« V A L K Y R I E »
A sensação de acordar e não saber se era dia ou noite me deixa um tanto desconfortável, e foi exatamente assim que acordei hoje.
Por que eu estava dormindo na sala com as roupas de ontem? Eu não fazia ideia. Honestamente, sequer sabia responder como foi que cheguei em casa.
Me sentei no sofá me sentindo sonolenta. Estava tão lenta que demorei a perceber o copo de água e o remédio sobre a mesa de centro. Eu não sentia dores de cabeça no momento para querer tomar um remédio, mas a água era exatamente o que precisava.
O papel sobre a mesa chamou a minha atenção. Era uma carta escrita à mão por uma letra que eu desconhecia.
“Bem-vinda de volta a vida, V.
Você dormiu a caminho de casa e não tive coragem de te acordar.
Tome o remédio para dor se precisar. Eu deixei sanduíche na geladeira se estiver com fome.
Espero não te ver trabalhando amanhã ♡
Clarice”
Foram necessários outros três segundos para me lembrar do que aconteceu antes de eu apagar completamente. Mon dieu, que vexame!
Por curiosidade fui ver a hora e meu queixo caiu. Eram 13:42 e eu dormi quase 16h seguidas! Como isso foi acontecer?! Eu preciso urgente dar sinal de vida, senão a polícia poderá aparecer aqui a qualquer momento.
Meu celular parecia um caos. Era mensagem pessoal, trabalho, e-mail e uma caralhada de coisas não visualizadas e não respondidas que eu sequer sabia por onde começar ou que fazer.
Na verdade, eu sei sim…
“Merci beaucoup” enviei a Clarice junto com um sticker de gatinho. Foi um “muito obrigada” por ter me colocado para dormir e pelos sanduíches que estavam deliciosos. E também um sinal de que estava viva.
Pensar em tudo que poderia ter feito durante as horas que passei dormindo me deixou frustrada. Não era momento para me ausentar assim. Putain!
A vontade de conferir eu mesma como estava o andamento do que havia solicitado foi mais forte que eu. E confesso que demorei um pouco mais que gostaria para sair de casa por causa dos deliciosos sanduíches de Clarice. Era uma combinação de ingredientes que eu jamais faria, mas que se saíram muito bem juntos e eu adorei.
A caminho do escritório me senti um pouco tola por sair sem antes olhar pela janela. Talvez – e só talvez – ter visto o céu tão escuro que parecia noite em meio a tarde e a forte chuva que armava teria me convencido a ficar em casa. Mas quando vi, já estava na rua e não iria voltar agora.
E também não era como se eu não morasse a exatos 9 minutos sem trânsito de distância do trabalho. Poderia ir facilmente caminhando… se isso não fosse atrapalhar as minhas vestimentas, claro.
– Mas gente, olha só quem apareceu… – Mateus foi o primeiro a me ver chegar. – Pensei que não fosse dar as caras por aqui hoje.
– E perder a minha oportunidade de atormentar vocês? – Brinquei… sem de fato brincar. Eu realmente vim atormentá-los. – O Theo enviou algum documento para vocês hoje?
– Sim, enviou. A Clarice está trabalhando neles – Amanda respondeu. – O Theo disse que ela saberia fazer. Você não estava e também não disse nada, então…
– A Clarice… d’accord.
Clarice estava na sala ao lado totalmente imersa em seu próprio mundo trabalhando nos desenhos que eu precisava.
Em outra ocasião eu iria questionar porque diabos entregaram nas mãos da estagiária algo de extrema importância. No entanto, assim como Theo, eu realmente acredito que ela seja capaz de fazer meus esboços até melhor que os outros aqui.
E bem, ela estava tão concentrada em seu próprio mundo trabalhando nos esboços que eu a deixei estar e não a interrompi… ainda.
« C L A R I C E »
Ouvir a risada que tanto estava fazendo falta hoje tirou todo o meu foco dos esboços. Estava tão imersa em minha própria mente e desenho que não notei o momento em que a Valquíria chegou por aqui. Não imaginava que fosse a ver essa tarde e parte de mim estava contente que sim.
