Elora Aneva

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08. Valkyrie Autiste

« V A L K Y R I E »

Sentada sozinha em meu apartamento, as luzes baixas lançando sombras na parede. A taça de vinho tinta descansava sobre o balcão à minha frente. Eu me via presa observando o líquido escuro ondular no cristal enquanto eu girava lentamente entre os dedos.

Eu costumava achar momentos como esse acolhedor, agora só consigo pensar o quão solitário é. A cada gole parecia aumentar o vazio dentro de mim e o silêncio ao meu redor.

Deitei a cabeça sobre o balcão, tentando afastar os pensamentos tumultuados desde a última conversa com Clarice na saída do Apex. Como era possível eu ter ferrado tanto a ponto dela pensar daquela forma de mim?

Eu não consigo nem me ofender ou me chatear com o que me disse, eu mereci. Eu mesma plantei a dúvida nela e não poderia esperar algo diferente. E se ela estiver certa sobre mim? E se isso não passar de uma fase? E se meus sentimentos não passarem de mais um dos meus hiperfocos?

As palavras de Clarice ressoavam em minha mente, me fazendo sentir ainda mais perdida. Eu estava certa de que o que eu sentia por Clarice era único. Ninguém nunca despertou em mim o que ela me desperta. Se isso não é amor, também não é uma simples amizade.

Me levantou lentamente e caminhei até a janela da sala, olhando para a cidade iluminada abaixo. A vida continuava lá fora, indiferente à minha dor e confusão. Tomei outro gole de vinho, tentando encontrar algum consolo na bebida. Mas a verdade era que nada parecia capaz de preencher o vazio deixado pela distância entre Clarice e eu.

Como eu poderia provar a ela que o que sinto é diferente do que apenas uma curiosidade? Se fosse apenas carência qualquer um poderia me fazer sentir o que ela me fez sentir aquela noite…

Virei o vinho em minha taça em um único gole, peguei a chave do meu carro e saí. Eu provavelmente vou me arrepender da minha decisão, mas infelizmente aquele idiota me conhecia melhor que ninguém.

O trajeto eu conhecia muito bem e não precisava de autorização para subir até o seu andar. Ao menos ele não me tirou de sua lista até agora e isso foi bom. Por mais que eu estivesse aqui, eu não queria pedir permissão para entrar… isso sim feriria meu ego.

– Valquíria? Você por aqui, – Pedro Henrique abriu um sorriso presunçoso ao me ver em sua porta. – O que devo a honra da sua visita?

– Será que podemos não conversar sobre isso? – Entrei em seu apartamento sem esperar por seu convite.

Pedro Henrique fechou a porta atrás de si. – Certo, e o que você quer fazer?

– Você sabe muito bem.

– Eu sei, – ele disse, me puxando para seu abraço e dando beijos em meu pescoço. – Bateu as saudades?

– Longe disso. Você é insuportável e eu te odeio. Só tem uma coisa que presta.

– E você veio atrás disso… isso é muito a sua cara, Valquíria.

Os beijos de Pedro Henrique contra a minha pele não eram como os de Clarice. Não me causavam arrepios, muito menos acendiam um desejo dentro de mim. Pelo contrário, apenas aumentava a minha vontade de desistir dessa ideia e ir embora.

– Você tem algum vinho por aqui?

Pedro Henrique se afastou sem tirar as mãos da minha cintura. – Se bobear, ainda tem aqueles que você deixou envelhecendo na adega.

Me soltei dele e fui até a mini adega que ele tinha em sua copa. Se passaram anos desde que terminamos o nosso relacionamento e muita coisa por aqui continuava idênticas, como se eu nunca tivesse deixado de frequentar ou como se esse apartamento nunca tivesse deixado de ser meu.

Encontrei um Pinot Noir do vinhedo da minha família. Sentia como se fosse falta de respeito abrir uma garrafa de uma safra premiada para beber assim, mas estar sóbria agora não era o que precisava, muito menos o que queria.

Enchi a taça e virei em um único gole.

Pedro Henrique me envolveu pela cintura e me beijou os lábios com uma urgência que outrora me faiza perder o fôlego, mas agora só conseguia sentir uma estranha desconexão. Fechei os olhos instintivamente, mas a minha mente me traiu, me levando para um lugar completamente diferente.

Me levando até Clarice.

Clarice, com seus olhos azuis brilhantes e sorriso que aquecia meu coração. Clarice, cujos os beijos eram suaves e delicados, como uma brisa de primavera. Quando nossos lábios se encontravam, havia uma dança lenta e harmoniosa.

O beijo de Pedro Henrique era diferente. Era apressado, como se tentasse recuperar algo que já estava perdido. Seus movimentos eram impacientes, uma tentativa desesperada de reavivar uma chama apagada. E eu não conseguia evitar comparar.

Com Clarice, cada beijo era uma sinfonia, uma celebração dos seus sentimentos. Era como se o tempo parasse, permitindo que nós explorassemos cada nuance daquele momento. Havia uma suavidade, uma ternura que me faz sentir segura e desejada.

