Elora Aneva

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11. Fais la vaiselle.

« V A L K Y R I E »

Em meio ao calor do momento e o desejo de explorar cada centímetro de Clarice, eu desci minha mão pela lateral de seu corpo, deslizando os dedos sobre a sua pele. Estava prestes a entrar em seus shorts quando tive minha mão retirada dali de repente.

– Nana-nina-não. Você já viu o tamanho dessas unhas? – Clarice segurou minha mão mostrando meus dedos para mim mesma. – Se quer alguma coisa aqui, vai ter que cortar.

– Cortar? Mas eu gosto delas…

Faziam poucos anos que passei a usar unhas longas, mas desde que comecei não parei mais. Antes por causa da luta – e as outras atividades loucas que minha mãe me forçava fazer – eu precisava manter curtinhas como as da Clarice agora.

– Se eu não posso te tocar… o que podemos fazer agora?

– Tem muita coisa que podemos fazer… você só está vestida demais para isso.

Clarice se levantou para me dar espaço e ajudar a atirar a minha roupa. Nós estávamos com as luzes baixas, dependendo do ângulo estava bem escuro. Por essa razão eu não havia notado antes um hematoma já em processo de cura na costela de Clarice. Embora estivesse com as bordas meio verdes e amareladas, o centro ainda estava bem rosado e roxo. Sinal de que era algo recente.

– O que significa isso aqui, Clarice? Quando e como você se machucou desse jeito? Você não tinha isso semana passada, eu me lembro bem.

– Ah… isso. Eu cai. Me machuquei.

– Caiu? Onde?

– Em cima da estante lá de casa.

– Uma simples queda não deixaria um hematoma desse tamanho.

– Se você soprar um pouco mais perto de mim, eu vou ficar com hematoma. Esse é o problema de ser branca demais.

Parte de mim não estava convencida, outra parte conseguia acreditar, afinal, eu sequer dei chupões fortes em seu pescoço e estava cheio de marcas. Porém, havia uma terceira parte que estava bem brava com dona Clarice que, mesmo machucada desse jeito, seguiu a semana como se nada tivesse acontecido… se bem que, ela esteve mais quieta recentemente, mas eu pensei que estava brava comigo e só não queria estar ali.

– Vem, – me levantei e peguei a mão de Clarice. – Eu vou cuidar de você.

– O que?! Mas nós não… nós não íamos fazer outra coisa?

– Outra coisa pode esperar. Eu duvido que algo como esse hematoma não esteja lhe causando dor agora.

– Sim, mas é leve. Já esteve pior. Agora é de boa.

Parei onde estava para encarar Clarice que estava atrás de mim abraçada a camisa. – Sua intenção foi me tranquilizar? Não funcionou.

Fomos até o meu quarto, a obriguei deitar na cama enquanto buscava meus preciosos produtos para esse tipo de ocasião. Ser uma criança travessa e aventureira, seguido de anos de luta, me ensinaram a lidar com dores, inchaços e hematomas. Meus pais coitados, deixei meu pai careca e a minha mãe de cabelos brancos com o tanto que eu aprontei.

– Você confia em mim? – Perguntei ao sentar ao seu lado na cama.

A expressão de Clarice foi uma mistura de pavor e preocupação. – Sim, não… não sei… o que é isso na sua mão?

– Um óleo muito bom para aliviar a dor.

– Me parece suspeito.

Sorri, a cena de Clarice era fofa. A acariciei o rosto com a mão ainda limpa. – Não seja boba, eu jamais faria algo que não fosse bom para você. Pode até queimar e arder um pouco no início, mas depois melhora e alivia a dor.

– É claro que vai aliviar a dor… depois de causar ainda mais.

– Dói, mas é só um pouquinho. Eu dou beijinho para sarar, você quer? – me inclinei para frente e dei um selinho demorado nos lábios de Clarice. – O que você acha? Você aceita com beijinho? – Espalhei beijinhos pelo rosto dela.

Quando percebi que Clara estava distraída o suficiente, toquei levemente sobre sua costela. Todo esse tempo eu estava com uma quantidade generosa do óleo em minha mão esperando a perfeita oportunidade.