Foi engraçado ver a preocupação e desespero dos outros quando a chefe não só não deu as caras, como também não respondia nenhuma mensagem ou e-mail. Até mesmo Letícia que é assistente executiva e sabe cada passo da Valquíria não sabia dizer nada sobre ela… fora os compromissos que precisou cancelar.
Eu apenas observei tudo me coçando para dizer que nada grave havia acontecido, tampouco estava morta. Ela só estava dormindo… dormindo tal qual uma defunta, mas ainda assim viva. Bruno até me mandou uma mensagem essa manhã para me “tranquilizar”.
Parte de mim queria dizer “oi” e reclamar pelo fato dela estar aqui e não em casa… logo, logo encerra o expediente. Duas, três horinhas a mais de descanso não iria afetar o desempenho do trabalho de forma irreversível e eu estava adiantando a parte para ela. Ou seja, poderia ter descansado, mas não… ela estava aqui.
De qualquer forma, eu ouvi a parte de mim que dizia para ficar na minha e voltar a focar no meu trabalho.
Apesar dos pesares, o fato de ter descoberto o seu segredo ou ter a ajudado a ir para casa ontem não nos tornava íntimas… e o que aconteceu no passado não importa mais. E levando em consideração o que os outros estagiários já fizeram pelos seus chefes, o que eu fiz ontem não passou do meu trabalho.
Quando peguei meu lápis para voltar a desenhar, levei um susto com o som do trovão. Curiosa e preocupada, abri um pouco a persiana da cortina e gelei de medo.
O céu estava cinza escuro, quase negro. As nuvens pesadas se acumulavam, ameaçadoras, prontas para desabar em um tempestade que eu não estava afim de enfrentar. Tempos assim me deixam tensa e nervosa, perturbada por lembranças que tentava apagar.
Meu coração começou a bater mais rápido. Eu tentei me concentrar no projeto outra vez, mas a visão do céu carregado lá fora dominava meus pensamentos. Agora não Clarice, agora não!
– Clarice? – A voz de Valquíria me trouxe de volta. Sequer a vi se aproximar. Seu perfume hoje era diferente, bom. – Você está fazendo os esboços, posso ver?
– Ah, sim.
Por um instante o temporal lá fora deixou de ser minha principal preocupação e passou a ser a minha chefe a centímetros de distância de mim.
O silêncio de Valquíria analisando o desenho me deixou tensa. Ela tinha gostado? Ela o odiou? Como saber?! Sua expressão era neutra, é impossível ler. Ela não sorri, não faz uma cara feia, nada… isso me dá um ódio.
– Por que você escolheu arquitetura? – Ela perguntou aleatoriamente. Foi tão inesperado e repentino que respondi com um som nasal. – Você definitivamente está na faculdade errada. Está perdendo o seu tempo lá… mas conversamos sobre isso depois. Vá para casa. O tempo está feio lá fora, eu vou dispensar todo mundo por hoje.
Fiquei totalmente sem reação a observando sair de perto.
O que significa tudo isso? O que ela quer dizer com “você definitivamente está na faculdade errada”? Que cretina… só porque há pouco tempo pensei que poderíamos nos tratar com civilidade e ela me vem ser babaca a esse ponto?
Assim fica difícil gostar de você, Valquíria. Eu quero que você e seu pritzker que se explodam!
Queria juntar as minhas coisas e ir embora, mas cometi o erro de olhar pela janela. As árvores balançavam com o vento forte. As gotas começaram a bater no vidro, lentas no início, e depois, mais rápidas e fortes, formando um som ensurdecedor.
Tentei não dar atenção e ignorar, mas a imagem do carro deslizando na estrada molhada, o grito da minha mãe, o som terrível do impacto… era impossível não lembrar dessa noite em temporais como esse. Ela se foi em um instante, e eu fiquei sozinha, com o som da forte chuva gravado na minha memória.
Respirei fundo, mas o ar parecia insuficiente. Meu peito apertava, como se um peso invisível estivesse pressionando meus pulmões. Fechar os olhos para bloquear a visão do temporal lá fora me levava de volta ao passado. Noite escura. Cacos de vidro. Sangue.