Eu tentei me desvencilhar desses pensamentos e focar no que acontecia agora. Me afastei dos beijos de Pedro Henrique e tratei de tirar seu cinto. Eu não queria passar muito tempo aqui, por essa razão tentei não enrolar muito.

Pedro entendeu que, o fato de eu ter aberto o fecho de sua calça, significava que poderíamos ir direto ao ponto e que seria bom assim. E não foi. Eu sequer estava molhada o suficiente e seus dedos em meu clitóris estavam pesados demais para sentir alguma coisa. Sempre achei que eu não gostava do contato direto, vai ver o problema não era eu e sim quem estava me tocando lá.

Mesmo assim não desisti e talvez esse tenha sido o meu erro. Por mais que eu me esforçasse e tentasse acreditar que aquilo não se passava de um brinquedo para eu sentar, era impossível ignorar as mãos de Pedro vagando pelo meu corpo e me desconcentrando.

– Não se mova! – Eu mandei prendendo suas mãos sobre a cabeça.

Quando eu mandei não se mover, eu quis dizer não se mover por completo. Eu estava por cima e eu queria o controle para mim. Mas Pedro não entendia isso, ele achava que o objetivo era me desafiar. Se eu mandava não fazer, ele fazia. Se eu mandava ir mais devagar, ele ia mais rápido. Se mandava parar, ele continuava.

Sua indisciplina me incomodava, tirava a concentração e acabava causando o efeito oposto.

– Eu mandei você não gozar.

– Com você sentando desse jeito? Impossível, – Pedro sorriu satisfeito e fechou os olhos. – Eu tinha me esquecido como você consegue cansar qualquer um… é por isso que eu te amo.

Ouvir isso dele me causou repulsa.

Estar em cima dele me causou repulsa e eu imediatamente me levantei. Fui ao banheiro me limpar e tentar me livrar da sensação ruim que sentia, mas não foi o suficiente.

Será que eu fui tão idiota assim por não ter percebido isso antes?

A quem eu estava tentando enganar? Por mais que eu insistisse e tentasse, não estava dando certo. Me dei conta de que, esse tempo todo, não era o Pedro Henrique que era bom, e sim, eu quem sabia fazer bom proveito da sua única parte útil que ele tinha… e agora minha mente e meu coração estavam longe daqui já não era tão útil assim.

– Onde você vai? – Ele perguntou ao me ver recolhendo minhas coisas.

– Embora.

Pedro Henrique se levantou rapidamente e veio me agarrar dando beijos em meu pescoço. – Mas já? Não quer nem fazer mais uma vez? Depois de tantos anos, acho que merecemos mais algumas doses. Você não acha?

– Se ao menos fosse bom para querer repetir… já conclui meu objetivo aqui, não vejo motivo para continuar.

– Então quer dizer que você só estava me usando?

– Da mesma forma que você me usou… não se sinta ofendido. Eu só precisava ter certeza de algo, e bem… agora eu estou mais certa do que nunca que transar com você nunca foi uma experiência boa de verdade.

Pedro Henrique me afastou segurando meus braços. – Como é que é?

– O que nós fizemos aqui foi horrível, Pedro Henrique. Você sempre se achou bom quando na verdade tudo que fez foi me deixar frustrada e tentar me convencer que o problema era eu… de certa forma você tinha razão. O problema era eu aceitar e ter continuado com você por tantos anos.

– Você está delirando.

– Não, eu não estou. Eu conheci alguém… alguém que em uma noite me fez gozar muito mais que você foi capaz em quatro anos. Mas eu não quis admitir isso, não assim tão fácil. Eu não queria aceitar que me apaixonei por alguém tão rápido e tentei me convencer de que fosse só carência… e veja só, não era.

– Quem é ele?

– Não é ele. É ela…

Pedro Henrique riu. – Era só o que me faltava… você vai mesmo dar ouvidos aquele seu amiguinho cirurgião? – O jeito que Pedro falava de Bruno me incomodava. Sempre incomodou. – Se não bastasse essas suas sem vergonhices depravadas que gosta de praticar, agora decidiu que também vai fazer parte desses negócios de homossexualismo. Você realmente está perdida e confusa sem mim. Não sabe o que está fazendo e fica dando ouvidos para essas asneiras.

– Eu sei muito bem o que estou fazendo.

– Sabe mesmo, Valquíria? Você acha mesmo que essa sua aventura lésbica vai dar em alguma coisa? Aposto que essa pessoa não faz ideia do que você é de verdade. É sempre assim, todos estão interessados até virarem a segunda página.

Eu me calei sem ter o que responder, até porquê, ele tinha razão. Clarice não fazia ideia sobre mim e eu não tinha como ter certeza se ela teria se envolvido comigo se soubesse. Mas isso não mudará o fato de que me senti muito melhor com ela.

– Para um passatempo, não interessa se você é deficiente ou não, – ele continuou.

– Isso não é verdade.