– Você… você me enganou… sua cretina… isso, aí! Tá ardendo! Tira! Tira.

– Ça va passer, ça va passer¹ – tentei a tranquilizar dando beijinhos sem parar de espalhar o óleo. – Calma, okay? Já vai passar¹.

– Eu não acredito que você me enganou… eu bem pensei que estava sendo fofa e no fundo só estava sendo cretina e maldosa.

– Moi? Cretina e maldosa?

A encarei em silêncio tentando esconder meu descontentamento. Uma parte de mim quis ensinar boas maneiras a Clarice. Em outro contexto, essas duas palavras a deixaria em apuros. Onde já se viu falar assim comigo?!

Alguns minutos depois, a tensão no rosto de Clarice foi se apagando. Sabia que estava com dor, pois ela agarrou meu braço sem perceber e o apertava a medida em que ardia em pontos diferentes. O que pude fazer para tornar esse momento menos sofrido foi um cafuné em seus cabelos com a outra mão enquanto mantinha nossas testas coladas e lhe dava beijinhos aleatórios pelo rosto.

– Está se sentindo melhor?

– Sim… é ruim, mas é bom – ela deu um sorriso meio sofrido. – Você tinha razão.

– Vamos usar mais uma vez em algumas horas e aí você pode levar com você. Passe ao menos uma vez ao dia todos os dias, d’accord?!

– Sim, senhora… será que agora a gente pode voltar a se beijar, ou…

– Un moment, deixa eu lavar a minha mão suja de óleo primeiro.

Por mais que eu realmente quisesse beijar Clarice naquele instante, minha agonia por mãos sujas falava mais alto. Eu precisava lavar ou iria ter uma síncope.

Quando voltei para a cama, Clara me recebeu com um beijo. Pensei que depois dessa pequena interrupção ela não fosse mais ter interesse em continuar o que paramos, mas pelo visto estava bem enganada.

– Você vai querer continuar mesmo sem eu poder te tocar lá?

– Você não pode, mas eu posso… – ela exibiu as unhas cortadinhas e veio para cima de mim. – E minha costela está bem melhor, é agora que eu quero mais ainda… deixa eu tirar a sua roupa. Eu quero ver essa beldade outra vez.

Antes que eu tivesse chances de me mover para alguma coisa, Clarice já estava desabotoando minha camisa de pijama. Empurrei o colchão com as mãos para levantar meu tronco e ficar sentada também. Assim tão próxima de Clarice outra vez, voltei a beijar seu pescoço enquanto ela se livrava da minha roupa.

– Ei, o que é isso aqui? – Clarice apontou para o hematoma em meu antebraço, obra que o traste do Pedro Henrique me deixou a última vez que estive em seu apartamento. – Como se machucou? Ou melhor… quem foi que fez isso com você?

– Isso aqui… não é nada demais.

– Você também não tinha isso aqui semana passada.

Analisei o hematoma outra vez. Já estava completamente verde e amarelado o hematoma, era questão de poucos dias para sumir completamente. Tinha até me esquecido da existência dele. E também não era como se eu tivesse sentindo dor por ele.

– Quem fez isso levou um soco na garganta, acho que ficamos quites – quando levantei o olhar para Clarice, ela estava com uma cara espantada. – O que foi?

– Nada… conhecer você mais a fundo é sempre uma surpresa.

– É mesmo? E o que mais te surpreendeu?

– Quando você tirou a roupa, – ela beijou meu pescoço e ombro me empurrando para trás para que eu me inclinasse. – Não sabia que o que já era muito bom de admirar poderia ficar ainda melhor, – dito isso, ela abocanhou meu seio sem tirar os olhos dos meus.

Por um breve instante essa garota conseguiu me deixar sem reação… de novo. E como não ficar? Se não fosse por suas palavras que me pegaram desprevenida, seria por sua beleza que sempre me deixa desconcertada. Conheci o tom de azul mais lindo em seus olhos e desde então se tornou minha cor favorita. Como não apaixonar?

Eu me distrair enquanto a admirava e fui surpreendida quando senti seus dedinhos aventureiros encontrar o caminho para a minha calça. Clarice era bem sorrateira e eu já havia percebido isso. Um momento em que você desvia a atenção ela pode invadir seu coração… ou sua calcinha.