Senti meu corpo começar a tremer incontrolavelmente. A sensação de sufocamento aumentar e um formigamento desagradável subir pelas minhas pernas e braços. Eu queria sair dali, sair de perto das janelas e me esconder, mas minhas pernas estavam coladas ao chão. Eu estava presa.
– Ei, o que ainda faz aqui, uh? – A voz suave e preocupada de Valquíria interrompeu meus pensamentos.
Ela não pode me ver assim! Ela não pode me ver assim! Vai embora. Vai embora.
– Clarice? – Valquíria se aproximou. Eu virei o rosto e logo me arrependi. Eu não deveria olhar para a janela. – Está tudo bem? Clarice?! Você está tremendo… – Ela colocou a mão sobre a minha e lentamente a apertou. – Ei, calma. Respira fundo. Eu estou com você agora. Você não está sozinha. Respira fundo.
Virei o olhar em sua direção com receio. Tinha medo que fosse mais uma a dizer que era tola e fraca por me deixar abalar assim que já se passaram quase quatorze anos e eu precisava superar. Mas encontrei preocupação genuína em seu olhar, e isso de alguma forma atravessou a neblina do meu pânico.
Até que outro trovão me fez encolher de medo.
Valquíria tocou meu ombro e por um instante seu toque se confundiu com o das pessoas más que chamava de família. O pavor tomou conta de mim e me travei completamente esperando a agressão que viria.
– Clarice? O que está fazendo? Por que está se defendendo de mim? Eu não vou te agredir.
Antes mesmo de processar que quem estava ali era Valquíria e não meu pai ou minha tia, senti o líquido quente molhar a minha calça entre as minhas pernas e o desespero me subiu o peito.
Não… não. Não! Isso não. Por favor, não!
Olhei para baixo horrorizada e para meu pavor Valquíria acompanhou o meu olhar.
– Ó não… – ela disse e eu só quis correr e fugir. – Ei, ei, – Valquíria segurou o meu rosto entre as mãos e limpou minhas lágrimas com os polegares. – Calma, calma, calma. Respira fundo. Está tudo bem. Está tudo bem. Coisas assim acontecem e só tem nós duas aqui, todos já foram embora… calma, vamos dar um jeito nisso.
Eu não sabia onde enfiar a minha cara. Minha crise de pânico deu espaço para a vergonha que sentia. Como eu tive coragem de ter um acidente na frente da minha chefe?! Eu quis morrer.
Já nem sabia mais se chorava pelo medo da tempestade lá fora ou pela vergonha que sentia. Minha mente parecia uma explosão de pensamentos confusos e desconexos. Tantas emoções e sentimentos que não era capaz de processar. Só queria arrancar tudo isso de mim e ao mesmo tempo me encolher no cantinho.
– Clarice, olha para mim. Respira fundo comigo, d’accord? Inspire… um, dois, três, quatro… segure… e expire… um, dois, três, quatro…
Segui suas instruções, tentando me sincronizar com ela. Aos poucos, o som da voz de Valquíria e o ritmo de sua respiração começaram a apaziguar o caos em minha mente. Ela não me soltou em nenhum instante até que eu estivesse mais calma.
– Você está melhor? – Assenti. – Tem certeza?
– Sim… eu… me desculpa. Eu não… eu não deveria ter te atrapalhado… desculpa, eu não quis…
– Por que está se desculpando? – Valquíria me interrompeu. Ela franziu a testa, surpresa e confusa. – Você não me atrapalhou, de jeito nenhum. E você não tem que pedir desculpas por algo assim.
– Mas eu… eu…
– Clarice, s’il te plaît (por favor) – ela me interrompeu antes que o choro voltasse. – Se acalme. Respira fundo… está tudo bem.
Levantei o olhar confusa.
Isso não está certo. Não é assim que as coisas funcionam… ao menos, não foi assim que funcionou até hoje. Não era para ela estar calma ou lidar com isso com naturalidade. Por que ela não está brava? Por que ela não está reclamando sobre eu ser fraca? Por que não está gritando comigo?