– Quantas pessoas continuaram com você depois que descobriram seu segredinho? Você sabe que é verdade. Você pode ser gostosa, ter dinheiro e tudo mais, mas no final todos eles preferem a mulher perfeita. E mesmo que se esforce muito para parecer uma, você sabe muito bem que não é isso.

As palavras dele me atingiram como um soco no estômago. Por um momento, quase acreditei nele. Mas eu sabia muito bem o que ele estava tentando fazer. E eu não iria abaixar minha cabeça.

– Isso não é verdade, – repeti com mais firmeza.

– E por que não seria? – Ele insistiu. – No fundo, você sabe que ninguém além de mim irá te aceitar e te querer como eu te quero. É por isso que depois de dois anos que terminamos você ainda está aqui.

Respirei fundo, reunindo toda a coragem que tinha. – Você não me quer, Pedro Henrique. Você só quer me controlar. E eu não vou mais permitir isso.

Me levantei para ir embora e Pedro veio atrás de mim, agarrou meu braço com força. – Você não vai a lugar nenhum, – ele rosnou, apertando meu braço com mais força.

– Lâche-moi!

– Você está cometendo um erro, – ele sussurrou, o seu olhar era sombrio.

– Não, Pedro Henrique. O erro foi ficar aqui por tanto tempo e não ter dado um basta dois anos atrás.

– Valquíria! – Ele tentou me impedir de me soltar e eu o encarei furiosa.

– Eu mandei você me soltar.

Pedro Henrique apertou o meu braço com ainda mais força e tentou me puxar para perto, mas eu o golpeei na garganta. Ele se curvou de dor e essa foi a minha deixa para sair.

Depois de quatro anos, ele ainda não aprendeu que a filha do seu Fernando não se brinca.

Quando a porta do elevador se fechou, Pedro Henrique tinha acabado de sair do apartamento para vir atrás de mim. Ainda tive tempo de dar um tchauzinho. Respirei fundo várias vezes para manter a minha postura. Eu não iria chorar aqui e não daria esse gostinho de vitória a esse traste.

Ao alcançar meu carro, entrar e fechar a porta, senti uma proteção temporária contra o mundo exterior. Mesmo assim, não me dei o tempo de gostaria e logo liguei o motor para dar o fora daqui o quanto antes. No caminho, minha mente revisava a conversa dolorosa com Pedro Henrique. As palavras dele, carregadas de veneno e manipulação, ainda ecoavam em minha cabeça.

“- Quantas pessoas continuaram com você depois que descobriram seu segredinho? No fundo, você sabe que ninguém além de mim irá te aceitar e te querer como eu te quero.”

A dúvida se instalou, correndo a minha confiança recém-adquirida. Será que o Pedro Henrique estava certo? Será que a Clarice realmente me aceitaria quando descobrir a verdade? O nó começou a formar em minha garganta, as lágrimas ameaçando a cair.

Meus sinais de alertam me forçaram a parar no posto de gasolina que estava à frente. Estacionei o carro em uma das vagas próximas à loja de conveniência e desligou o motor. O silêncio que se seguiu foi esmagador. Finalmente, a tempestade dentro de mim se soltou. Apoiei a testa no volante, e as lágrimas começaram a cair.

Chorei pela dor de ter sido manipulada por tanto tempo. Chorei pelo medo de não ser aceita. Chorei pela incerteza de como serão as coisas com Clarice. As dúvidas me invadiam, uma após a outra, como ondas quebrando contra um rochedo.

A Clarice já me odeia sem saber… imagine quando souber.

Esprei um pouco para me recuperar e saí do carro. Na conviniência comprei duas garrafas de água, todos os tipos de chocolates e doces que estavam expostos ali. Eu estava me sentindo na merda e nada pior que doces para combinar com meu estado. E doces me lembram a Clarice… e eu estraguei tudo com ela sem nem ter tido a chance de começar. Como eu pude ser tão idiota?!

Quando cheguei no caixa, o rapaz me olhou espantado, mas não comentou nada.

– Algo mais, senhora?

Levantei o olhar para o rapaz e avistei atrás dele o maço de cigarro que há uns anos estava tentando evitar. A tentação de pegar um e acender era forte, uma maneira fácil de tentar aliviar a dor que me consumia. Por muitos anos essa foi a minha válvula de escape para minhas crises e funcionava bem.

– E o maço de cigarro, por favor.

Por uma hora eu fiquei ali, no estacionamento, dentro do meu carro, fumando um cigarro e pensando na vida… como é possível alguém ser tão bem sucedida na carreira e um verdadeiro desastre em todo o resto?

Eu preciso de um novo Pritzker.

A caminho de casa eu ainda passei no mercado. Para fazer os melhores cookies, eu precisaria dos melhores ingredientes e queria escolher todos eles a dedo. A melhor manteiga, farinha especial, gotas de chocolate gourmet, favo de baunilha, açúcar organico, ovos felizes, fermento em pó, bicarbonato de sódio e sal marinho.

