Elora Aneva

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Capítulo 06.

GIORGIA

Outro relatório, outra facada no peito.

Entendo que Sarah não tenha gostado da maioria da nossa interação, especialmente quando a forcei o papel de pequena. Ainda assim, o nosso relacionamento não se resumia a isso. Fizemos muito mais que ser apenas mamma e piccolina. Eu dei os seus melhores orgasmos, apresentei um mundo inexplorado de pura luxúria e prazer.

Como alguém que implorava por mais e aos poucos se tornou quase insaciável pôde simplesmente seguir sem sentir falta de nada? Sarah segue em Mykonos, na Grécia. Dessa vez aos beijos com uma mulher… e eu sei, simplesmente sei que não irá encontrar o que procura na pessoa que estava na foto.

– Você me parece um desastre, – Ciara comentou, me observando tomar o meu terceiro ou quarto copo de Whiskey. – O que estava vendo?

– Sarah já está em outra, – virei o celular para Ciara. – Uma loira.

Assim como a maioria dos italianos, eu também tinha o cabelo escuro. Fazia parte da parcela com os cabelos pretos, quase reluzentes. Sarah sempre comentou amar esse tom. Um contraste perfeito aos seus próprios, dourado como o ouro.

– Ela sequer se atrai por loiras… – comentei, sem conseguir disfarçar minha voz já embriagada.

– Você não deveria ficar vendo isso, – Ciara pegou o meu celular nas mãos, provavelmente para ver mais fotos ou excluir todas elas, eu não sei. – Por que ainda fica recebendo relatórios sobre essa garota? Ela te rejeitou e te abandonou. Por que não faz o mesmo?

As palavras de Ciara desceram queimando como o gole de Whiskey. Ser rejeitada e abandonada por sua pequena dói. Dói demais. Eu fui sua mamma. Ela deveria me reverenciar e me ter como centro da sua vida!

– Ela sabe demais.

Ciara bufou balançando a cabeça. – Culpa sua. Existe um motivo pelo qual nós mantemos nossos cônjuges nas palmas das mãos. Nem sempre os nossos métodos são os mais… convencionais. Mas são eficientes.

Revirei os olhos.

Sou julgada por toda família por não ter “pulso firme”. Por optar por métodos mais… como posso chamar? Suaves. Não estou dizendo que sou uma santa ou que tudo que eu faço é correto. Eu só… tenho uma abordagem mais gentil(?).

Não é por acaso que me chamam de “cabeça” ou “cérebro”. Entendo que os métodos físicos dão retorno mais rápido. Impor medo funciona muito bem e até o momento não falhou. Não que não existam pequenos fugitivos; eles só foram capturados antes.

Embora eu use punição física como método de disciplina. Eu quis – e tentei – entrar na mente da Sarah de uma forma mais sutil e manipuladora. E no início deu certo. Porém, em algum momento, eu me deixei cegar e não vi os sinais de que ela própria estava usando meus meios contra mim mesma.

– Acho muito arriscado você manter essa menina por aí à solta. Não estou te dizendo que deva a arrastar de volta para casa, mas ela precisa ser silenciada antes que abra a boca.

Sei muito bem o que “silenciada” significa e não concordo. Não sinto o mesmo amor por Sarah, o que tenho por ela é rancor. Mas não havia ressentimento o suficiente para querer dar um fim em sua vida. Até porque, eu sei que ela não ousaria falar nada.

Talvez não fosse por medo do que eu poderia fazer, mas pelo medo do que os “tios” e “tias” são capazes de fazer sem minha intervenção. E bem, eu não quero e não concordaria com isso, mas eu não moveria um dedo sequer para impedir Ciara se decidisse ir em frente.

Sarah não é mais o meu problema.

– Olha só… eu acho que te julguei mal – Ciara disse em um tom surpreso. Levantei o olhar, confusa sem entender sobre o que estava falando. – Eu não esperava que fosse entrar em ação tão cedo… não enquanto está sofrendo pelos cantos pela outra.

Eu não estou sofrendo pelos cantos por Sarah. Não é sobre ela, é sobre o meu ego ferido.

Mas Ciara não entenderia. Para ela, o meu sofrimento é por Sarah, quando na verdade, o que sinto falta é o que eu achava que era para ela. Mamma.

– Não entendi.

– Quem é essa garota? – Ciara virou meu celular para mim. Era o vídeo dos parabéns de Laura. – É o seu novo interesse romântico? – Ciara voltou a analisar o vídeo. – Ela é linda. Fofa. Nada como uma pequena lapidada para ficar ainda melhor.