Senti um nó se formar no meu estômago. Era impossível sentir outra coisa senão a culpa diante dessa situação. Ela tinha muito mais o que fazer que perder seu tempo comigo. Esse é um problema meu, eu deveria lidar com isso sozinha. Não era para ser um incômodo para ninguém. Para ninguém!
– Eu vou te levar para casa, okay?
Gelei apavorada.
Não. Eu não quero ir para casa. Eu não quero enfrentar essa chuva. Não quero encontrar meu pai. Muito menos a tia Lúcia… ela vai ficar muito brava quando souber. Eu já não sou mais uma criança, eu preciso crescer, eu…
Os ecos dos gritos e xingos da minha tia e meu pai perturbaram a minha mente outra vez. Eles não podiam me ver assim, não podiam! Eu estava com medo. Muito medo.
– Não precisa ter medo. Não está chovendo muito agora, é só o vento. Por isso que precisamos ir logo. Aqui… – Valquíria tirou o próprio casaco comprido. – Usa o meu casaco. Ele é longo para mim, em você deve ser quase um vestido. Irá esconder bem e ninguém vai ver nada.
– Mas… é o seu casaco.
– Não estou com frio não. Pode usar.
Não era sobre isso que estava pensando. Um casaco dela com certeza deve ter custado muito dinheiro e eu estou… suja.
Sem se preocupar com esse pequeno detalhe, Valquíria me ajudou a vestir a peça de roupa e abotoou os botões até em baixo. E realmente, o casaco chegou nos meus joelhos e escondeu a mancha molhada em minha calça perfeitamente.
– Vem, vamos embora.
Mesmo sem querer, eu a segui.
No elevador eu me encolhi no cantinho e assim que paramos nos outros andares, Valquíria se posicionou a minha frente me escondendo das outras pessoas para não correr o risco de que vissem alguma coisa. Embora o casaco por si só fosse o suficiente para esconder.
Como falar para ela não me levar para casa? Eu não quero ir… o papai vai ficar muito bravo e ele não tem paciência comigo. Eu não gosto quando ele fica assim… ele é muito maldoso e cruel… e… e… faz maldades com eu.
Vai ficar tudo bem… vai ficar tudo bem…
Eu nem quis olhar para a janela. Passei todo o trajeto olhando para os meus dedos em meu colo. Quanto menos eu ver, melhor será. Só me atrevi olhar para fora quando o som de chuva contra a lataria do carro parou completamente. Estávamos entrando em uma garagem… do prédio da Valquíria.
– Nós não vamos para casa?
– Sim, a minha.
Por mais que eu não me sentia totalmente confortável em estar aqui, principalmente com a Valquíria acordada, eu estava aliviada por não ir para a minha casa. Ao menos hoje, o apartamento dela era a melhor opção.
– Vem comigo, – Valquíria pegou a minha mão e me conduziu às escadas acima.
Não questionei quais eram as suas intenções e planos, apenas a segui pelos corredores. Aliás, seguir Valquíria tornou-se algo um tanto frequente na minha vida nos últimos tempos.
Dentro do closet, Valquíria começou a vasculhar as peças de roupa em busca de algo. – Você tem preferência de tipo de pijama para dormir?
– Tipos de pijama?
– Calça comprida, shorts ou camisola.
– Eu normalmente durmo com uma camisa velha e shorts qualquer…
Ela me encarou um momento e respirou fundo. – Certo… eu acho que tenho algo para você, – ela procurou em uma gaveta uma peça específica e se virou para mim ao encontrar uma camisa de algodão que para ela era um pouco grande, para mim seria um vestido². – Eu não acho que tenho muitas outras camisas assim… o tecido é bem macio deve ser aceitável para dormir.
– Está ótimo assim.
– Parfait, agora pegue isso – ela colocou a toalha em minhas mãos e foi empilhando outras peças em cima. – Pode tomar o seu banho aí mesmo e depois me dê as roupas sujas que eu vou colocar para lavar. Qualquer coisa me chame, eu vou estar por perto.