Clarice pode não ouvir a mim e estar nem aí para a minha presença, mas os meus cookies… não irá poder ignorar. Eu vou fazer com que ela me escute, nem que seja pela última vez.

« C L A R I C E »

Pensar em ir ao escritório me deixava ansiosa. Eu não consegui esquecer o que ela me disse esse final de semana. Valquíria não me deu certeza do seus sentimentos, afinal, ela “acha” que se apaixonou por mim.

E sinceramente? Eu dúvido que seja algo real.

Meu, olha para ela e olhe para mim. Não tem nem cabimento umas coisas dessas. A mulher nasceu com a vida feita, aí não satisfeita, fez a vida de novo se tornando um dos nomes mais fodas da atualidade e se apaixonou pela pobre lascada que ela mesma rejeitou? Eu sei que sou boa no oral, mas não para tanto. Supera, vai viver.

Depois da Diana eu já me envolvi com outras mulheres ricas mais velhas, a maioria casada. Todas elas tem algo em comum; elas não estavam interessadas em mim, Clarice, elas queriam acabar com as frustração que seus maridos homens causavam. E uma coisa é sempre certa, era só questão de tempo até se enjoarem e te descartarem.

Não que Valquíria seja uma velha rica casada, mas ela é rica e assumidamente hétero que se diz hétero e considerou nossa noite juntas um erro, ou seja… alerta vermelho em letras garrafais e com neon. Melhor manter distancia.

Eu comi uma coxinha no ônibus para não ter que comer no trabalho ou conversar com a minha chefe sobre me liberar para tal. Quando cheguei percebi pavor e tensão nos olhos de todos, logo senti que comer no busão foi uma decisão sensata. Seja lá o que aconteceu, não era eu quem queria ficar cara a cara com o diabo.

– Clarinha, que bom que você chegou – Mateus comentou. – Só você para salvar o dia.

– Nossa, mas até vocês estão tensos – comentei, tirando a mochila das costas e preparando a minha mesa. – O que rolou?

– Teoricamente não aconteceu nada, e está todo mundo tentando evitar que algo aconteça.

– Por que?

– Você vai descobrir ao longo do dia, – Amanda comentou e me estendeu um envelope branco. – Aproveitando que você está de pé, você poderia levar esses documentos para a Val?

Só porque eu queria evitar o diabo…

– Ok. Eu levo.

Peguei o envelope, e tive a impressão de que os olhares sobre mim estavam tensos.

Bati na porta de Valquíria, esperei uns segundos e abri. Ela estava com a cabeça baixa sobre a mesa e antes que levantasse o olhar para mim eu já entendi tudo.

Valkyrie Touchon, a própria, veio trabalhar de roupas comuns, sem maquiagem e sem saltos, e os cabelos ao natural. Não estava feia, até porque essa mulher nem se quisesse ficaria feia, mas definitivamente não era a Valquíria que estávamos acostumados. E conhecendo bem, isso não era um bom sinal.

– A Amanda mandou te entregar.

– O que é isso?

– Documentos… foi o que ela disse.

Entreguei o envelope e ela imediatamente deixou sobre outra pequena pilha que se formava em sua mesa. Pilha essa que eu nunca vi antes.

– É isso… eu vou saindo.

– Clarice, espera – a encarei curiosa. – Eu tenho algo para você.

Valquíria abriu a gaveta e retirou uma caixinha rosa com laço branco. Em seus olhos havia um brilho diferente ao me entregar o objeto que sobressaía ao visível cansaço estampado em seu rosto.

– O que é isso?

– Abra.

Abri a caixinha desconfiada. Eram cookies, quatro deles. Dois de chocolate com gotas de chocolate e o outro parecia ser o tradicional com gotas de chocolate. O cheiro era maravilhoso e deu água na boca para provar.

– Experimenta, – ela pediu.

Peguei o de chocolate e dei uma mordida.

– E então, o que achou? – Ela perguntou curiosa.

Eu só queria sair da sala e ir para o meu canto. Qualquer comentário que fizesse ela iria querer saber o porquê e entender. Eu não estava com saco para ter essa conversa, até porquê depois do que aconteceu, eu não tinha mais interesse algum nos cookies dela também. Eu serei eternamente time Gisele.

– É bom.

– Bom?

– Não é melhor que o da Gisele, mas é gostoso. Você comprou onde?

Valquíria ficou sem reação. – Eu fiz, – murmurou quase inaudível.

Olhei para o cookie em minha mão e os da caixinha. É… era bem a cara da Valquíria fazer algo que parecesse comprado de tão perfeitinho.

– Je suppose que cette salope est meilleure que moi, – ela comentou não muito contente, eu não entendi nada. – Enfim, você pode levar para você ou dividir com os outros. É seu.

– Merci, – usei tudo que sabia de francês e sai.

Sozinha no corredor e com a certeza de que ninguém estava me vendo, eu terminei de devorar o cookie que estava em minha mão. Por Deus! Essa filha da xuxa é insana! Que ódio! Que ódio!