No meu caso, foram os dois.

«»

O barulho irritante me fez acordar de um sono tão gostoso que eu quis morrer – ou matar – de ódio.

Tateei o criado mudo em busca do meu celular para parar o som e descobri que não era ele quem gritava aos meus ouvidos. Felizmente, o som parou mesmo assim e esse foi o momento em que me dei conta de que esse era o despertador de Clarice.

– Desculpa, eu me esqueci – ela disse baixinho.

Eu não sabia dizer exatamente em qual momento da noite que Clarice e eu fomos parar dormindo tão distantes uma da outra. De qualquer forma, quando percebi isso minha reação imediata foi a abraçar outra vez para voltarmos a dormir agarradinhas como estávamos.

– Vamos dormir, – murmurei.

– Eu não posso… eu preciso ir para a faculdade.

– Você tem mesmo que ir? – Perguntei afundando meu rosto contra o seu pescoço e a apertando ainda mais em meu abraço. – Não pode faltar?

– Faltar? Mas… você vai trabalhar daqui a pouco e eu vou ter que ir para casa… meu pai vai querer me matar se descobrir que eu faltei.

– E quem disse que eu preciso ir trabalhar daqui a pouco? É só não ir hoje… eu quero ficar na cama com você.

– Você pode faltar ao trabalho, eu não. E tenho trabalho na última aula hoje, não posso faltar.

– Então vai só para a última aula. Eu te levo, – tirei o celular da mão de Clarice e coloquei de volta no criado mudo. – Vamos voltar a dormir. Ainda são 5:40, nem eu acordo tão cedo assim.

– Você realmente tem tudo o que quer, né?

– Oui, j’ai tout ce que je veux. Y compris toi. (Sim, eu tenho tudo que quero. Inclusive você).

Clarice aceitou faltar as primeiras aulas da faculdade para ficar comigo. Relutou para aceitar e conseguiu voltar a dormir primeiro que eu… deveria ficar brava por ter me acordado e me deixar acordada sozinha, mas como faço isso olhando para essa fofura que era ela dormindo?! Não dá!

Eu estou fodida nas mãos dessa garota.

“Bonjour, Letícia. Cancela a minha agenda essa manhã.” enviei a mensagem para a minha assistente antes de voltar a dormir para evitar ligações inoportunas. Aliás… tem algo mais.

“E marca com a minha manicure às 11:30”.

Narração Clarice:

Quando a Valquíria disse queria passar a manhã comigo na cama, eu não esperava que fosse literalmente passar a manhã comigo na cama. Parte de mim não queria faltar as aulas na faculdade só para transar com alguém… mesmo que esse alguém fosse ela. Eu sou a rainha em me entregar demais e me envolver demais com quem só quer sexo comigo. Não quero que essa história se repita e por essa razão minha intenção era estabelecer certo limite nesse envolvimento entre nós e priorizar meus próprios planos pessoais.

Mas eu cedi… e nós não transamos.

Acordei sozinha para começar. Sorte a minha que a Valquíria entrou no quarto segundos depois que abri os olhos… com roupas de treino bastante reveladoras e o corpo suado, dizendo que iria tomar banho e me convidando para ir junto. Eu fui. Nós tomamos banho. Provavelmente o banho mais caro da minha vida, ainda assim, um banho propriamente dito com alguns beijos ali, outros aqui. Nada de sexo.

Ela inventou de me passar o óleo outra vez. Ardeu e queimou para um baralho, mas funcionou muito melhor que meus remédios para dor. Depois fomos tomar café da manhã e as opções eram muito mais que pão com manteiga e leite. E nós continuamos sem transar.

Por fim ela me trouxe até a FAUUSP e eu vim o caminho rezando para que ninguém conhecido me visse saindo do carro dela, ou pior, que a reconhecesse por lá. Eu não saberia o que dizer ou como explicar o porquê de estar no carro com a Valkyrie dos livros. A tensão conseguiu ser ainda pior do que meus tempos me envolvendo com a minha própria professora.