Ela me colocou para dentro do banheiro e fechou a porta atrás de mim. Não que eu fosse esperar que ela ficasse aqui enquanto eu tomasse banho. Mas sei lá… ela vai simplesmente me largar aqui?
E sim, ela vai.
Valquíria havia me dado uma toalha de corpo, outra de rosto, um roupão, roupas e um par de chinelos. Exagerada? Não. Nem um pouco.
Depois do banho a situação constrangedora; entregar as roupas sujas. Eu até pensei em meios de lidar com isso eu mesma ou deixar para amanhã na minha casa, mas assim que saí do banheiro, Valquíria estava do lado de fora com um cesto branco pedindo para colocar as roupas sujas ali.
– Voilà, agora você vai ter roupa limpa para usar amanhã – Valquíria disse satisfeita ao jogar minhas roupas na lava e seca. – E até que você não ficou mal com essas roupas. Só faltou uma calça de shopping e poderia sair assim tranquilamente.
Estreitei o olhar desconfiado. – Você está fazendo referência ao Patolino?
– Sim, algum problema? – Ela passou por mim em direção a saída da lavanderia. – Está com fome? Está afim de comer alguma coisa?
Não que a minha resposta fosse fazer alguma diferença. A decisão já havia sido feita por ela quando seguiu para cozinha ciente que eu iria ir atrás. Por que eu estou sempre seguindo essa mulher? Bem, eu não sei.
– Você come risoto? – Ela perguntou retirando algumas panelas do armário.
– Se estiver gostoso.
Ela levantou o olhar para mim. Mesmo com o rosto baixo, notei o pequeno sorrir em seus lábios. – Então a resposta é sim.
– Você é sempre tão segura de si na cozinha?
– Oui, eu sou muito boa na cozinha.
– Como pode ter tanta certeza disso? Você não superou a Gisele.
Se um olhar pudesse matar, eu estaria morta agora. Bastou alguns segundos para eu tremer as bases e quase desistir de cutucar o fogo com a vara curta. Depois notei o saca rolhas em sua mão e tive mais medo.
– Non é o meilleur (melhor) cookie, mas é délicieux aussi (delicioso também) – O ódio era tanto que ela misturou as línguas e parecia querer assassinar a garrafa de vinho ao invés de só abri-la.
Estava com medo de que a próxima “garrafa” em sua mão para abrir fosse meu pescoço? Muito! No entanto, eu não conseguia não achar fofo o seu sotaque e o jeitinho que falava. Eu já acho fofo no dia a dia o seu sotaque meio misturado, mas irritada fica ainda mais acentuado e muito mais fofinho.
– E falando neles, você ainda tem mais? – Eu perguntei para disfarçar e não dizer que ontem comi vários, mas eu já sabia que sim e principalmente onde estavam.
– Oui, eles estão no armário perto de você. Mas não vá comer muito, nós vamos jantar.
– Sim, senhora.
Dei um pequeno pulinho da cadeira alta para ir até o armário. Ao abrir a porta, a surpresa desagradável.
– Ué, estão onde?!
Valquíria parou de cortar sei lá que mato era para olhar para o armário. Fez uma careta confusa pensativa e então balançou a cabeça como quem se recordava de algo.
– Ah, acho que o Bruno levou quando veio aqui hoje, – ela voltou a fazer sua atividade dando a mínima para o assunto seríssimo que estava acontecendo: meus cookies!
– Por que ele faria isso? – Perguntei tentando não transparecer meu ódio feat desespero.
– Porque eu falei para fazer. Não pensei que você fosse querer mais ou que voltaria aqui tão cedo para comer. Eu sabia que eu não iria comer. Como o Bruno falou que ia visitar a Jujuba, eu mandei ele levar para ela que amou os cookies e não parava de pedir por ele.
– Jujuba? Quem é essa?
E por que você deu os meus cookies para ela? Você fez para mim. Para. Mim!
– A Jujuba é little da Giovanna. Você conhece a Gio… ela está sempre no Apex com o Bruno. Ela e a Juliana são casadas, e a Jujuba é louca por chocolate e doces. Igual a você.
– Você deu cookies para uma pequena? – Perguntei incrédula.
– Oui.