A quem eu queria enganar?! O cookie dela era muuuuito melhor que os da Gisele! Como ela ousa fazer uma coisas dessas?! Como?! Não era para ser bom! Eu odeio essa vaca!

Guardei a minha caixinha como se fosse o bem mais precioso mundo sem que ninguém mais visse para evitar questionamenots, mas principalmente para evitar dividir com outras pessoas. Eu nunca mais comeria essas preciosidades e não estava disposta a compartilhar com ninguém!

Ninguém!

Era incrível como tudo na T&M Visionnaire, também conhecido como T&M ou Visionnaire, estava totalmente ligado ao estado de espírito de uma de suas arquitetas principais. Nós nunca imaginavamos que um dia veriamos a Valquíria sem salto ou maquiagem, e agora que aconteceu… até problema na obra deu.

– Vai ter que ir lá, – Amanda concluiu. – Conversar com o empreteiro e uma porta vai dar no mesmo resultado. E o engenheiro é outro… por que ainda trabalhamos com esse povo?

– Alguém vai lá, – Valquíria disse sem ânimo. – Eu não vou.

– Como não? É justamente você quem precisa ir lá.

– Moi ?! Pas question, bordel ! (“Eu?! Nem fodendo”)

– Mas é o seu trabalho.

– E quem disse que eu quero trabalhar?! Eu não vou… e se reclamar, eu encerro meu expediente e vou embora.

– Então eu vou ligar para o responsável dos engenheiros resolver isso…

Valquíria encarou Amanda séria. – Você não ouse chamar aquele infeliz… putain! Mais quelle merde, vous ne me laissez pas un jour de paix. Quel enfer ! – Valquíria saiu bufando para sua sala e Amanda sorriu vitoriosa.

– Mateus, agora você vai com ela e evite que ela perca o ré primário naquele lugar.

– Eu não, tá doida? Tenho um monte de coisa para fazer e o Bárbara não para de me mandar coisas.

– Nem olha para mim, – Letícia levantou as mãos. – Eu tenho que entregar essa planilha hoje… manda a Clarice.

Arregalei os olhos desesperada. – Eu? Mas o que eu vou fazer lá?

– Exatamente, querida. Você não está aqui para aprender? Vai aprender a acompanhar uma obra na prática… e de praxe, evitar que a outra seja presa. Contamos com você!

Antes que eu pudesse responder para recusar, Valquíria voltou. Agora com uma jaqueta – e pasme, jeans – e óculos de sol.

– Et alors, quem vem?

– Tchau, Clarice.

– Allons-y, Clarice.

Ela saiu andando. Eu não tive escolha a não ser reunir alguns dos meus pertences às pressas e a encontrar esperando o elevador. Ficamos em silêncio até o estacionamento e já imaginei como seria dentro do carro também.

– Você tem CNH?

– Tenho, mas eu não…

– Pega. Você dirige.

Sem mais, sem menos ela jogou a chave na minha direção e foi para o lado do carona do carro.

– Você está doida? Eu não vou dirigir o seu carro!

– Por que não? Abre as portas logo.

– Por que não? E se acontecer algum acidente? Se eu bater o seu carro ou arranhar a lataria?!

– E não é para isso que serve o seguro? Vamos logo, se demorarmos demais na volta vamos pegar um trânsito infernal na Tietê.

Ela entrou no carro. E era isso… não existe poder de escolha quando se trata dessa mulher e eu a odiava por isso.

Eu rezei uns três pai nosso antes de entrar no carro e assumir o volante. Eu até gosto de dirigir e pegar a estrada, mas sozinha. Ter alguém do meu lado sempre me deixa nervosa e ansiosa, principalmente se esse alguém é o meu pai. Ele é a pessoa mais impaciente possível e deixa qualquer um louco.

– Esse é o endereço, – ela mostrou no GPS do carro. – Ne t’inquiète pas, Clarice – eu a encarei sem entender, um pequeno sorriso surgiu em seus lábios. – Não se preocupe, – ela traduziu. – Nada irá acontecer e se acontecer, não tem problema também.

– Você fala isso agora.

Quero só ver depois que a merda acontecer…

A tia Lúcia era uma que, na igreja, pregava sobre paciência e o “papel da mulher” em casa e na criação dos filhos. Um discurso lindo de se ouvir, mas era só eu ou a Lari cometer um erro… aí toda essa história ia para o espaço e o couro comia.

Uma vez ela me deu uma vassourada na cabeça por ter derramado água no chão. Imagina o que não faria se eu arranhasse o carro velho dela… um caro desses então… quero nem pensar.

Dirigir com Valquíria ao meu lado foi mais tranquilo que eu esperava. Ao invés de ficar observando cada movimento meu e julgando se estava fazendo certo ou errado, ela simplesmente cagou para a minha existência. Quando não estava trabalhando, respondendo a alguns e-mails e mensagens, estava jogando seu sudoku na dela.

Queria que ela fosse assim comigo no dia-a-dia… eu provavelmente seria mais feliz.