– Onde você dormiu? – Larissa minha prima me perguntou ao me encontrar no banheiro da faculdade. – E que marcas são essas no seu pescoço? Estava com quem? Esconde isso.

– Oi, Larissa. Tudo bem? Eu estou bem também, – fui sarcástica. – Estava chovendo muito ontem, você me conhece muito bem e sabe como fico. Uma colega de trabalho me resgatou e levou para casa. Eu dormi lá.

– Dormiu lá e com ela, né? Olha Clarice… você é uma sem vergonha. Não sei como as pessoas ainda acham que você é uma santa inocente.

Revirei os olhos. – Você trouxe o que pedi?

– Sim, mas eu não sei porque pediu roupas. Essas já não estão boas?

Visualmente falando? Sim, consegui encontrar uma camisa da Valquíria que não parecesse que estava usando algo de alguém três vezes o meu tamanho por falta de opção, mas ainda assim algo em mim dizia que iria gritar diante os olhos de todos do escritório que estava usando roupas da nossa chefe. E roupas de ontem podem levantar suspeitas de que não estive em casa.

Ou seja, a blusinha que a Larissa me trouxe era realmente necessária.

– Você sabe que vai ter que me contar tudo, não sabe? – Larissa disse assim que saí da cabine do banheiro e nos preparávamos para sair do banheiro também. – Quem é essa colega?

– Você não conhece.

Mentira. Assim como qualquer outro estudante dessa faculdade, Larissa conhecia essa minha “colega”.

– É da sua idade? – Larissa semicerrou os olhos. – Quantos anos mais velha ela é?

Eu realmente devo me preocupar com a minha fama de me envolver com pessoas bem mais velhas que eu. – Dez, onze… não sei exatamente.

– É casada?

– Não, – rebati de imediato. – Não me envolvo com casadas… não mais… e não que eu esteja ciente disso.

Larissa balançou a cabeça. – Aí, aí, Clarice… eu não sei mais o que faço com você. Só vê se não se mete em roubada dessa vez. A minha mãe já está super desconfiada e de olho em você.

Só de imaginar a tia Lúcia descobrindo que sou lésbica me fez engolir o seco. Eu não sei, mas acho que ela seria capaz de encontrar a cura gay em dois tempos e ministrado pelo próprio Jesus, porque eu não estaria mais viva.

Felizmente, nem Larissa e nem eu, tínhamos tempo para ficar de conversa. Esse assunto teria que ficar para outra ocasião.

Eu já estava suficientemente nervosa preocupada com como seria as coisas no escritório depois do que aconteceu. Sei lá, Valquíria é doida e imprevisível. Eu não sabia como ela iria agir depois dessa noite juntas. Será que ela vai mudar o comportamento? Ou vai continuar como antes? E se ela mudar de ideia de novo? Pode ser que ela tenha refletido melhor e concluído que de fato foi um erro… sei lá. Eu não sabia o que esperar e isso estava me enlouquecendo. Nem parece que estávamos juntas até algumas horas atrás.

Não sabia se estava aliviada por ter encontrado a sala praticamente vazia ou se teria sido melhor se todo mundo já tivesse voltado do almoço. Mas enfim, nem Valquíria e nem o resto do time tinha voltado.

– Nossa gata, mas você está cheirosa hoje. Que perfume está usando? – Mateus perguntou e eu sorri amarelo.

Acho que nunca ouvi tantos comentários sobre o fato de eu estar cheirosa como hoje. E em todos eles eu respondi a mesma coisa. – Gostasse?

Obrigada Glória por me ensinar essa.

Dezessete minutos de atraso depois, lá vinha ela. O look do dia eu já tinha visto, inclusive estava simplesmente gatíssima. Mas como boa admiradora de mulheres gostosas que sou, eu sabia reconhecer uma mudança em minhas divas, mesmo que fosse mínima. Valquíria levantou a mão com intenção de retirar os óculos de sol e a primeira coisa que reparei foram as suas unhas que até essa manhã estavam vermelho vinho e longas e agora estavam em uma cor mais neutra e curtas.

Ela cortou as unhas.

Por minha causa…?