– Você não pode fazer isso!
Valquíria levantou o olhar para mim confusa. – E por que não?!
Porque os cookies são meus! Meus!
Por um momento eu quis me jogar no chão, gritar, bater em tudo e jogar tudo que estava na minha frente no chão. Graças ao bom deus, eu percebi a loucura milésimos de segundos antes de fazer e me recompus. Ainda precisei fingir que estava espirrando para disfarçar…
– Porque não pode, – respondi ao me recompor. – Não pode dar doces para os pequenos… foi o que me disseram no bar na tarde deles.
– Ah, mas isso aí é o problema da mommy dela, não meu. A Gio que administre isso. Eu não tenho nada a ver.
– Mas você não podia… – voltei a sentar na banqueta triste e chateada. Não tem cookies para mim. – Eu queria um docinho… e você só come doces ruins. Não tem nada para mim.
Valquíria me encarou por um momento. – Esse show todo porque quer comer um doce?! – Ela riu balançando a cabeça. – Para a sua informação, eu tenho sim bastante doces cheios de açúcar como você gosta, – sorri empolgada com a notícia. – Mas estão lá no carro e eu não vou pegar. E nem você… imagina se dá uma queda de energia nesse temporal, até os geradores estabilizarem para pegar elevador… você não quer ficar presa lá embaixo, quer?
– Eu odeio você.
– Je sais (eu sei), – ela respondeu meio sorrindo, meio triste. – Mas se te fará feliz, eu posso fazer mais cookies para você. Só para você. Aí você leva para casa e seja feliz.
– Eu quero!
– Só não são melhores que a Gisele, mas são melhores que os meus doces sem açúcar.
– Qualquer coisa é melhor que aqueles doces asquerosos que você come no escritório.
Valquíria me encarou enquanto despejava o vinho branco na panela. – Você quem é viciada em açúcar… você quer vinho?
Com o temporal que estava lá fora, eu quem não queria estar totalmente sóbria para dormir. O álcool é sempre um bom aliado quando se quer dormir pesadamente.
– Sim, mas não muito. Eu bebo pouco.
– Não se preocupe, esse vinho é a sua cara. Você irá adorar, – ela comentou, servindo a taça que colocou a minha frente.
– Como pode ter tanta certeza disso?
– Prove.
Eu provei e Valquíria fez o mesmo, mas bebendo direto do bico da garrafa do mesmo vinho que usou para fazer a comida. Acho que não fui capaz de disfarçar a cara de surpresa. Jamais imaginei que alguém tão elegante como ela iria beber alguma coisa direto da garrafa… ainda mais um vinho que se usa diferente formatos de taças de acordo com a uva.
Quanto ao vinho… ela tinha razão. Eu amei. Amei muito. Era docinho, quase um suco. E levemente gaseificado. Uma delicinha!
– Nossa… mas realmente, esse vinho é uma delícia.
– É um moscato. Eu desconheço um vinho mais doce.
– Bem, você tem razão; esse vinho é a minha cara.
– Doux comme toi*, – ela ergueu a taça brindando. – À votre santé
– Saúde.
Por mais que Valquíria e eu tivéssemos nos desentendido, e eu ainda tinha minhas ressalvas em relação a ela, nós nos dávamos muito bem. Isso era impossível negar. Em meio ao temporal que caía lá fora, nós estávamos conversando, bebendo vinho e rindo como se fôssemos velhas amigas e tudo ao nosso redor estivesse bem.
Se trovejou enquanto estávamos ali, eu não ouvi.
– Vai demorar muito?
– Uns 15min até assar.
Sorri desgostosa.
Eu não queria esperar mais 15 min para comer os cookies. Vai demorar muito.
– Quer comer a massa? – Valquíria ofereceu. – Tem gente que gosta… tem doido para tudo.
– Eu quero!
MEU DEUS! Como era bom… eu poderia comer uma bacia inteira de massa crua e ainda querer mais.
– Parece que o pior já passou, – Valquíria comentou observando lá fora. – Mas lá embaixo parece caótico, – acrescentou antes de se sentar no sofá ao meu lado.