– É a sua primeira vez em uma obra, certo?

– Sim.

Valquíria verificou a hora em seu relógio de pulso. – Alors… temos pouco tempo, mas ainda dá tempo. Eu vou te ensinar o que precisa saber. On y va, vem comigo.

A segui pelo caminho sem entender muito bem o que pretendia fazer. Era nítido que ela conhecia tudo por ali como a palma da própria mão e todos os trabalhadores sabiam quem era ela. Por incrível que pareça, eles pareciam muito mais confortáveis com a presença dela que o pessoal do primeiro andar do escritório.

– A primeira coisa que precisamos garantir numa obra é a segurança de todos os trabalhadores, incluindo a sua – Valquíria me passou um capacete. – Use isso. Qualquer pessoa que entrar aqui precisa usar equipamento de segurança, independente da função. E você, como a arquiteta do projeto, precisa ver os capacetes, luvas e botas de segurança e certificar que todos estejam devidamente equipados. Sempre tem um ou outro que acha que ninguém ira notar.

Depois dali fomos para o que parecia ser o “escritório” improvisado da obra. Ali tinha um quadro com todo o cronograma detalhado. Inclusive algumas coisas que estavam ali era resultado do meu trabalho.

– Você já conhece um pedaço disso aqui, mas é isso que a Letícia e Amanda estão sempre em cima. Um pequeno atraso pode causar um efeito dominó e prejudicar todo o projeto. E honestamente… você não vai querer essa dor de cabeça. Veja isso…

De repente eu estava tendo uma aula particular com a Valquíria, aprendendo na pratica coisas que já ouvi falar em sala de aula. E confesso que, em sala, eu não havia entendido muito bem.

Depois dali fomos para a obra propriamente dita, Valquíria me falou sobre fundações, me fez assistir a um operário posicionando um bloco de concreto e me deu uma aula de engenharia. E aos poucos fui entendendo o porquê dela ser boa no que fazia. Ela realmente conhecia cada detalhe e parecia amar também.

Eu não iria duvidar se por acaso ela quisesse construir com as próprias mãos e dar muito certo.

Estavamos conversando com o empreiteiro, entende-se: Valquíria estava conversando com o empreiteiro, quando um homem alto e bem vestido se aproximou de nós. Tudo nele exalava dinheiro, a vestimenta, o rolex no punho e sua aparência.

Quando Valquíria notou a sua presença, seu semblante fechou completamente. Vendo isso, o homem sorriu.

– O que faz você aqui?! – Valquíria perguntou séria.

– Ora, como o que eu faço aqui? Eu sou o engenheiro dessa obra, eu tenho direito de estar aqui.

Valquíria revirou os olhos. – Você também tem direito de se ferrar… o que você realmente veio fazer aqui? Te conheço muito bem, você não apareceria aqui a essa hora assim, de repente.

– Ouvi dizer que viria aqui, só passei para ver como você está… especialmente quando você ainda por aí assim… tão desleixada, – ele a olhou de cima abaixo com julgo. – Você costumava ser tão cuidadosa com a aparência. O que há de errado com você? Parece até que engordou.

Senti uma onda de raiva subir por mim, mas me contive. Quem esse filho da mãe pensa que é para falar assim?!

– E mesmo desleixada e gorda, você vive correndo atrás de mim. Então vá a merda, Pedro Henrique. Eu estou trabalhando, não me enche o saco.

– Entendo, entendo… não me leve a mal. Só estou preocupado… é uma pena. Você era tão linda quando se arrumava e cuidava de si. Fazia qualquer um se apaixonar por você, – ele fez uma pausa, o olhar estreitando. – Mas, é claro, não é só a aparência que importa, não é? Algumas pessoas têm segredos que tornam tudo mais complicado…

Valquíria engoliu o seco, desviando o olhar para mim e então para o nada. O seu desconforto era palpável e era nítido que em meio a essa batalha, era ela quem estava perdendo.

Não me restou outra opção senão intervir. – Valquíria, precisamos continuar a vistoria. Ainda temos muito o que fazer e o nosso tempo é curto, – peguei em sua mão e seu olhar para mim foi de partir o coração. Eu nunca a vi tão vulnerável assim… sequer sabia que isso era possível. Para mim, a Valquíria era como a mulher maravilha e totalmente inabalavel.

Pedro olhou para mim, um brilho malicioso nos olhos e um sorriso presunçoso surgindo nos lábios. Juro por deus que o vi julgar até minhas vidas passadas antes de voltar a sua atenção a Valquíria.

– É por ela que você está interessada, não é Val? Eu te conheço muito bem para reconhecer isso, mas olha… eu estou surpreso. Não esperava que fosse rebaixar o seu nível a esse ponto.

É o que, filho da xuxa?!

– Bom, analisando bem, até que faz sentido – ele continuou. – Com tudo que você pode proporcionar a alguém como ela, dificilmente irá se incomodar com o fato de você ser…

Valquíria ficou pálida, seus olhos implorando para que Pedro parasse e isso apenas o fez sorrir sádico. O infeliz estava se divertindo. Havia algo mais ali, algo que o Pedro usava para a manipular. E isso apenas fazia o ódio crescer ainda mais dentro de mim.