O “sorriso” que ela me deu foi tão discreto que se eu não estivesse olhando atentamente para ela, não teria sequer notado. Mas estava ali. Para mim. E eu vi. Ela definitivamente não tinha voltado atrás…

E como tinha certeza disso? Bem… quando precisei entrar em sua sala para entregar um documento, o sorriso que recebi não foi nada discreto e tampouco rápido. Foi lindo… o mais lindo sorriso que já vi em toda a minha vida e eu não poderia estar mais desesperada.

Existia uma minúscula parte de mim que ainda achava que tudo estava sob controle. Que o que sentia por Valquíria fosse inteiramente físico. E que meu coração não havia entrado para jogo nesse envolvimento que não sei como classificar… e essa minúscula parte acabou de explodir, virar pó e ser levada com o vento.

Todos os meus alertas de perigo estavam gritando. Era impossível eu sair ilesa e esse era o momento que eu deveria parar e dizer “é, não é para mim… melhor não”. E o que eu fiz?

– Posso te levar para sair essa noite?

– Sim.

Eu cadelei… e aceitei mesmo assim. Até por que, quem diz não para essa mulher? Não era eu…

Se a minha intenção era estabelecer limites e não me entregar de primeira, era tarde demais. Meu coração bobo era incapaz de resistir a um sorriso desse.

Muito provavelmente eu vou me sentir uma idiota no futuro? Com certeza. Eu só espero que quando tudo isso acabar, que ela me dispense sem me humilhar.

O resto do meu expediente foi eu fingindo estar conseguindo progredir alguma coisa nos desenhos enquanto me desesperava com a minha nova descoberta. Já imagino o quanto que vou ouvir da Larissa e depois da Glória por cometer o mesmo erro. E pior, estar ciente disso e querer continuar.

Meu celular vibrou sobre a mesma atraindo a minha atenção. A notificação de “nova mensagem de CHEFE” me fez tirar o celular da mesa imediatamente antes que alguém visse.

Eu definitivamente preciso mudar esse nome.

“Eu não esperava que teria que trabalhar tanto essa tarde…”

“Ainda vou demorar, não espere por mim”

“Vá para casa”

“Mais tarde te ligo”

Eu deveria imaginar que algo do tipo iria acontecer pelos comentários da Letícia e como a Val entrou na sala dela e não saiu a tarde inteira.

Mas me ligar?! Para que?

Antes que eu pudesse responder, outra mensagem chegou. Dessa vez uma imagem, mais precisamente um print da tela do celular.

Ela tinha pedido um carro para mim?! E o endereço estava certo…, mas como? Ela só me levou para casa duas vezes.

Eu não questionei. Não seria eu quem iria recusar ir de carro para casa ao invés de enfrentar o trânsito infernal dessa cidade. E chegar antes do meu pai seria melhor.

Como estava cedo, aproveitei para parar na esquina de casa e comprar uns franguinhos para pedir a minha tia para fazer frango empanado hoje. Se não fosse por ela, meu pai e eu passávamos fome nessa casa. Nenhum dos dois sabe cozinhar. Sorte que a tia faz comida para todo mundo.

Um dia que fiquei sem vir a essa casa e tudo estava um caos. Era um saco chegar do trabalho e ter que arrumar tudo todos os dias, mas se eu não fizesse o chato iria reclamar no meu ouvido até minha próxima reencarnação. E o próprio bonito não lava nem o copo que bebe água…

– Aqui Clara, a comida para você e seu pai – a minha tia entrou em casa com a comida nas vasilhas. Normalmente ela me chama para buscar, então sua repentina presença me deixou desconfiada. – Onde você dormiu noite passada que eu vim aqui e você não estava?

E aí estava o motivo… direta e reta.

– Na casa de uma colega do trabalho, – respondi sem muita emoção. – Começou a cair um temporal feio lá na Faria Lima e como ela mora perto, disse que eu poderia ficar lá até a chuva passar… quando passou era tarde e eu fiquei por lá mesmo.

A tia Lúcia ficou me observando em silêncio enquanto eu passava meu pano naturalmente pedindo para deus e todos os santos para essa mulher engolir essa.

