definitivamente não dava para ficar sentada no sofá vendo vídeos no TikTok. O maior desafio aqui era lembrar a receita de todos os cocktais clássicos, era uma mão na coqueteleira e a outra no celular escondido no balcão com as receitas.

Não que eu não saiba fazer, eu sei. Só não tinha o costume. Onde no Brasil que iriam me pedir numa balada um Flame of love ou um Gibson? Negócio horrível, cruzes.

“Eu acho que você precisa férias isso sim” ouvi a voz masculina se aproximando do bar enquanto eu estava agachada bebendo meu Bailey’s escondido atrás do balcão. Tratei de virar a minha bebida o mais rápido possível antes que eu fosse pega no flagra.

“Eu não preciso de férias.”

A voz feminina e o sotaque disparou todos os meus alertas. Não, não era possível. Eu estava delirando. Ou vai ver era o álcool que subiu a cabeça de repente. Não tinha outra explicação para tal.

“Eu preciso de um bom oral e um orgasmo…”

Não, não, não. Isso não é possível. Eu estou louca. Louca e surda. Ou louca e ouvindo coisas.

“…mas por agora me contento com um bom pisco sour”

Incrédula, eu levantei de repente bem no momento em que a mulher que conversava com homem que estava alguns passos atrás dela se virou para o bar.

E pela primeira vez, eu vi a mulher que parecia inabalável no escritório corar de vergonha ao me ver.

Um sorriso satisfeito surgiu em meus lábios. Nem meus sonhos mais sórdidos eu iria imaginar que encontraria Valkyrie Touchon em um lugar como esse, mas agora que encontrei era como se tivesse ganhado na Mega-Sena.

– Um pisco sour ou um orgasmo? O que você vai querer essa noite?

«-»

Gostou? Não esqueça de comentar! Até a próxima…
Au revoir!

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