– Ela já sabe…? – Pedro deixou a frase no ar. A resposta silenciosa de Valquíria foi o suficiente para ele. Ele riu, um som frio e desdenhoso. – Ah, claro que não. Ainda não teve coragem, não é, Val? Bom, boa sorte com isso. Tenho certeza que vai correr muito bem.

Esparava que a Valquíria, sendo como ela é, fosse reagir. Dar alguma resposta grosseira ou até mesmo um soco, por que não? Mas quando essa reação não veio e eu a encarei, me deparei com a cena que eu acreditava que nunca fosse ver.

Valquíria estava com medo…

Foi só então que eu me dei conta de que esse homem realmente tinha um poder sobre ela. Suas palavras eram muito bem calculadas para paralisar e manipulá-la. E estava dando muito certo. O pior de tudo era que o filho da puta sabia disso.

Ver Valquíria naquele estado fez a minha raiva atingir o ponto de ebulição. Dei um passo à frente, enfrentando Pedro de frente. – Escuta aqui, infeliz. Você não acha que está se achando demais para quem saí por aí com esse topete horroso? Se tem algo a dizer, diga de uma vez ou vá embora.

Pedro pareceu surpreso com a minha reação, mas não se intimidou… eu também não intimidaria. Eu não sei qual o problema da Valquíria que todas as pessoas ao seu redor são altas e o maldito do Pedro não era diferente disso.

– Oh, então quer dizer que a cadelinha também sabe falar. Mas será que vai continuar vocal assim quando descobrir a verdade?

– Foda-se o que você acha que sabe, – retruquei. – Eu estou pouco me fodendo para a sua opinião. Você não me conhece, quem você acha que é para falar alguma coisa?

– Eu sou o ex-noivo, eu a conheço muito bem e posso falar.

“Conhece tanto que, eu em uma noite, fiz mais que você a vida toda”… era o que eu queria responder, mas se eu fizesse, Valquíria iria me matar.

– Posso ver, conhece tão bem que virou ex. E graças a deus. Seria um desperdício uma mulher como a Val continuar com um feio. É sério, você não tem um espelho em casa? Ou um amigo para mandar cortar esse cabelo?

– Se coloque em seu lugar. Você é uma pobre fodida que nunca será nada na vida sem abrir as pernas para um de nós…

– Arrête! Tais-toi ! – A Valquíria leoa que eu conhecia se manifestou. – Si tu parles encore d’elle, je détruirai ta carrière et je ruinerai ta vie… – ela disse em um tom frio e ameaçador, – ne joue pas avec moi, tu le sais très bien !

Eu vou ter que aprender francês… eu não sei o que essa mulher falou, mas deixou o desgraçado pianinho.

– Nos vemos por aí, Valquíria. E lembre-se, estarei esperando quando se decepcionar outra vez e vier chorando arrependida para os meus braços.

– Então espere sentado, – eu rebati.

Observei esse filho da mãe sair do nosso campo de vista para só então olhar para Valquíria. Ela parecia tão sem rumo e desnorteada que me deu dózinha.

– Vamos embora.

Ainda não tínhamos acabado tudo, mas não seria eu que iria comentar isso agora.

– Você está bem? – Perguntei dentro do carro.

– Vou ficar. Agora esqueça o que aconteceu hoje, – Valquíria comentou dentro do carro. – Vamos fingir que esse dia não aconteceu.

– Mas ele te desrespeitou e você vai só ignorar? Eu sei muito bem que pode fazer algo contra ele.

Valquíria deu um sorriso tristonho e balançou a cabeça negativamente. – Gostaria, mas eu não posso.

Seja lá o que esse cara sabia e tinha contra a Valquíria, era algo muito grande e sério. Quem estava se remoendo toda querendo saber era eu… o que será que poderia ser pior que o Apex?!

Durante todo o trajeto, Valquíria permaneceu distante e calada observando a estrada. Ela me pediu para esquecer o que aconteceu, mas ela própria estava passando as cenas em loop em sua própria mente.

No escritório, a francesa foi direto para sua sala ignorando totalmente qualquer um que tentou chamar sua atenção. E não ficaria surpresa se depois ela me dissesse que sequer viu essas pessoas.

– Oxe… aconteceu alguma coisa? A diva não está bem não.

– E não está mesmo, – confirmei. – Foi um stress que só e por fim ela decidiu ir embora sem terminar o que fomos fazer, – entreguei minha prancheta com as anotações que tinha feito. – Eu anotei isso aí… espero que seja o suficiente, qualquer coisa a gente vai lá amanhã. Sei lá… mas é melhor deixar ela aí.

Amanda ficou preocupada, mas aceitou minha justificativa. – Ok… vamos ver no que vai dar.