– Eu bem vi o tempo feio ontem e já esperava que você fosse dar trabalho. Não fez aquelas cenas na casa dos outros não, né Clarice? Pelo amor de deus, passar vergonha desse jeito com o povo de lá. Você já está bem grandinha e se acharem que é imatura desse jeito não vão nem te efetivar.

Tanto meu pai e minha tia queriam muito que ao término do meu contrato na Visionnaire eu fosse efetivada. Eu mal recebi meu primeiro salário e meu pai me cobrou mais dinheiro que o normal para ajudar na casa. E aí me perguntam “como não conseguiu dinheiro o suficiente ainda se você trabalha igual uma filha da xuxa?”.

– Enfim, eu vou lá. Hoje tem oração na igreja, eu não quero perder. Vê se come, viu. Aproveita que está quentinho.

– Eu só vou terminar aqui rapidinho e já como.

O “rapidinho” levou mais de uma hora. Não dava nem para comer sem antes tomar um banho e restaurar a dignidade. Quando entrei no banheiro meu pai não tinha chegado. Eu não demorei nem 20 min para lavar o cabelo e quando cheguei na cozinha lá estava o meu pai de uniforme e fedendo a álcool.

– A sua tia é doida, é? Mandou só isso de comida?

Reclamou o meu pai comendo o último pedaço de frango empanado.

meu frango empanado.

– Você não deixou um frango para mim? – Perguntei incrédula.

– É só fritar um ovo.

– Era só você fritar o próprio ovo ao invés de comer como se fosse o único morador da casa.

– Com quem você pensa que está falando, mocinha?!

Eu estava com um ódio mortal que seria capaz de matar ele e mais uns cinco. Como esse filho da puta chega aqui só depois que eu termino de limpar tudo sozinha, suja meu chão com a botina suja dele e come a janta dele e a minha junto em VINTE MINUTOS?!

Sem saber como reagir, só dei as costas e fui para o meu quarto ignorando meu pai me chamar. Eu não dou ouvidos a quem come a minha comida.

Com fome me deitei.

Com fome dormi.

Com ódio acordei.

Estava tão indignada e revoltada que levantei da cama e fui direto me arrumar para sair. Mas Clarice, está muito cedo para ir para o Apex… foda-se! Eu quero sumir desse lugar antes que eu dê sumiço nas pessoas daqui.

Somente dentro do ônibus que fui de fato ver o meu celular ainda muito brava. Eu só queria ouvir uma musiquinha e tentar me acalmar um pouco. E nem foi preciso da música… bastou ver as notificações de mensagens da Val e num passe de mágica todo meu ódio passou.

“Talvez eu tenha perdido um pouco a hora…” essa foi a primeira mensagem à 0:12. Eu não acredito que ela ficou até meia noite trabalhando… eu sai do escritório era 17h. Sua mensagem foi acompanhada de uma figurinha de gatinho esfregando o rosto com as patinhas.

“Espero que já esteja dormindo”

“Nos falamos amanhã, durma bem”

“Bonne nuit”

E mesmo terminando de trabalhar meia noite e indo dormir bem mais tarde que isso, antes das 8h já tinha um “Bonjour” me esperando. Os horários de sono dessa mulher é realmente coisa de doido, né?

“Bom dia, mademoiselle” respondi. Precisei pesquisar no google como escrevia senhorita em francês, pois meus conhecimentos se resumiam ao que ouvia todos os dias da francesa.

“Você dormiu?”

Esperava por uma resposta mais demorada, mas antes que eu bloqueasse a tela do celular, lá estava uma mensagem dela;

“Dormi… em partes.”

Eu nem sei o que isso significa” respondi. “Você vai ao Apex hoje?”

“Oui. E você? Te vejo lá?”

“Já estou a caminho”.

“D’accord… eu vou aparecer lá daqui a pouco para te entreter.”

Sua última mensagem me fez lembrar da vez em que foi tomar banho de piscina. É… eu vou precisar visitar um cardiologista. Meu pobre coração vai sofrer na mão dessa mulher e ela não parece ter piedade.

Me distrai tanto com as mensagens que nem vi o trajeto passar. Quando menos esperava tinha chego ao meu destino final e normalmente sinto como se durasse a eternidade.