Depois de horas na cozinha, decidimos ir para sala. Enquanto Valquíria comia seus queijos e bebia vinho, eu me deliciava com um prato cheio de cookies e um copo de Baileys* – que basicamente era meu copo de leite.
– É… era para eu estar em meio ao caos se não fosse por você. Provavelmente eu nem teria saído do escritório ainda, ou estaria tentando chegar em casa com trânsito parado e ônibus que não passa – me virei para ela e sorri. – Obrigada… de verdade. Você tem essa cara de má e séria, mas é muito gentil e bondosa.
– Eu só fiz isso porque era você, – ela bebericou o vinho pensativa. – Qualquer outra pessoa eu iria pagar um uber e mandar para casa, mas não traria aqui.
Ergui o cenho surpresa e curiosa. Deixei o prato e o copo sobre a mesa de centro para me sentar de frente para a Valquíria no sofá. – Então por que você me trouxe aqui?
– Não é como se você fosse acreditar na minha resposta.
– Que seria…?
Valquíria riu e deu um gole generoso em seu vinho se dando um tempo para pensar. – Je suis amoureux de toi, est-ce si difficile à accepter ? – Ela respondeu finalmente, sua voz tinha um tom melancólico com ar de revolta. E mesmo sem conseguir entender nada mais que “difícil de aceitar”, eu fiquei mal. Era como se a tristeza de Val me afetasse também, quase a abracei, mas me contive.
– Eu sou apaixonada por você, – ela continuou, percebendo que eu não havia entendido, quebrando o silêncio que se formou entre nós. – Completamente apaixonada por você. Desde a primeira vez que você entrou na minha sala. Eu não acreditava em amor à primeira vista até ver você e me apaixonar no mesmo instante. E eu pensei que isso fosse passar, que essa curiosidade fosse acabar… e aconteceu justamente o contrário. Você não sai da minha cabeça e eu quero estar com você o tempo todo, se isso não é estar apaixonado por alguém, então tudo que eu sei sobre amor está errado e eu preciso reaprender.
Ba-ra-lho!
Eu fiquei totalmente sem reação.
Não esperava uma declaração assim tão repentina. Ainda mais vindo da própria Valquíria… qual o problema dessa mulher para querer se rebaixar tanto para ficar comigo? Tipo, olha para mim.
– Uau… eu… eu não… eu não esperava ouvir isso de você.
– Por quoi? – Valquíria perguntou genuinamente curiosa. – Eu literalmente disse que estava apaixonada por você no último dia no Apex.
– Você disse que achava e eu não acreditei. Sabe, você é a Valquíria e eu sou a Clarice, existe um abismo muito enorme entre nós. Não pertencemos ao mesmo mundo. Parte de mim achou melhor não acreditar e não correr o risco de baixar as guardas e ouvir outra vez que nosso envolvimento foi um erro.
Até peguei meu copo sobre a mesa de centro para dar um gole no meu Baileys e descer o nó que se formou em minha garganta. Eu não gosto dessa lembrança. Tento ignorar e colocar de lado, mas ainda dói.
– Me envolver com você não foi um erro, Clarice. Meu erro foi ter me envolvido sem antes aprender como são os relacionamentos entre duas mulheres. Eu fui literal quando disse que não sabia me relacionar com uma. E eu sabia que se fizesse isso sem antes aprender, não tinham sequer chances de dar certo.
– Essas coisas não se aprendem, elas acontecem. Cada relacionamento é único. As coisas vão se encaixando e se moldando com o tempo, sabe? – Valquíria desviou o olhar e escondeu sua careta atrás da taça de vinho. – Como você pretendia aprender sobre isso?
– Lendo livros ou relatos. Observando também, eu gosto de observar as outras pessoas, é sempre interessante – ela comentou olhando o nada pensativa. – Ah, e novelas… as novelas são ótimas para estudar o comportamento das pessoas. Têm umas tão absurdas que eu fico incrédula e acho impossível. Até que um dia vejo alguém agindo exatamente igual na vida real e percebo que as pessoas são confusas e ao mesmo tempo tão previsíveis, – ela finalmente olhou para mim e corou envergonhada. – Désolé, je… eu me empolguei – ela limpou a garganta, – enfim… eu… eu sou estranha e não sei deixar as coisas acontecerem naturalmente. Se eu não sei para onde estou indo, o que estou fazendo ou que esperam de mim, eu me sinto ansiosa e insegura. É como se a qualquer momento eu fosse fazer algo que irá decepcionar a todos e ser a última a perceber.