Meu expediente acabou e mesmo saindo alguns minutos mais tarde, não vi a cara da francesa mais. Diferente de ontem, ela não tentou me abordar ou me convencer a deixar me levar para casa.

Eu estava genuinamente preocupada a ponto de dar uma trégua na raiva que sentia dela para ter raiva única e exclusivamente de Pedro Henrique. Filho da puta…

Que ódio, me fez até falar coisas sujas!

A cena ainda ficou bem viva em minha mente, a ponto de me incomodar mais que as asneiras que meu pai falava durante o jantar. E de deixar meus olhos bem abertos durante a noite. O que será que ele sabe que deixa a Valquíria assim? Será que ela matou alguém? Ok, não é para tanto… talvez vídeos comprometedores? Faria sentido… vai ver ela gravou coisas do Apex e o Pedro tem? É bem a cara de macho achar que todo mundo irá se incomodar com o passado na hora de envolver com alguma mulher.

Eu mesma não iria me importar com o passado de alguém que eu amo… mas muito provavelmente eu iria querer saber de tudo e dependendo da situação fazer juntas também, por que não?

Confesso que eu passei a manhã preocupada e na esperança de que a Valquíria de sempre estivesse de volta. Eu ficaria feliz até se ela fosse uma escrota comigo e comeria uma salada se ela mandasse.

Quando cheguei ao escritório – e finalmente vi a francesa quase duas horas depois, – me deparei com uma versão um pouco melhor que ontem, mas bem longe de ser o que ela costuma ser. Em termos de nós, meros mortais, ela estava perfeita. Roupa não muito diferente das outras mulheres do escritório, sem salto ou maquiagem. Em termos de Valquíria… um desastre total.

Ela ao menos tentou… mas era nítido que não estava bem. Eu nunca a vi tão aérea, calada e quieta.

– Seria perfeito se a gente tivesse aquele scanner de realidade aumentada, – Letícia comentou no meio da reunião. Reunião essa em que a francesa não se pronunciou para absolutamente nada e sequer tirou os olhos do próprio tablet.

– Se eu não me engano, está lá no galpão. Acho que a Bárbara usou a última vez. Val, quem está com a chave?

Todo mundo olhou para Valquíria esperando sua resposta e ela nem sequer ouviu. Só depois de alguns segundos se deu conta de que a reunião havia parado e estavam todos esperando por ela. – Por que estão olhando para mim?

– Você tem as chaves do galpão?

Ela ficou pensativa alguns segundos. – No porta luvas do meu carro tem uma cópia, só precisa descobrir qual é a certa. É só pegar a chave na mesa.

– Perfeito. Vai lá Clarice, – Amanda mandou.

– Aproveita e já busca o scanner, – Mateus se adiantou. – Obrigada querida, te amamos.

Eu não tive sequer chances de responder algo. Depois que descobriram que eu tenho CNH e que nossa chefe largava a chave do carro na minha mão, eu praticamente virei entregadora de Ifood e office girl. Mal cheguei aqui e me fizeram ir no cartório e se não bastasse isso, me pediram para buscar smoothies. Só me submeti a humilhação porquê foi a Val quem comentou que queria primeiro e estava pagando de todo mundo.

Mas essa era a terceira e última vez que iria descer 27 andares até o subsolo onde o carro ficava estacionado. A próxima eu mando para a ponte que partiu. Eu hein… tenho cara de boboca agora?!

Antes de ir até o galpão, eu antes fui procurar pela chave. Também não seria idiota de chegar lá e descobrir que nem estava aqui. Abri o porta-luva em busca das chaves. Em outra palavras, comecei a retirar tudo que estava lá dentro para encontrar o que precisava.

Entre várias tralhas, finalmente achei um montinho de chave que procurava. Não tinha a menor intenção de bisbilhotar, mas, ao puxar as chaves, algo que estava preso nelas acabou caindo no chão. Ao me abaixar para pegar, não pude evitar ver o que era.

Eram dois cartões presos a um cordão decorado com girassóis. A foto e o nome da Valkyrie estavam lá, acompanhados do título: Carteira de Identificação da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista. E o segundo cartão estava escrito em inglês “Hidden disabilities – I have a condition on the autism spectrum” (Deficiências invisíveis – Eu tenho uma condição no espectro do autismo) e atrás tinha novamente a foto, com nome, contato de emergência, alguns simbolos que eu não entendi e outra mensagem “My condition means that I am likely to be anxious in unfamiliar situations, my behaviour can appear to be unpredictable, I may be non-verbal or uncommunicative and physical touch may cause me distress.” (Minha condição significa que eu provavelmente ficarei ansioso em situações desconhecidas, meu comportamento pode parecer imprevisível, eu posso ser não verbal ou não comunicativo, e o toque físico pode me causar angústia.)

Minha cabeça explodiu.

A Valquíria é autista! Meu deus?!

Espera… então era isso? Esse era o segredo que o Pedro sabe e ela quer tanto esconder?

Meu deus… a Valquíria é autista!

Autista.

Autista!

Eu jamais iria imaginar.

«-»

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