Para a minha surpresa, a piscina estava um pouco mais movimentada que o normal. Era festinha de algum pequeno e a área estava reservada para o evento, com o acesso restrito aos convidados. E bem, eu não era um deles.

A mesa de comida da festa era enorme. Tinha torta, bolos, pão de queijo, mini cachorro-quente, pizza, sanduíches, salgadinhos, docinhos. Carrinho de algodão doce e sorvete. Meu estomago gritou ainda mais vendo essa cena toda.

Porém, entretanto, todavia, como era um evento privado e eu não estava trabalhando nele, não tinha nem sequer chances de roubar alguma coisa. E na cozinha não tinha nada. Tudo estava servido lá na mesa.

Meus planos que eram comer aqui foram por água abaixo. Além de passar fome, agora passava vontade vendo os outros comendo enquanto eu bebia água.

E eu sei que se eu pedisse algo, era bem capaz deles me prepararem um sanduíche…, mas estava todo mundo ocupado na correria. Eu não iria atrapalhar ainda mais.

Entre as minhas tentativas de me distrair preparando o bar para mais tarde e as olhadas de inveja para o evento, avistei aquela tal amiga de Valquíria que estava com o Bruno outro dia. Uma tal de Gio, Giovana, Giorgia, Gio-sei-lá-o-que. Ela estava com um pratinho cheio de comidinhas gostosas e levou até outra pessoa. Essa que, pelas roupas, sabia que era uma pequena. E pelo selinho que trocaram, só podia ser a sua mulher.

“A Jujuba é little da Giovanna” a voz da Valquíria ecoou na minha mente. “Eu mandei ele levar para ela que amou os cookies e não parava de pedir por ele”

Amassei a latinha em minha mão brava.

Então essa era a “Jujuba”.

Eu não gosto dela!

Não gosto!

E depois que eu a vi ali no meio das pessoas, eu não consegui mais desviar a minha atenção. O tempo todo a observava de canto de olho. Se não bastasse comer um tanto de coisa gostosa, ela tomou banho de piscina, estava se divertindo à beça e a tal da Gio parecia ser muito legal com ela. O tempo todo dava beijinhos, abraços e as duas pareciam tão felizes. Ela ria, feliz, e cada risada dela parecia uma agulha me espetando.

Eu não gosto dela!

Quando a “Jujuba” se cansou de brincar e nadar, a Gio a envolveu com uma toalha felpuda e a abraçou em seu colo. Até aí tudo bem, nada demais. O que aconteceu em seguida eu não esperava; a Gio-sei-lá-o-que abriu os botões da sua camisa e ofereceu o peito para a “Jujuba” que passou a mamar como se fosse a coisa mais normal do mundo.

Minha visão foi logo interrompida por alguém que passou na frente e no que eu me virei para frente me dei de cara com Valquíria.

– O que tanto que observava que nem me notou chegar? – Valquíria perguntou curiosa, minhas bochechas coraram. Que vergonha, meu Deus!

– Nada, eu estava viajando na minha cabeça – menti.

– Sei… até que horas você tem que trabalhar aqui hoje?

– Depende do horário que a Glória vai chegar, por que?

– Que tal fazermos algo depois daqui? Podemos comer em algum lugar.

Falou em comer, eu estou feliz. – Pode ser, – sorri.

– Super! (ótimo).

Com a Valquíria aqui, eu consegui me esquecer da festinha. No entanto, não tive chances de pedir comida já que de repente todo mundo decidiu pedir bebidas antes de deixarem o evento.

Aos poucos o local foi ficando vazio. Tinham mais gente da limpeza que os convidados em si. E como Valquíria estava sentada no meu bar, era óbvio que sua amiga iria vir cumprimenta-la com seu contrapeso junto.

Nós nos cumprimentamos e a Juliana foi se sentar no sofá comer seu pratinho cheio de docinhos. Jujuba… Jujuba é o baralho!

– Você está ocupada, Kyrie? Podemos falar daquele assunto em privado por um momento? – A Giovana perguntou mudando totalmente o assunto que conversavam.