– Ela é só uma amiga, – recuperei o celular das mãos de Ciara. – E não, não é o meu novo “interesse romântico”.

– Se não é, então por que a levou para celebrar o aniversário? – Ciara pegou o celular outra vez. Minha condição etílica não me permitia ter reflexo rápido suficiente para a impedir. E bem, era a Ciara. – Eu conheço bem esse lugar do vídeo e ela não tem cara de quem tem condições para te levar nele.

– Era o aniversário dela, eu apenas quis celebrar já que não faria nada. Qual o problema nisso?

– Problema? – Ciaria sorriu, dando zoom no vídeo. – Eu não vejo problema algum. Mas já que não está interessada, eu estou. A Bianca iria adorar…

A interrompi puxando o celular de volta. – Desista dos seus planos antes mesmo de começar a criá-los. Ela não está disponível para você.

– Como se eu me importasse se tem namorado.

O pouco que conheço de Laura era o suficiente para saber que não resistiria muito tempo nas mãos de Ciara. Alguém tão vulnerável como ela, quebraria em estilhaços de modo que não seria possível juntar seus pedaços.

Às vezes, estando ao seu lado, sinto que está à beira de um colapso a qualquer instante.

– Você fique longe de Laura.

Ciara ergueu o cenho desconfiada. – Tem certeza que não está interessada? Porque, isso para mim me parece com alguém bastante interessada.

– Nós não temos nenhum tipo de envolvimento romântico, mas eu estou cuidando do seu lado pequeno.

– Com consentimento?

– Desde quando se importou com o consentimento de alguém? Especialmente uma pequena.

Ciara deu ombros. – Eu não me importo. Você sim.

Da versão adulta, sim. Eu me importo. O lado pequeno, porém, não muito.

Se você der muito ouvido aos pequenos eles viverão a base de sorvete e seguindo os dias sem nenhuma rotina e disciplina. Então, não. Nesse quesito eu sou obrigada a concordar com Ciara totalmente e impor a minha vontade sobre eles.

Ainda assim, eu costumava ter diálogos com a Sarah e tentar negociar algumas regras. E por fazer isso, me chamavam de fraca. Ainda chamam.

– Okay, eu… reconheci o lado pequeno dela e quis a ajudar a se descobrir.

– Se não tem intenção de a manter por perto, por que está fazendo isso? Mais cedo ou mais tarde voltará para a Itália, e aí? Vai largar ela sozinha para lidar com sua própria pequinês? Logo você a mamma da “responsabilidade emocional”?

Voltar para a Itália?

Só de pensar na ideia sinto arrepios pelo corpo. Sei exatamente o que estão pensando e julgando ao meu respeito. E enquanto eles tiverem com a razão, prefiro me ausentar e me poupar do desconforto. Estou muito bem no Brasil.

– Eu não farei isso.

– Então irá ser a mamma dela?

– Também não. Ainda é cedo demais para isso.

– Por que cedo? Quanto tempo mais pretende esperar? Já faz quase um ano. Sarah está em outra… ou melhor, em várias. Você mesmo disse. E ela não vai voltar.

– Eu não quero que volte.

– Então o que te impede de aproveitar quem está na sua frente?

– Ela não significa nada para mim.

Gosto da companhia de Laura, mas não tenho nenhum outro tipo de atração por ela para querer ter algo além. Não estou em busca de um relacionamento.

– Entendi… só me avisa quando acabar de brincar de ser “mamma de mentirinha”, para eu e Bianca assumirmos o papel de verdade.

O último gole de Whiskey não me desceu bem e sentia que vomitaria a qualquer instante. Ignorei totalmente a existência de Ciara e subi as escadas até a suíte principal.

Foi o tempo exato de chegar no banheiro para colocar para fora tudo que bebi essa noite.

Odeio vomitar. Odeio perder o controle do meu próprio corpo e é por isso que nunca bebi demais. Mas desde que me tornei só, eu tenho feito isso com certa frequência que me envergonho.

Me senti uma completa fracassada sentada no chão frio do banheiro ao lado da privada, esperando o meu corpo decidir colocar para fora qualquer coisa que tivesse dentro outra vez.

Eu construí um império inteiro somente com a minha influência e inteligência. Eu fiz e faço muito mais dinheiro que qualquer um em minha família, e não precisei usar a força. Eu tenho poder que nenhum deles têm.

Então por que sou a única que se sente um completo fracasso?

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1 Comentário

  • lologomesaraujo

    Sinceramente estou amando muito essa história

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