Eu devo ter idealizado a Valquíria como uma mulher tão poderosa e incrível que ver seu lado ansioso e inseguro era um baita choque de realidade. Viemos de mundos diferentes, mas nós duas temos nossos próprios medos e problemas, nem tudo foi um mar de rosa para ela também.
– Deve ser bem estressante e cansativo viver assim… preocupada e pisando em ovos o tempo todo, – comentei sincera. – Você não precisa ser assim… ao menos não comigo.
Eu não sei o que deu em mim, quando me dei conta já estava acariciando o rosto da Val. Talvez fosse o álcool ou sei lá, mas eu não conseguia desviar os olhos dos seus lábios e a vontade de beijá-los só crescia.
– Eu não quero que seja perfeita, eu só quero que seja você.
Valquíria colocou a mão sobre a minha, inclinou o rosto se aproveitando do carinho e fechou os olhos. – Você só diz isso porque não sabe o que sou de verdade.
– Então me mostre quem você é de verdade e me deixe decidir por mim mesma se gosto ou não.
Ela me olhou, e por um momento, vi a luta interna que ela enfrentava. Finalmente, Valquíria suspira, pega a minha mão entre as suas e dá um beijo delicado. – Eu tenho medo, Clarice. Tenho medo de que, se você souber tudo, vai perder completamente o interesse que ainda tenha por mim sem antes eu ter a chance de te conquistar.
– Você é sempre tão direta assim? – Perguntei envergonhada.
– Eu estou sendo inconveniente? – Sua preocupação genuína acabou sendo fofa e deu vontade de morder sua bochecha. – Eu posso parar se quiser, eu não…
A melhor forma de calar alguém era com um beijo e assim eu fiz.
Poder o álcool ou o desejo contido, eu não sei o que me deu essa coragem repentina e honestamente não queria saber agora. Eu estava beijando a Valquíria, em seu sofá, no seu apartamento e se deus quiser, logo, logo também na sua cama.
E se dependesse de Valquíria… era exatamente o que iria acontecer.
Quando o choque inicial da surpresa passou, ela se entregou, correspondendo ao beijo cum uma urgência que refletia a minha. Era como se todo o sentimento comprimido nos últimos dias decidisse assumir o controle dos nossos corações e corpos.
De repente, senti a sua mão me envolvendo pela cintura e me puxando para o seu colo. Em resposta, a agarrei pela nuca, não lhe dando chances de se afastar de mim. Suas mãos invadiram por debaixo da minha camisa sem pedir licença, me fazendo arrepiar o corpo inteiro. Depois eu vi suas reais intenções quando ela puxou essa mesma camisa para cima.
Me senti exposta ao me deparar com o olhar intenso de Val sobre mim. Era como se fosse me devorar a qualquer instante. Senti minhas bochechas corarem no momento em que seus olhos se encontraram com os meus e o sorriso que surgiu em seus lábios foi a mistura da coisa mais linda e safada que já vi.
No momento em que cogitei me esconder do olhar de Val, ela beijou o canto dos meus lábios e desceu para meu pescoço e ombros deixando beijos pelo caminho. Novamente eu estava entregue em suas mãos – e lábios – esquecendo minha própria vergonha.
Fechei meus olhos e me deixei ser levada para onde Valquíria quisesse me levar. Eu estava fazendo justamente o oposto daquilo que deveria… me entregar a essa mulher era um perigo. E por mais que não fosse nada sério, eu me conhecia muito bem para saber que meu coração não iria entender isso.
E mesmo assim eu não estava disposta a voltar atrás. É como dizem por aí; se você está no inferno, sente no colo do diabo.
«-»
Gostou? Não esqueça de comentar! Até a próxima…
Au revoir!