Valquíria me olhou rapidamente. Não era como se eu fosse fugir dali. Eu tinha um bar para cuidar.

– D’accord. Sem problemas.

– Perfeito, eu só vou pedir o smoothie da Ju – ela se virou para mim e eu quis morrer. – Clara, você pode fazer um smoothie de morango para a Jujuba? Aqui, – ela me entregou um copo com tampa e canudo que era a coisa mais incrível do mundo. Era simplesmente duas camadas e entre elas tinha umas bolinhas coloridas que se mexiam. – Use esse copo. Obrigada.

Eu não queria fazer o smoothie para essa chata.

Mas eu fiz. Com ódio, mas eu fiz. Ainda quis cuspir dentro, só que eu não tive coragem. Dentro de mim uma vozinha dizia para “tropeçar” no caminho e deixar cair o smoothie todinho em sua cabeça. Era exatamente o que eu queria fazer, mas eu não tive coragem. Fiquei parada do lado do sofá a observando comer seus doces e assistir desenho no tablet.

Por que as coisinhas tinham que ser assim? Por que ela podia brincar na piscina, comer um monte de coisa gostosa, ganhar um pratinho de docinho só para ela e eu ainda tinha que fazer smoothie no copo feio dela?!

Eu olhava para a Juliana e sentia uma coisa ruim dentro de mim. Não entendia bem o que era, mas era como se algo estivesse apertando o meu coração. Não era justo. Enquanto ela tinha alguém atenciosa e carinhosa ao lado dela, eu tinha que morar com a titia má e o papai maldoso que fazem dodói n’eu.

Não sei dizer o que deu em mim. Antes que eu pudesse pensar, minha mão já estava no cabelo dela. Puxei. Puxei forte. Queria que ela sentisse um pouco da dor que eu estava sentindo. Queria que ela soubesse como era estar no meu lugar…

A Jujuba gritou e começou a chorar. E bem diferente do que acostumava acontecer comigo, todo mundo se virou para saber o que estava acontecendo. Não só Giovana, como a própria Valquíria vieram as pressas socorrer a pobre coitadinha.

– Mon Dieu! Clarice! O que deu em você?! – Valquíria pegou os meus punhos para afastar da Juliana. – Você enlouqueceu, foi? Por que você puxou o cabelo da Jujuba? Ela está pequena. É um bebê! Você não pode fazer isso. Você a machucou!

Mas eu também estou machucada!

Eu quis responder, mas tive medo e só encolhi os ombros. A tia má iria me dar umas boas palmadas se eu falasse alguma coisa e tinha medo de que a Valquíria fosse querer fazer o mesmo.

– Está tudo bem, Kyrie – a Giovana tocou na Val atraindo nossa atenção.

Ver Jujuba no colo da Giovana em seu peito me causou um nó estranho no estomago. Então é isso que acontece quando os bebês de verdade choram?

Tá…

– Desculpa por isso. Por favor não comente nada com a Ana Marta, – Valquíria pediu por mim. – Ela vai…

– Está tudo bem, – Giovana a interrompeu. – Já passou. Essas coisas acontecem.

Eu quis me esconder atrás de Val depois do olhar que a Giovana me deu. Era como se ela estivesse vendo muito mais que gostaria.

Depois que aconteceu, Valquíria conversou com Otávio e eu acabei sendo dispensada do bar. Vi que ela tirou algumas notas da carteira e de certa forma isso me deixou mal. Se não bastasse eu ter estragado o dia da “pobre coitadinha”, mudado os planos do Otávio, ainda dei um prejuízo a Val.

– Vem, vamos embora.

Valquíria me chamou e eu a segui em silêncio.

Puxar o cabelo da Juliana só serviu para voltar todas as atenções ainda mais para ela e os olhares bravos para mim. Até agora não sabia dizer o que deu em mim e para variar, estava me sentindo ainda pior que antes.

Talvez eu só devesse aceitar que nós realmente somos diferentes. Como a própria Valquíria mesmo disse, a Juliana era uma pequena, um bebê. E eu… bem, eu sou a Clarice… a infantil e imatura… ou só a atendente do bar.

«-»

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Au revoir!

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